Portugal, o Mar e o Futuro

Portugal, o Mar e o Futuro Portugal, o Mar e o Futuro
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Considero que todo e qualquer cidadão não se deverá limitar apenas a constantemente criticar os outros, a zurzir nas atitudes ou decisões do Governo, ou a dizer permanentemente mal do vizinho.
É numa tentativa, embora modesta, de não pertencer a esse grupo, que me esforçarei por apresentar algumas soluções, começando por expor brevemente algumas coisas que me atormentam como cidadão, como ex-combatente, como Pai de familia (e agora já principalmente como avô), como sexagenário, caminhando a passos largos para septuagenário, e como membro da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.
A alguns dos nossos decisores polí­ ticos falta experiência de vida e conhecimentos sobre a nossa história recente ou antiga, tendo sobre esta última matéria uma opinião distorcida ou influenciada pelo pensamento corrente na época actual.
Aliás, muitos desses decisores desconhecem os territórios que os Portugueses administraram até 1974, ou por não terem participado directamente na vida social e política da Nação por se encontrarem fora do País ou dele voluntariamente se terem afastado, ou porque a sua tenra idade não lhes permite saber o que por lá se passava.
Como já atrás referi sou sexagenário, avô, militar da Armada, ex-combatente e membro da SHIP. Entendo que isto é suficiente para me permitir expor algumas ideias sobre Portugal, embora não seja político, estratega ou historiador. Sou apenas um marinheiro, que por isso mesmo tem viajado alguma coisa e que recentemente tem tido oportunidade de melhor analisar aquilo que se passa em muitas partes desse mundo de além-mar que se relaciona com o Portugal daqui.
Peço portanto aos estrategas, aos frequentadores do Instituto de Defesa Nacional e às pessoas que são especialistas nesta área, que perdoem este humilde marinheiro, que se tem fundamentalmente preocupado com a História da Náutica e dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa e que é a segunda vez que se atreve a fazer uma exposição sobre esta matéria, tendo sido a primeira num Congresso do Mar na Nazaré.
Depois desta breve tentativa de justificação do meu atrevimento, irei expor algumas ideias que incidirão, principalmente, sobre as minhas mágoas de ex-combatente que assistiu em Moçambique à sucessão de acontecimentos, muitos deles trágicos, a partir de 1974, sobre as ideias preconcebidas que circulam na nossa sociedade acerca do nosso papel no mundo no passado e no presente, sobre a permanente atitude, bem Portuguesa, de disparar críticas em todas as direcções e à vergonha que têm do passado histórico do seu País, sobre aquilo que em contrapartida tenho sentido quando visito os locais por onde os Portugueses passaram e sobre a minha opinião acerca da Europa, do Mar e do Mundo, e ainda do papel que a nossa venerável Nação poderá nele desempenhar.
Estas ideias são fundamentalmente baseadas em algumas leituras, na atenção permanente ao que se passa ao meu redor, no estudo relativamente profundo que tive oportunidade de fazer sobre a História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa e ainda na minha experiência anterior e actual, não só na Armada durante o serviço activo, como posteriormente devido ao meu envolvimento na História Marítima de Portugal.
Além disso, a minha educação na Armada ensinou-me a ter como principal preocupação servir o meu país, e esse princípio, talvez por alguns considerado um defeito, se fosse utilizado por um maior número de responsáveis pela condução dos negócios públicos presentes e passados daria porventura melhores resultados práticos.
Como acima disse, visitei muitos locais onde os vestígios da cultura Portuguesa, misturada com outras culturas, são marcantes, actuantes e vivos.
Acrescento ainda que durante 0 serviço activo tive oportunidade de permanecer em operações militares 4 anos na Guiné, primeiro como fuzileiro e mais tarde no comando de uma lancha de desembarque, e que assisti à revolução de 1974 em Moçambique, onde permaneci mais de quatro anos em cargo essencialmente administrativo, na capitania do Porto de Inhambane, donde saí em Março de 1975.

