A importância de comemorar Mouzinho no 150.° aniversário do seu nascimento (02)

A importância de comemorar Mouzinho no 150.° aniversário do seu nascimento A importância de comemorar Mouzinho no 150.° aniversário do seu nascimento
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de 1855-1955
de MOUZINHO DE ALBUQUERQUE
e Regalo Gungunhana em Chaimite
de 1855-1955 de MOUZINHO DE ALBUQUERQUE e Regalo Gungunhana em Chaimite

Em todas estas acções Mouzinho demonstrou as suas extraordinárias qualidades de chefe e de militar das quais se destacam a sua serenidade e bravura debaixo de fogo, como é ¡lustrado pela sua postura na batalha de Coolela fumando charuto à direita do Coronel Galhado que tinha à sua esquerda o Tenente Pinheiro, que empunhava a primeira bandeira que acompanhou as forças expedicionárias em África e que está hoje à guarda da Sociedade de Geografia. Mouzinho viu o seu cavalo ser morto nesta acção®. Além de corajoso, era intrépido e bravo. Recorde-se a famosa carga de Macontene em que Mouzinho sai do quadrado à frente dos seus 50 lanceiros, levando apenas um… stick!
Mas sabia ser temperado; quando em Mujenga intentava liderar uma perigosa carga, foi detido por Gomes da Costa que lhe chamou a atenção de que os seus deveres de comandante o impediam de se arriscar tanto. Mouzinho apesar de contrariado acatou o alvitre.
Mouzinho tinha, enfim, um conjunto alargado de virtudes militares: iniciativa, capacidade de decisão, sangue frio, estoicismo etc. Comandava pelo exemplo e tinha estofo de general. Aliava a visão estratégica à flexibilidade táctica as quais eram suportadas por vasta cultura e capacidade intelectual e organizativa. E punha em tudo a mais estrita ética.Mouzinho não estava apenas eivado de espírito militar: ele era o espírito militar, como é bem demonstrado por mais uma passagem da carta, tantas vezes citada:

"Porque ser soldado não é arrastar a espada, passar revistas, comandar exercícios, deslumbrar as multidões com os doirados da farda. Ser soldado é dedicar-se por completo à causa pública, trabalhar sempre para os outros".
Mouzinho de Albuquerque
(ín carta ao Príncipe D. Luis Filipe de Bragança)

Mouzinho e os oficiais da campanha dos Namarrais - 1896
Mouzinho e os oficiais da campanha dos Namarrais – 1896

Mouzinho não deixava nada ao acaso e preparava as suas acções. Antes de ser mobilizado para Moçambique, estudou as campanhas que outras potências europeias já tinham realizado em África e aconselhava-se com quem sabia, nomeadamente Caldas Xavier. Obtinha informações sobre o inimigo, o armamento e as tácticas e tentou preparar o seu esquadrão o melhor possível para o que ¡a encontrar e em fazer dele “uma boa tropa”.
Quando embarcou já tinha ideias assentes sobre como se deveriam processar as operações e disso deu conta em artigos que escreveu no jornal Novidades e expôs o que pensava ao próprio ministro do Ultramar. Mas não o conseguiu fazer ao governador de Moçambique António Ennes, quando aportou a Lourenço Marques. A nomeação de Ennes tem uma história curiosa: Quando os Vátuas cercaram Lourenço Marques, em 1894, o governo português não sabia muito bem o que fazer. Ennes estava em Lisboa e erajornalista, na altura. E como tal zurzia o governo. D. Carlos chamou-o e disse-lhe: “Se tu dizes tão mal do governo é porque és capaz de fazer melhor”, ao que aquele respondeu, afirmativamente, desde que o governo lhe desse plenos poderes. O rei convenceu o governo a nomeá-lo Comissário Régio. António Ennes, que chegou a Moçambique em Janeiro de 1895, tinha experiência de África mas não percebia nada de tropa; teve, contudo, a inteligência e a humildade de ir escolher os melhores oficiais que havia na Marinha e no Exército. As operações que vieram a ser planeadas estão, assim, competentemente delineadas (e já tinham come­ çado, tendo-se ferido no combate de Marracuene, em 2 de Fevereiro) e ajustavam-se ao pensamento de Mouzinho, que entretanto chegou em Maio. Este, porém, não gostava de Ennes, embora nunca deixasse transparecer isso em público.
Mas com os seus íntimos tratava-o por “chungocongolo”, expressão depreciativa que no dialeto Quitonga, de Inhambane, quer dizer, europeu grande. Mouzinho era teimoso, acreditava no valor dos militares e não gostava em geral dos paisanos, especialmente dos políticos, que acusava de terem duas caras. Sem embargo, acabou derrotado por eles(6).
Finalmente, Mouzinho era um inovador. Sendo o primeiro a utilizar e a desenvolver o conceito de armas combinado, utilizando o movimento, o choque e a manobra e adequando a infantaria, a cavalaria, a artilharia, as metralhadoras, a engenharia, a intendência e até a marinha, às necessidades de cada acção; desenvolveu novas tácticas, como foram, por exemplo, as cargas de cavalaria em mato cerrado (contra tudo o que se ensinava); e a formação de pequenos grupos de atiradores que procuravam limpar o terreno à volta do quadrado. E a campanha de Gaza foi considerada por numerosos especialistas a mais bem concebida e levada a cabo, de todas as que se realizaram no Sul da África. Este espirito de inovação e gosto pelo risco são características que muito fazem falta nos dias que correm… Pode considerar-se como epílogo da vida militar activa de Mouzinho a ordem à força armada do exército da África Oriental, datada de 30 de Julho de 1898, após a sua demissão de Comissário Régio. Eis um pequeno excerto:

