Lembrar a Batalha

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D. João I de Portugal, D. Nuno Álvares Pereira - guerreiro vencedor de batalhas e D. João I de Castela
D. João I de Portugal, D. Nuno Álvares Pereira – guerreiro vencedor de batalhas e D. João I de Castela

A História é também feita de pequenos actos simbólicos que servem para manter viva a memória colectiva e recordar feitos gloriosos, mesmo quando os tempos possam ser adversos. A vivência e a convivência com o passado leva-nos sempre a perceber claramente o passado e a preparar, sem medo, o futuro.Não é, por isso, um mero exercício académico, vão e estéril, este rememorar do passado, este revigorar do presente, este relançar do futuro. A actualidade permanente deste feito é por demais evidente e quase nem valia a pena esmiuçá-lo. Ou talvez, precisamente por isso, é que se torna necessário dizer de novo o que já foi dito e trazer à lembrança de todos o que para muitos foi propositadamente esquecido. A história das nações está repleta de batalhas: ofensivas, umas; defensivas, outras. Nem sempre necessárias – e nem todas vitoriosas – constituem, no entanto, marcos de referência fundamentais na formação da consciência colectiva, na definição de fronteiras, na manutenção da independência, na visão geoestratégica e na concepção geopolítica. Para alguns, a história militar não se resume à história das batalhas no seu sentido estrito, buscando ir mais além através da investigação e estudo do armamento utilizado, do seu fabrico e armazenamento, dos recursos militares e recrutamento de soldados e alimária, da estratégia gizada, da táctica aplicada, da balística da época, das crenças e devo­ ções, dos santos invocados, das fidelidades pessoais e do nascimento do novo conceito de pátria, enfim, dos medos e coragem perante a foice da morte que transporta os heróis desta pálida pátria terrestre para a inevitável pátria celeste. Tudo isto é, naturalmente, verdade mas sem o estudo das batalhas, na sua rudeza e crueza, não há simplesmente história militar. É que há, nunca é demais dizê-lo, batalhas que marcam definitivamente a história, constituindo pontos de referência e balizas cronológicas que encerram um ciclo e abrem um novo tempo. Assim, Aljubarrota. Mas voltemos um pouco atrás.

"E, de repente, rompe-se a vanguarda portuguesa. Mas logo se refaz. E contra­ataca, com talforça e ímpeto que deita por terra o pendão de Castela, gerando de imediato o pânico entre o inimigo. Ainda eram sete da tarde quando se ouvem gritos de alguns portugueses: ‘Já fogem! Já fogem!’ Era verdade. Os castelhanos, desnorteados e sem ter quem os comande,fogem em debandada".

A 22 de Outubro de 1383, nove dias antes de completar 38 anos faleceu em Lisboa D. Fernando. De acordo com as cláusulas do tratado de Salvaterra de Magos, ficou D. Leonor Teles como regente, com o título de Governadora e Regedora do Reino de Portugal e do Algarve. Não era a Rainha amada pelo seu povo e bem vista pela Nação, que não lhe perdoara atitudes e comportamentos antigos, nem a excessiva influência que junto dela gozavam alguns fidalgos, como o galego João Fernandes Andeiro, conde de Ourém. Julgavam também muitos que não tardaria D. Leonor a entregar o reino a seu genro, o Rei de Castela, e temiam, por isso, que perdesse Portugal a independência. Mas pesava em quase todos o juramento, sagrado e solene, feito em Santarém, que obrigava à lealdade para com D. Beatriz casada com o monarca castelhano. Convém lembrar que eram então os juramentos feitos sobre a hóstia consagrada, implicando pecado grave a falta a tão solene compromisso.

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Mas já outros sentiam na sua consciência que, mais do que a lealdade pessoal que os obrigaria à perda da independência, se impunha agora a lealdade nacional que a mesma preservava e defendia. A questão estava apenas em saber quem melhor assumiria a bandeira da independência face à ambição de Castela.