"…irei expor algumas ideias que incidirão, principalmente, sobre as minhas mágoas de ex-combatente, que assistiu em Moçambique à sucessão de acontecimentos, muitos deles trágicos, a partir de 1974, sobre as ideias preconcebidas que circulam na nossa sociedade acerca do nosso papel no mundo no passado e no presente, sobre a permanente atitude, bem Portuguesa, de disparar críticas em todas as direcções e à vergonha que têm do passado histórico do seu País, sobre aquilo que em contrapartida tenho sentido quando visito os locais por onde os Portugueses passaram e sobre a minha opinião acerca da Europa, do Mar e do Mundo, e ainda sobre o papel que a nossa venerável Nação poderá nele desempenhar"

É claro que me considero um felizardo em comparação com os meus camaradas do Exército, visto que alguns deles chegaram a fazer cinco comissões no Ultramar.
Sobre a minha vida no Ultramar, gostaria apenas de referir que fui nomeado para o comando da LDG na Guiné em 1968 com uma antecedência de apenas uma semana, tendo que me deslocar para aquele território com a minha mulher, que levava nos braços o nosso primeiro filho, esperando já o segundo.
Não tinha à chegada a Bissau um psicólogo à minha espera para me acompanhar a mim ou à minha família naquela aventura. Como não tínhamos qualquer apoio logístico, dirigimo-nos ao Grande Hotel de Bissau, só grande no nome e na diária exigida.
Recebi ordens nesse mesmo dia para efectuar uma saída de treino em zona de combate, em navio semelhante àquele onde ficaria a servir por dois anos.
Nas semanas seguintes, a casa por nós alugada foi sendo aos poucos mobilada, com móveis do depósito de inúteis e recuperáveis, o que nos espicaçou a imaginação decorativa. Eram de facto outros tempos!
Mas regressando à história do nosso País, na minha opinião a História de Portugal não se resume à época dos Descobrimentos, aos séculos XV e XVI, normalmente considerados a época de ouro Portuguesa.
De facto, a expansão ultramarina Portuguesa desses séculos, já inequivocamente interpretada actualmente como o início da globalização, foi precedida de uma opção política marí­ tima logo em fins do século XIII, com o estabelecimento de relações comerciais regulares com o Norte da Europa, passando ainda Lisboa a ser porto frequentado pela navegação que do Mediterrâneo ligava as cidades-estados italianas, que também por essa época substituíram a sua ligação continental à Europa do Norte, pela ligação marítima.
Em 1990 tive oportunidade, quando prestava serviço a bordo da Sagres, de ser o convidado de honra em Bruges, na Bélgica, para um jantar medieval feito com a periodicidade de 25 anos, que reconstituía a boda nupcial de Isabel de Portugal, irmã do Infante D. Henrique, com Filipe o Bom de Borgonha, que no seu condado incluía Bruges, onde existia há mais de um século, uma feitoria Portuguesa.
Prosseguindo no resumo histórico, se recuarmos mais um pouco, a reconquista do nosso território teve em muitos casos um carácter anfíbio, como por exemplo as conquistas de Lisboa e de Silves, sendo o mar o nosso permanente trunfo estratégico e táctico, e o garante posterior da nossa independência, face às tentativas centrípetas de Castela.
Depois da conquista de Ceuta em 1415, mais uma opera­ ção anfíbia, Portugal iniciou a sua expansão ultramarina em larga escala, tendo em pouco mais de um século levado a cultura Europeia, por via marítima, à China e ao Japão. E tudo isto concretizado com uma massa humana de pouco mais de um milhão de habitantes, quando as suas congéneres Europeias tinham entre cinco a dez vezes mais população.
Por fins dos séculos XVI até meados do século XVII, quando a união das coroas Portuguesa e Espanhola trouxeram para Portugal os inimigos de Espanha, tendo-se em consequência perdido vários territórios, alguns foram posteriormente recuperados e noutros se alargou a influência da administração e da cultura Portuguesas, onde predominou em grande parte a natural miscigenação com outros povos e outras culturas.
Por todo o século XVII e XVIII se alargaram os territórios sob administração Portuguesa, nomeadamente os novos territórios do Estado da índia e a exploração e consolidação da soberania no interior do Brasil.
No século XIX passámos da Monarquia Absoluta para a Monarquia Constitucional e criámos uma grandiosa e única Nação, pronta a servir, o Brasil, enquanto que a vizinha Espanha originou dezenas de Estados nas Américas do Sul e Central.
Criámos ainda, sob a pressão das potências europeias, os Estados de origem Portuguesa de África, cujas fronteiras delimitámos e que ainda hoje se mantêm.
No século XX derrubámos uma Monarquia Constitucional, substituindo-a por várias anarquias constitucionais, e em 1926 iniciámos um regime de partido único que foi derrubado em 1974 e que foi seguido por uma época muito turbulenta e finalmente conseguimos estabilizar uma democracia em moldes Europeus.