"Srs. oficiais, oficiais inferiores e mais praças desta guarnição... Tenho a consciência que, enquanto estivestes sob as minhas ordens, não teve o vosso brio de soldados portugueses que sofrer a afronta de ver pactuar com rebeldes, poupar o castigo a traidores, nem recuar perante os inimigos de EI-Rei e da Pátria. Entregando o comando resta-me a esperança de que continuem a manter-se intactas nesta província a honra da nossa bandeira e as gloriosas tradições do Exército e da Armada portuguesa".

Que grande contraste encerra esta missiva com aquilo que, durante muito tempo, se apelidou de “Descolonização Exemplar”! …

Mouzinho o administrador

Os prisioneiros das campanhas de Mouzinho, Gungunhana e outros guerreiros vátuas,
foram tratados com humanidade no seu exilio em Angra do Heroísmo
Os prisioneiros das campanhas de Mouzinho, Gungunhana e outros guerreiros vátuas, foram tratados com humanidade no seu exilio em Angra do Heroísmo

Mouzinho, o herói militar, veio a revelar-se também como um excelente administrador e, como nós outros campos, também neste estava à frente do seu tempo. Esta fama obteve-a como Comissário Régio em Moçambique, nomeação algo forçada pelo Rei, não sem que tivesse de ultrapassar alguma oposição surda de políticos influentes. A sua fama deveu-se não só ao trabalho desenvolvido mas também ao modo como decorreu a sua demissão do cargo. Mouzinho, porém, tinha já basta experiência dos assuntos ultramarinos, por ter exercido o cargo de secretário geral, do governo da índia, por três anos, a partir de 1886 e governador do Distrito de Lourenço Marques entre 1890 e 1892. E conhecia ainda muito bem o modo de funcionamento do Ministério da Marinha e Ultramar, que se veio a revelar o seu pior inimigo. Mouzinho era grande adepto dos métodos de administra­ ção colonial inglesa e pretendeu impor as ideias de descentralização administrativa em África que apenas vieram a ser adoptados, e por pouco tempo, após a República, ensaiados em 1914 e reforçados em 1920, com a nomeação de Altos Comissários para Angola e Moçambique.
O seu pensamento é bem ilustrado pelo seguinte extracto de uma circular enviada aos governadores de Distrito, em 29 de Julho de 1896:

“A grande distância e morosidade e pouca frequência de comunicações e o pouco conhecimento e defeituosa compreensão que há na Europa das necessidades e circunstâncias mais atendíveis nós países do Ultramar, tornam improfícua, quando não nociva, a administração directa do governo da Metrópole nas colónias".

E aqui está outro ponto importante que podemos aproveitar para os dias de hoje: a dificuldade em descentralizar, ou, fazendo-a, a incapacidade que tem sido demonstrada em fiscalizar a autoridade delegada. E temos numerosos exemplos destes no Ensino, na Saúde, na Administração do Estado, etc. Enfim uma questão que percorre transversalmente a sociedade portuguesa, consequência directa da falta de autoridade que é o problema número um, com que se debate o país. Citamos mais uma vez Mouzinho:

"... mais ensejo dera de provar que sabia, custasse o que custasse, obedecer ao que lhe era ordenado e que também sabia, doesse a quem doesse, fazer cumprir as ordens que dava".