Voltaram-se então para a figura do infante D. João, filho de D. Pedro I e de D. Inês de Castro, o qual, vivendo embora em Castela, gozava de grande prestígio no reino e tinha a seu favor – pelo menos era essa a opinião corrente – ser filho legítimo do Rei. Mas não dormia o monarca castelhano que, conhecedor das intenções dos portugueses, logo mandou prender em Toledo o infante D. João.Tivera, contudo, D. Pedro I outro filho, a quem também dera o nome de João e que, embora ilegítimo, ocupava o alto cargo de Mestre de Avis. É para ele que se voltam agora todos quantos se opõem a D. Leonor Teles, pedindo-lhe que assuma o pendão da liberdade nacional. Aceita o Mestre de Avis fazê-lo mas apenas em nome de seu meio-irmão, preso em Castela, que julgava mais merecedor de cingir a Coroa portuguesa. O tempo, porém, se encarregará de provar o contrário e de demonstrar com toda a evidência que só ele tinha capacidade e merecimento para se sentar no trono de seu pai.

Entretanto D. João de Castela exige a D. Leonor Teles que seja lançado pregão por D. Beatriz. Mas nem todos aceitam a ordem da Rainha viúva e ouvem-se, aqui e além, vozes de “Arraial, arraial por Portugal!”. Em Lisboa, é morto o Conde de Andeiro. A partir daqui, os acontecimentos precipitam­ -se. O Mestre é proclamado Regedor e Defensor do Reino. A Rainha, temendo pela sua vida, foge para Alenquer e daí para Santarém, de onde escreve ao genro a pedir-lhe que tome posse do trono português. Não se fez rogado o Rei de Castela que invade Portugal pela Guarda e vai ter com D. Leonor a Santarém. Mais tarde, decide marchar sobre Lisboa que resiste ao cerco castelhano. E quando a fome e o desespero pareciam já não ter limites entre os habitantes da cidade, declara-se a peste no acampamento do monarca castelhano, pelo que este se retira apressadamente. Aproveitando estas tréguas, o Mestre de Avis convoca Cortes para Coimbra.

"É que há, nunca é demais dizê-lo, batalhas que marcam definitivamente a história, constituindo pontos de referência e balizas cronológicas que encerram um ciclo e abrem um novo tempo. Assim, Aljubarrota".

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“Os grandes estadistas não são apenas aqueles que têm uma visão superior da política e um sentido profundo da realidade humana. São também os que sabem rodear-se dos homens certos no momento exacto, e deles recebem incondicional apoio e entusiástica dedicação. Contou D. João, Mestre de Avis, com homens deste calibre”.