“Todo este percurso histórico da nossa Nação de quase 900 anos de existência, que nunca é demais dizer é a mais antiga da Europa e uma das mais antigas do mundo, foi sempre ligado ao mar e ao mar deve a sua independência”.

Todo este percurso histórico da nossa Nação de quase 900 anos de existência, que nunca é demais dizer é a mais antiga da Europa e uma das mais antigas do mundo, foi sempre ligado ao mar e ao mar deve a sua independência.
Antes de prosseguir, gostaria apenas de fazer alguns breves comentários, que me parecem oportunos, relativos às minhas impressões de carácter socioló­ gico e político, correspondentes às minhas vivências na Guiné, na primeira e segunda comissões, e em Moçambique.
Na Guiné, território onde havia grande percentagem de tropas metropolitanas a viver na cidade de Bissau, nunca assisti a qualquer conflito de ordem étnica entre os soldados, marinheiros e aviadores do Continente e os soldados e marinheiros oriundos da Guiné ou entre estes e a população local, cuja diversidade étnica é bem conhecida.
As namoradas do nosso pessoal tinham os mais variados matizes, e os únicos conflitos a que assisti foram alguns interarmas, tal como os provocados, por exemplo, pela rivalidade entre pára-quedistas e os fuzileiros.
Os bailes a que assisti eram praticamente monorraciais, isto é, a maioria esmagadora dos seus intervenientes eram negros, aliás, negras ou mulatas. Na minha segunda comissão, já acompanhado pela minha mulher, não tivemos notícia de nenhum conflito, a não ser os já referidos interarmas.
Em Moçambique, onde como disse permanecemos quatro anos já entre 1971 e 1975, nunca sentimos ódio racial, conflito étnico ou terrorismo em cidades. O conflito militar estava muito limitado ao Norte do país e se problemas havia, eram entre a população branca e os militares metropolitanos, em zonas do Norte do território.
Aliás em Inhambane, na Escola Técnica onde minha mulher dava aulas, 90 por cento dos alunos eram negros, mulatos ou indianos, sendo a maioria dos professores Moçambicanos de variada origem étnica.
O Intendente Administrativo era Cabo-Verdiano, o escrivão da Capitania (a entidade hierarquicamente a seguir ao Capitão do Porto) era um mulato com Pai Português e Mãe angolana e cerca de 90% do pessoal da mesma era pertencente à população do território.
Está claro que eu nunca estive em Moçambique nos anos trinta, onde havia problemas sociais graves nas áreas de plantação de algodão, assim como também não vivi no Alentejo no tempo da Catarina Eufémia.

Cacheu, Guiné, 1968
Cacheu, Guiné, 1968

"Esse Mar onde cerca de 230 milhões de seres humanos falam esta nossa língua e onde deixámos património edificado, muito dele fruto da mistura de estilos, que é extraordinariamente representativo, mesmo se comparado com o património criado por outras nações no mundo".

Inhambane, 2004. Calorosa recepção ao antigo Capitão do Porto
Inhambane, 2004. Calorosa recepção ao antigo Capitão do Porto

Também não vivi na Guiné nos anos 40 ou 50, no tempo dos incidentes do Pidgiguiti, como também não vivi nos Estados do Sul dos Estados Unidos, nessa época com os problemas conhecidos de conflitos raciais.
Também não vivi em Moçambique ou no Brasil em fins do século XVIII e durante o século XIX com os seus problemas de consolidação da soberania Portuguesa e de desenvolvimento do território, como também não vivi na Austrália, Nova Zelândia, ou nos Estados Unidos na mesma época, com problemas idênticos e porventura com soluções muito mais brutais do que as que se adoptaram nos territórios sob administração Portuguesa.
Uma coisa é certa, aquilo que vivi no terceiro quartel do século XX, foi em parte contemporâneo com o que viveu um soldado americano no Vietname ou um francês no Vietname ou na Argélia, salvo as devidas proporções cronoló­ gicas para o caso Francês. E Deus sabe quão diferentes eram as situações sociais em Saigão ou Argel.
Isto é apenas para tentar demonstrar a opinião que tenho, por observação directa dos territórios onde vivi, de que a nossa maneira de conviver com os povos do Ultramar terá sido diferente para melhor, aos olhos dos princípios morais actuais, do que a que foi prosseguida pelos outros povos com responsabilidades Imperiais.