Mouzinho anteviu e vislumbrou as reais intenções inglesas relativamente a Moçambique e tomou as suas medidas, exactamente o contrário daquilo que os sucessivos governos de hoje fazem relativamente à União Europeia e sobretudo em relação à Espanha. Agem como se Portugal não tivesse interesses a defender, que as restantes potências são todas nossas amigas e que as ameaças são coisas do passado. Não cuidam de ter um sistema de informações minimamente capaz e nem sequer aprendem com os percalços da História, em que a falsa posição do governo francês perante nós, aquando do conflito da Guiné-Bissau, é um dos exemplos mais recentes.
Muita da configuração actual de Moçambique se deve a Mouzinho, que viu o seu sonho de poder continuar o engrandecimento da província coarctado pelo decreto-lei de 7 de Julho de 1898, que lhe cerceava a autoridade como governador. De imediato se demitiu, demissão apenas aceite depois de algumas tentativas para o demover. A aceitação do “status quo” pelo Rei, causou alguma mágoa no nosso herói, como é revelado na sua correspondência para o Conde de Arnoso, seu particular amigo e secretário de D. Carlos.
A carta que escreveu ao Presidente do Conselho, Luciano de Castro, é mais um documento de grande nobreza de carácter e rara altivez, que contém verdades como punhos, e constitui um libelo contra a política dos medíocres. Nela Mouzinho desmonta todas as intrigas e conluios de bastidores, daqueles que conspiravam contra a sua pessoa e o bom governo de Moçambique. Mouzinho desafronta­ -se. Mas a carta é também uma justificação que sentiu dever dar, ao seu Rei e ao povo português que nele tinham confiado, por via da sua renúncia ao cargo.
Numa atitude única, todos os principais colaboradores do Comissário Régio demitiram-se com ele. A carta era também um ataque cerrado aos políticos e José Luciano de Castro ainda tentou, junto do Rei, levar Mouzinho a Conselho de Guerra. Mas este escusou-se alegando que

"não haveria no exército português oficiais que se prestassem a juízes de semelhante réu".

Uma última carta escreveu Mouzinho antes de abandonar Moçambique. Dirigiu-a ao Conselheiro Álvaro da Costa Ferreira, seu sucessor no governo da província. É mais um notável documento em que vem ao de cima a sua integridade e saber.
Nele Mouzinho coloca o novo governador ao corrente da situação do território ao mesmo tempo que se permite dar­ -lhe alguns conselhos fundados na sua experiência. E bem se pode dizer que seguiu a ordem de D. João IV ao Vice-Rei da índia, Conde de Sarzedas:

"Dareis a posse do dito Governo e as notícias e informações que julgardes convenientes ao meu serviço e ao bem e segurança desse Estado".

Da dita carta vamos escolher três trechos que nos dão uma ideia do que era a vida em Moçambique naqueles tempos e das preocupações de Mouzinho.

"Uma das coisas que pior regulada andava nesta Província... era a administração da justiça aos indígenas, para com quem, segundo a lei vigente, se devia proceder como para os europeus. Era impossível considerar este absurdo, pois cada estado de civilização dum povo corresponde o conjunto de leis por que se deve reger e não há pior ilusão do que supor que pela simples aplicação de leis e regulamentos inadequados se passa do estado de selvajaria para o de civilização completa".

Este trecho do final do século XIX traz-nos duas reflexões apropriadas para o início do século XXI, uma de ordem internacional e outra de âmbito interno. A primeira sendo a de que os países do chamado primeiro mundo, continuam a querer impor a Democracia, como ela é entendida no Ocidente, a numerosos povos da África, Ásia e América Latina que não estão preparados para ela, alguns deles vivendo ainda no pós-neolítico ou na baixa Idade Média. E intenta­ -se tal desiderato tal como se a Democracia fosse mezinha para todos os problemas; quanto à coisa doméstica, semeou-se o país de leis pouco apropriadas aos usos e às gentes, eivados de idealismos bacocos, baseados na “Teoria do Bom Selvagem”, de Rousseau e atravessadas por utopismos fôra das realidades originadas nos sobreviventes do Maio de 68, em França e afins. Piorou-se o quadro desautorizando as polícias e permeabilizando o acesso à magistratura de uma quantidade de meninos e meninas que ainda nem sequer sabem o que é a vida. Isto claro, sem falar da organização superior da justiça que origina conflitos de competência constantes, resultando de tudo isto uma barafunda geral, a desmotivação dos agentes, a paralisia dos tribunais e o facto de ninguém, aparentemente, em Portugal se preocupar com o fazer-se justiça e com a prevenção do crime, e satisfazer-se apenas com o exercício deletério do Direito. Mouzinho tinha razão, mas também ninguém lhe ligou.