Os grandes estadistas não são apenas aqueles que têm uma visão superior da política e um sentido profundo da realidade humana. São também os que sabem rodear-se dos homens certos no momento exacto, e deles recebem incondicional apoio e entusiástica dedicação. Contou D. João, Mestre de Avis, com homens deste calibre. Primeiro, o antigo chanceler mor do Reino, Álvaro Pais; depois, esse militar brilhante que foi D. Nuno Álvares Pereira, futuro Condestá­ vel. E eis que surge agora, porque o combate é outro e diferentes são as armas, o Doutor João das Regras, professor de Direito da Universidade, que nas Cortes de Coimbra vai, com inteligência e habilidade, defender a causa do Mestre. Reúnem-se as Cortes em Coimbra nos meses de Março e Abril de 1385. Como era habitual, encontram-se presentes membros do clero, da nobreza e procuradores das cidades e vilas. As Cortes começam por declarar vago o trono, seguindo-se uma acalorada discussão sobre quem devia ser o futuro Rei de Portugal. De facto, o país encontrava-se dividido em três partidos. O partido legitimista considerava D. Beatriz como herdeira legítima e, por isso, não estava presente nas Cortes, tendo seguido o monarca castelhano ou tomado voz por Castela. O partido legitimista-nacionalista defendia o infante D. João, filho de D. Pedro e D. Inês de Castro, e, assim, natural herdeiro ao trono português, embora se encontrasse preso em Toledo. Finalmente, tinha vindo a afirmar-se cada vez mais, contando com fortes apoios em todos os grupos sociais, a candidatura do Mestre de Avis, que constituía o partido nacionalista, não só pela impossibilidade de o irmão ocupar o trono por se encontrar preso em Castela, se não também, e sobretudo, pelas inegáveis provas de coragem e de patriotismo que tinha demonstrado e pelas garantias que oferecia na intransigente defesa da independência nacional. Estavam, porém, ainda alguns membros da velha nobreza relutantes em aceitar o Mestre, por ser filho ilegítimo de EI-Rei D. Pedro. Foi então que se ouviu a sólida argumentação do Doutor João das Regras que todos venceu e convenceu. E a 6 de Abril de 1385 é o Mestre de Avis, D. João I, aclamado Rei de Portugal. Resolvido o problema jurídico, outros havia que não esperavam demora. Era necessário que D. João I, agora como Rei, chamasse à razão os que tinham tomado o partido de Castela, pela força das armas se necessário fosse, conquistando castelos ou assenhoreando-se de praças-fortes. Havia que impor a ordem interna, para fazer face à invasão externa que se avizinhava. Assim se fez. Vai EI-Rei ao norte, onde é recebido festivamente no Porto, entra em Guimarães, Braga, Ponte de Lima, recuperando terras, recebendo apoios, engrossando o exército. Aproveitam os castelhanos para invadir Portugal pela Beira, na direc­ ção de Viseu, deixando ao passar um rasto de destruição. Mas esperam-nos no regresso forças portuguesas sob o comando de Gonçalo Vasques Coutinho, as quais, perto de Trancoso, lhes infligem pesada derrota. No Alentejo, atacaram os castelhanos Eivas, que cercaram durante alguns dias, porém sem grande êxito.Nos princípios de Julho, entraram de novo em Portugal com um numeroso exército que de Almeida se dirige para Santarém, com o objectivo de conquistar, de uma vez por todas, a cidade de Lisboa e acabar com a rebeldia desse “Rei de Avis como depreciativamente tratava o monarca castelhano o novo Rei português.E aqui levanta-se uma questão fundamental: será que para ser efectivamente Rei não terá D. João I de o provar militarmente, no campo de batalha, vencendo e assim convencendo definitivamente o Rei de Castela? Esta ideia está de acordo com a mentalidade da época e é seguida, de imediato, por D. Nuno Álvares Pereira que se encontra com o seu Mestre de Avis em Abrantes, vindo do Alentejo, onde se realiza um conselho para debater esta questão. Sugerem alguns que se deve fazer “guerra guerreada” na Andaluzia – uma espécie de guerra de guerrilhas – para obrigar o monarca de Castela a desistir da conquista de Lisboa, o que, além do mais, não parecia muito lógico. Há aqui uma clara estratégia, um pensamento estratégico bem definido que, naturalmente, transforma a futura batalha de Aljubarrota na batalha, pura e simples, na batalha por excelência. Não nos esqueçamos que o monumento erigido em honra de Santa Maria da Vitória é conhecido como Mosteiro da Batalha – sem dizer qual – e a povoação que à sua sombra nasceu, cresceu e tão bem se desenvolveu, igualmente se chama, com todo o orgulho, a Batalha.D. João I e D. Nuno Álvares Pereira congregaram, pois, as suas forças e decidiram cortar o passo às hostes castelhanas na estrada Leiria – Alcobaça. Saindo do acampamento de Porto de Mós, na manhã­ zinha do dia 13 de Agosto – que eram um domingo – D. Nuno Álvares Pereira fez um reconhecimento do local e escolheu, como todos sabemos, o planalto de S. Jorge, pela sua excelente posição, para dar combate ao inimigo. Este local era um ponto alto, penoso portanto de subir para homens de armas