Pessoal da Capitania de Inhambane. Moçambique
Pessoal da Capitania de Inhambane. Moçambique

"E o nosso futuro será a Europa e só a Europa, onde estamos integrados de pleno direito, até porque fomos, entre outras coisas, os responsáveis pelo arranque inicial da sua imparável expansão pelo mundo?Considero que não, e que um esforço grande se deve fazer para não só não perder como também alargar o nosso espaço de influência e intervenção no tal Mar Português, criando condições para que esses laços afectivos e humanos sirvam também os seus povos em todos os outros aspectos, nomeadamente o económico, porque o coraçãopara viver, além de alimento afectivo também precisa do tal cifrão"

É por isso e por outras razões, que exporei mais adiante, que me custou, depois da revolução de 74, à qual, como disse assisti nos seus primeiros passos em Moçambique, ouvir dizer que nem mais um soldado deveria ser enviado para o Ultramar, e que todas as culpas dos anos de guerra em que estávamos envolvidos e dos conflitos que se seguiram à nossa saída imprudente e precipitada, eram devidos ao regime anterior e à sua teimosia.
Também se disse que tal só se tinha passado por vivermos em regime de partido único, porque se vivêssemos em democracia, nunca se teria sequer iniciado a guerra. Eu pergunto se a França não vivia em democracia quando resistiu no Vietname e na Argélia, o mesmo tendo acontecido aos Estados Unidos no Vietname, só para falar em casos quase contemporâneos.
Não quero com isto dizer que considero que o regime político anterior ao 25 de Abril seja o melhor sistema de governo. O que eu quero apenas dizer é que há sempre a tendência para atirar as culpas de uma determinada época para a época antecedente, visto que tal é extremamente cómodo para alijar as responsabilidades dos que a seguir estão a tomar as decisões.
Outra afirmação actual é considerar que o desenvolvimento dos territórios ultramarinos só se deu depois dos massacres em Angola em 1961, quando os economistas e historiadores sabem que o desenvolvimento mais acelerado dos mesmos começou na década de 50 e que naturalmente se acelerou nas décadas posteriores, tendo a pressão social motivada pelo conflito militar tido a sua importância.
Também se diz que a economia Portuguesa em 1974 estava em estado lastimoso. Contudo, uma análise desassombrada do desenvolvimento económico entre 1950 e 1974 feita por economistas conhecedores do assunto, permite-nos concluir que o mesmo era um dos mais dinâmicos do mundo, só suplantado pelo Japão e pelos chamados “tigres asiáticos”. Se em 1950 o rendimento per capita de Portugal era de 30% do dos países mais desenvolvidos do mundo, em 1973 esse rendimento era de 65%, tendo portanto subido 35% em 24 anos. Nos últimos 30 anos esse valor subiu apenas 5%. Se Portugal tomou a prudente e possivelmente inevitável atitude de integrar na década de 80 a Comunidade Econó­ mica Europeia, também foi importante a nossa adesão à EFTA e à NATO na década de 50 do século XX.
Outro factor que se aponta é o carácter esclavagista da colonização Portuguesa. Chega-se a resumira nossa expansão a este comércio, esquecendo todos os outros tipos de comércio e todas as facetas de carácter social ou político que envolveram a nossa expansão. Esquece-se que a sociedade africana tem na sua organização de raiz a prática da escravatura, que este comércio já existia e que actualmente ainda existe, apesar da sua abolição oficial no século XIX.
Esquece-se também que os Portugueses compravam os escravos às entidades políticas locais, e se se levantar actualmente um processo aos responsáveis lusos da época, os reis africanos também serão necessariamente arguidos. O mesmo acontecerá com os nossos antecessores Árabes e com os nossos contemporâneos Franceses, Espanhóis, Ingleses, etc., etc., etc.
Também se, se adoptar a moda actual de pedir desculpa pelos eventuais erros do passado, os compradores têm que pedir desculpa aos vendedores e os vendedores aos compradores e todos estes, por sua vez, desculparem-se perante os escravos.
Acontece ainda que foram os Europeus a acabar com a escravatura, facto que muitos reis africanos do século XIX nunca lhes perdoaram porque lhes estragaram o negócio. Nestas condições lá terão os Europeus que pedir desculpa aos reis africanos por os terem obrigado a acabar com a escravatura. Permitam-me agora que peça desculpa por estar a pedir desculpa não sei bem de quê nem porquê!
Outra ideia corrente é considerar que a atitude mais acertada para a Europa era sair de África logo a seguir ao fim da segunda guerra mundial, sendo a atitude Portuguesa de conservar os seus territórios por mais tempo, um erro estratégico e prejudicial às populações africanas.
Veja-se o que resultou dessa saída da Europa. O que se verifica, ao fim de cerca de 50 anos de independência, é o descalabro das suas economias e do seu ambiente social, e a constante dependência dos novos Estados africanos da ajuda internacional, sendo os seus povos, na esmagadora maioria dos casos, governados por déspotas corruptos que utilizam a ajuda internacional em proveito próprio ou da sua família e amigos, enquanto a população morre de fome.
Outra voz corrente é a de que não havia outra solução para o modo como se efectuou a descolonização Portuguesa, sendo tudo o que se passou depois, consequência da teimosia do anterior regime.
Pessoalmente recuso-me a admitir que não houvesse outra solução e sinto uma grande mágoa por ver o estado em que se encontram a maior parte dos territórios que nós administrámos, que eram viáveis e talvez os mais equilibrados e desenvolvidos a sul do Saara, com excepção da África do Sul, e que abandonámos à sua sorte.