"Os piores inimigos para a sua administração nesta Província são os especuladores que sem sacrifícios de capitais, que não têm, nem trabalhos, e fadigas em que não são capazes de se meter, pretendem enriquecer à custa da Província, que nada lhes deve, aliando-a a estrangeiros cujos capitais conseguem assim aliciar para à sombra deles, em jogos de bolsa e golpes de agiotagem, adquirirem a cobiçada riqueza".

A que se pode acrescentar uma outra frase do grande apóstolo da índia, S. Francisco Xavier:

"No acabo de admirar los nuevos modus y tiempos, sobre las comunes y regulares que há inventado la avaricia de conjugar este verbo - Rapio, Rapies".

Que dizer de tudo isto? Não sugere uma grande similitude com o presente? Não serão os vários manifestos assinados por diferentes personalidades do nosso meio empresarial e financeiro e político alertando para a alienação em mãos estrangeiras, de muitos dos sectores estratégicos da economia nacional um grito desesperado para evitar o desaparecimento do Estado-Nação português?
Estas tomadas de posição são, sem dúvida, benéficas para o país. Mas não é estranho que levassem tanto tempo a ver a luz do dia, tratando-se de personalidades de alto coturno intelectual e profissional?
E estarão todos a fazê-lo apenas por patriotismo tendo em conta algumas recentes e controversas alienações de património, algum do qual adquirido com facilidades dadas pelo Estado Português?
Eis algumas reflexões que convém fazer..
Já que falámos de estrangeiros não queríamos deixar de contar um episódio – também ele revelador do espírito de Mouzinho -, que se passou com o cônsul alemão em Lourenço Marques. Este, que nos era hostil, ao assistir à passagem de uma procissão, enterrou o chapéu na cabeça.
Tal facto originou o apedrejamento das janelas do consulado por uma multidão irada. Perante a queixa do cônsul, o governo português enviou a Mouzinho instruções para que fosse apresentar desculpas, o que este depois de informado de como as coisas se passaram enviou o seguinte telegrama: “Cumprirei as ordens de V. Exa, mas perante tanta inépcia e cobardia, peço a minha demissão”. Intervém o Rei e pede a Mouzinho o sacrifício de cumprir as instruções. E em atenção ao soberano, Mouzinho, no dizer de Aires de Orneias “…cumpriu a ordem governamental por modo tão insólito que as desculpas mais foram manifestações de altivez”. Mas quando dias depois, Mouzinho embarcava em direcção ao Norte despediu-se afectuosamente de todo o corpo consular, excepto do cônsul alemão que deixou de mão estendida.
De facto é preciso ter brio e é preciso ter vergonha, pois quem não se dá ao respeito, não pode ser respeitado. Um último aspecto que Mouzinho focou ao seu sucessor:

"As companhias recrutavam-se de indígenas vadios, agarrados a cordel em Angola e na própria província. O resultado de tão mau recrutamento era serem os soldados da guarnição uma quadrilha de bêbados miseráveis, sem instrução nem disciplina de espécie alguma, pessimamente armados e equipados e fardados à europeia! e é indispensável que o Governo desta vez seja honesto, cumpra o contrato, doutra forma nunca terá recrutas em termos".

Isto diz alguma coisa sobre o desleixo a que têm sido votadas as Forças Armadas ao longo dos tempos, sobretudo emsituações de paz onde as ameaças aparentam estar esbatidas. Vivemos actualmente tempos destes e já se logrou aprovar esse tremendo erro que representa a desconstitucionalização do serviço militar obrigatório!
Na esperança de não perturbar muito as consciências, também nós parece ser útil deixar este tema para meditação.