pesadamente equipados e magnífico para os atiradores adversários, além de estar protegido, quer na frente, quer nos flancos pelas linhas de água que corriam para o rio Lena. Virado a norte, de frente para Leiria, podiam ver chegar os castelhanos e estavam com o Sol pelas costas, o que lhes facultava também a visão do inimigo.Colocaram-se no terreno previamente escolhido e aguardaram pacientemente a aproximação do exército castelhano. Muito se tem discutido qual o número de combatentes, de parte a parte. As fontes escritas e os dados arqueológicos, recentemente actualizados, não nos dão números coincidentes. Mas é de crer que a desproporção fosse grande, com vantagem para D. João de Castela, se bem que a táctica adoptada por D. Nuno – um estreito corredor – e a morosidade da deslocação do exército castelhano, terá constituído grande vantagem para a hoste portuguesa.Os portugueses colocaram-se no terreno, por volta das 7 horas do dia 14 de Agosto de 1385, segunda-feira, véspera do dia da Assunção de Nossa Senhora. Meia hora depois, chegou D. João I. Às dez horas as posições estavam definidas. Porém, só por volta do meio-dia surgem no horizonte os primeiros castelhanos. Mas não combatem ainda. São poucos e a posição da hoste portuguesa é extremamente vantajosa. Iniciam então a sua marcha torneando a posição portuguesa. A vanguarda portuguesa desloca-se mais para sul, completando ou reforçando a sua posição com valas, abatises e covas de lobo. Cerca das 15 horas as tropas portuguesas estão com as suas posições bem definidas. É então que se agitam alguns cavaleiros e escudeiros. É um pequeno reforço que vem das Beiras, sob o comando de João Fernandos Pacheco. Entretanto, vão-se juntando os castelhanos mais atrasados, entre os quais vem o próprio monarca de Castela. O nervosismo aumenta, o sol aperta e a sede espalha-se por todo o lado. Nisto, a vanguarda castelhana avança. Pouco passa das seis da tarde. D. Nuno, à frente dos seus homens, sustém o ataque. Das alas, os arqueiros e besteiros – entre os quais alguns ingleses – lançam sobre o inimigo uma nuvem de setas. Mesmo assim os castelhanos continuam a avançar. E, de repente, rompe-se a vanguarda portuguesa. Mas logo se refaz. E contra-ataca, com tal força e ímpeto que deita por terra o pendão de Castela, gerando de imediato o pânico entre o inimigo. Ainda eram sete da tarde quando se ouvem gritos de alguns portugueses: “Já fogem! Já fogem!” Era verdade. Os castelhanos, desnorteados e sem ter quem os comande, fogem em debandada. É o salve-se quem puder. E até o próprio Rei de Castela foge para Santarém e daí para Lisboa, onde aguarda a esquadra que o há-de levar de regresso ao seu país. Aí, proclamou luto nacional durante dois anos, tão grande foi para si a dimensão da derrota. E durara a batalha pouco mais de meia hora, o suficiente para desbaratar o poderoso exército castelhano e manter EI-Rei D. João I no trono de Portugal independente.Mas tal só foi possível devido à capacidade técnica e moral do comando português, personificado no Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira. Tinha uma estratégia clara, obrigando o inimigo a desviar-se do seu objectivo prioritário – a conquista de Lisboa – e a dar-lhe batalha campal. Aí soube escolher a posição mais favorável, reforçando-a convenientemente e manobrando as suas hostes de modo a cortar a progressão do inimigo, fazendo-o sempre em segurança, isto é, sem deixar a sua posição vantajosa no planalto de S. Jorge, concentrando as suas forças – ou concentração de massa – ao contrário dos castelhanos que as dispersaram, mantendo também sempre a unidade de comando – o que não sucedeu com os castelhanos – e sabendo passar, no momento próprio, de uma atitude defensiva para uma atitude ofensiva.

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Mas não é só no plano militar que a Batalha de Aljubarrota é um marco fundamental, não apenas na nossa história militar mas na própria história militar europeia, no contexto da Guerra dos Cem Anos no final da Idade Média. É em Aljubarrota, e sobretudo a partir de Aljubarrota, que se afirma cada vez mais a consciência nacional, a noção de que Portugal é um ente, algo que existe de per si, autónomo e independente. “Arraial, arraial, por D. João I”. Com certeza Mas, como já se disse antes, sobretudo “Arraial, arraial por Portugal”.Também em Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385, nasceu ou renasceu Portugal. E não é, por isso, por acaso, que digo apenas que aqui foi a batalha. A batalha da vitória, a batalha do futuro. Caiu por terra o pendão de Castela; ficou bem alta a bandeira das quinas. E o povo que apoiou o Mestre, o povo português, foi-lhe fiel. Ontem como hoje, também, repetirei como o Poeta Fernando Guedes “Sou do meu Povo / É tarde já para escolher bandeira”.

António Leite da Costa
António Leite da Costa

Licenciado em História, sócio da SHIP
Ex-director da Casa de Cultura de Coimbra
Autor da História de Portugal em 3 Volume da Editorial Verbo