Casa do Capitão do porto de Inhambane em 1974, à esquerda e 2004 à direita
Casa do Capitão do porto de Inhambane em 1974, à esquerda e 2004 à direita

Também me custa constatar que não tivéssemos conseguido defender os interesses dos nossos compatriotas que lá labutavam e que por lá deixaram tudo o que tinham amealhado em capital e infra-estruturas.
Custa-me ter verificado, pelas informações que me chegavam da metrópole a Moçambique, que a única preocupa­ ção das forças políticas que aqui se movimentavam era a sua luta pelo poder, sem prestar qualquer atenção aos seus compatriotas que estavam em África.
Também se diz que os Portugueses que emigravam para África se limitavam a explorar os seus habitantes e a amealhar dinheiro e riqueza. Mas ninguém diz que durante largos anos, antes de 1974, era praticamente impossível transferir dinheiro ou bens do Ultramar para a Metrópole, razão pela qual os colonos lá deixaram tudo, depois da independência.
Custa-me também verificar que se considera natural que Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, que eram ilhas desabitadas e que foram colonizadas por Portugueses e Africanos, e que me parece deverem ser consideradas legitimamente Portuguesas, tenham sido entregues a partidos políticos sem representatividade reconhecida.
Temos naturalmente que admitir que nem tudo foram rosas na expansão Portuguesa ou na expansão de qualquer povo. Quantos conhecem a figura de António Sérgio, um hipercrítico da colonização Portuguesa, bastando por exemplo ler o seu estudo “Em Torno da «História Trágico-Marítima»” incluído na edição de 1956 desta compilação de Bernardo Gomes de Brito. Bastará ler esse estudo, para se perceber que não é unânime, na intelectualidade Portuguesa de qualquer época, o carácter suave e cristianizador e civilizador da nossa colonização.
Contudo gostava de transcrever uma passagem deste pensador Português, que para mim corresponde a uma verdade adquirida. Comentando as motivações reais dos nossos empreendedores ultramarinos e comparando-as com as dos protagonistas da formação dos Impérios desde a antiguidade aos nossos dias, diz António Sérgio: “O que estava em jogo, para qualquer desses chefes, era uma necessidade vital dos núcleos sociais da Europa, que em todos influiu: e o papel de um político propriamente dito foi sempre o de tratar das necessidades básicas, primordiais, prementes, das populações que eles governam. Jamais consistiu na santificação dos homens: seus deveres eram outros. Nos políticos e executores do expansionismo de Portugal, os seráficos intuitos de cristianização das almas (de cristianização genuína, segundo o espírito do Evangelho), foi um rebuço hipócrita. Mais ou menos inconsciente, houve sempre aí hipocrisia.”.
Concordo em parte com estas ideias, que afinal correspondem aos desígnios reais de qualquer povo, e que é em resumo defender os seus interesses.
Mas na realidade, há sempre nas acções humanas um lado yin e um lado yang, um lado mau e um lado bom, se utilizarmos por analogia a filosofia taoista. E se pensarmos em economia e sociologia, haverá sempre o cifrão e o coração. Devido a isso, as acções dos protagonistas de qualquer expansão e as suas consequências têm também elementos positivos, que são de gradação variável conforme a origem desses protagonistas.
Se analisarmos apenas o caso português, e de acordo com a situação actual, não houve uma dramática expansão do cristianismo pela América do Sul e pela África e Ásia, e também em muitas das ilhas da actual Indonésia, onde perdura essa doutrina de amor e tolerância?