Conclusão

"Verba volant
scripta manent
exempla traunt"
Aforismo Latino

"As palavras voam
os escritos permanecem
o exemplo arrasta"

Passou a ser chavão dizer-se que já tudo foi dito sobre Mouzinho. E se calhar foi. As pessoas dizem isto para tentar encontrar algo original para afirmar ou como desculpa para o não terem feito.
E, no entanto, Mouzinho é uma personalidade tão rica e a sua vida encerra tão grandes exemplos, virtudes e ensinamentos que falar dele, em diferentes épocas, não é falta de imaginação nem recordação de passadismo serôdio. Não. Trata-se de rejuvenescer conceitos de sempre – por intemporais – e de alimentar a alma com a comida do espírito, que é uma necessidade intrinsecamente humana. E de apontar o caminho aos mais novos.
A vida de Mouzinho é uma bíblia. É uma bíblia de pundonor, de nobreza, de altos valores políticos, morais e sociais e de bem-fazer. Por isso os seus escritos ficam e o seu exemplo arrasta.
Esta vida, este testemunho deixam uma certeza e uma obrigação a cumprir. A certeza é esta: Mouzinho continuará vivo e lembrado através dos tempos, ao contrário dos seus detractores e dos maus políticos que ninguém falará deles nem lhes fixará o nome, a não ser para serem apostrofados. A obrigação prende-se com o pagamento de uma dívida que a Nação Portuguesa tem para com Mouzinho e sua esposa: cumprir o seu desejo de ser sepultado no Mosteiro da Batalha, onde foi baptizado, com sua mulher a seu lado.
Os seus familiares certamente não se iriam opor a semeIhante designio que devia ser de todos nós, a começar pelos órgãos do Estado e chefias militares.
E se a Mouzinho assiste todo o direito de repousar na Batalha, não menos direito goza sua mulher de o acompanhar. D. María José Gaivão Mouzinho de Albuquerque foi esposa amantíssima e dedicada que sempre acompanhou seu marido mesmo nas condições mais difíceis, chegando a chefiar um hospital de campanha, no Chibuto, onde orientou e ajudou nos cuidados a prestar aos feridos. É pois digna de ombrear com as várias Filipas de Vilhena e Marianas de Lencastre, da nossa História. E seria também um tributo que a Nação prestaria a todas as mães de Portugal que seguraram a familia na retaguarda, quando a diáspora portuguesa espalhou, durante seis séculos, os seus filhos e maridos pelos quatros cantos do mundo.
E como epitáfio para o herói, sugere-se as palavras de D. Carlos, quando soube da sua morte:

"De Mouzinho ficará sempre a memoria do homem que prestou ao País e ao seu Reí os mais relevantes serviços".

Cumulativamente, dever-se-ia transformar a quinta de Mouzinho, na Batalha, num Museu. E quanto à sua estátua que desde 1940 se encontrava numa praça da antiga Lourenço Marques, lá deve ficar porque Mouzinho também pertence à História de Moçambique, território que a ele muito deve e que, sem a sua acção, não seria o que é hoje. Apaziguados os ânimos por recentes fricções da História, importante se torna que ambos os povos, que em tempos formaram uma mesma nação, tomem consciência do que os une de molde a perspectivar um melhor entendimento e coopera­ ção futura. E se se pretender ter por cá uma estátua de Mouzinho, pois que se faça outra.
Mouzinho póde ombrear, salvo as distâncias da canoniza­ ção de São Nuno de Santa Maria, com o grande Condestá­ vel Nuno Álvares Pereira.
Fica bem a cavalaria ao lado da infantaria. Como devem estar os verdadeiros camaradas de armas.

João J. Brandão Ferreira
João J. Brandão Ferreira

Ten. Cor. Piloto Aviador (Ref.)
Membro do Conselho Supremo da SHIP
Mestre em Estratégia pelo ISCSP
Piloto Comandante de Linha Aérea

NOTAS:
(1) “Exércitos” do Gungunhana organizados à semelhança dos Zulus, e que se subdividiam em “mangas”, de 500 ou mais homens.
(2) No âmbito da Quádrupla Aliança.
(3) “Mouzinho de Albuquerque, o outsider”, Diário de Noticias de 16/4/02.
(4) Embora não se deva esquecer a grande figura de oficialque foi o Tenente Sanches de Miranda, adjunto de Mouzinho nesta acção.
(5) O cavalo do Coronel Galhardo, Comandante da colunanorte, chamava-se Mike e tinha sido comprado por Airesde Ornelas, no Transval, por 35 libras. Este magnífico animal veio a passar para a posse de Mouzinho que com elefez toda a Campanha dos Namarrais.
(6) O que também acontece nos dias de hoje.