Não houve também uma expansão de ideias e de ferramentas de organização social e política, como sistemas de governo, normas de direito, etc. que são actualmente adoptadas, com os devidos ajustamentos, por sociedades aglutinadas pela acção dos nossos antepassados em África, na índia, na América do Sul, e mesmo no Japão ou na China?
Não nos orgulhamos nós afinal de ter este espí­ rito latino e da nossa língua, de cuja institucionalização são responsáveis os colonialistas romanos?
Eu só gostava que António Sérgio lá no Céu, onde eu sinceramente, como cristão, desejo que esteja, abra o sítio da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e leía o texto apresentado pelo ilustre presidente durante a sessão de abertura do ciclo “Os Grandes Desafios de Portugal”. Talvez reveja as suas posições, visto que aquilo que lerá é fruto da experiência de quem viveu não só durante o período em que administrávamos territórios ¡mensos mas também depois do nosso refluxo para este cantinho da Europa.
As ideias de António Sérgio, com diferentes matizes, são as que vigoram na maior parte dos círculos dos chamados formadores de opinião, que nos meios de comunicação social, em mesas redondas, elípticas, octogonais ou de outras desvairadas formas, debitam opiniões que, devidamente absorvidas por alguns sectores do povo nas ocasiões em que não está distraído com a Floribela, o futebol, ou os Morangos com Açúcar, fazem com que esse mesmo povo esteja constantemente envergonhado do seu passado.
Esse mesmo povo fica assim apto a aceitar muito facilmente, como única solução política e social para o nosso país, a sua integração na Europa, cada vez mais alargada e cujo objectivo final é a constituição de uma federação de Estados que necessariamente terão de ter uma política externa e de defesa comuns, além de outras que já estão instituídas.
E é muito fácil convencer o povo a aceitar soluções deste género, visto que até agora a Europa foi uma benevolente fornecedora de dinheiro que, é conveniente assinalar, não corresponde ao esforço produtivo da Nação Portuguesa.
Esse dinheiro, a fundo perdido, tem de facto como objectivo a harmonização das economias dos diferentes países, mas a maioria dos votantes apenas sabe que o capital entra, e enquanto entrar não se opõe nas urnas a outras soluções.
E é facílimo também convencer os nossos representantes eleitos ou nomeados para servir nos organismos comunitá­ rios na Europa, por razões que não me atrevo a esclarecer, ou que são de desnecessário esclarecimento!

Ouro Preto, Brasil, património da humanidade
Ouro Preto, Brasil, património da humanidade


Embora considere que a nossa entrada na Europa foi inevitável e benéfica e que a actual livre circulação de pessoas e bens e a moeda única, entre muitas outras coisas boas, tem sido na prática um factor de desenvolvimento económico e social, não concordo de maneira nenhuma com o seu objectivo final, que é a federação de Estados.
Considero que a defesa dos nossos interesses como Nação passam pelo mar e pela nossa relação com esse veículo da nossa expansão e dar-nos-ão na Europa maior poder negociai e nos territórios e áreas externas à Europa de influência ou cultura Portuguesa um veículo de influência na Europa Comunitária.
Esse Mar que é o de Camões, de Pessoa, ou de Agostinho da Silva, e não fisicamente o mar da zona económica exclusiva, ao qual, não se duvida, se deva também prestar a máxima atenção.
Esse Mar que nos liga ao Brasil, aos Estados Africanos de língua e cultura Afro-Portuguesa, aos territórios do Industão e da Insulíndia e a todas as comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo, nomeadamente as dos Estados Unidos, Canadá e América do Sul.
Esse Mar da em boa hora formada Comunidade de Países de Língua Portuguesa, ao qual estranhamente desejam pertencer a Guiné Equatorial, a Galiza, as Maurícias.
Esse Mar que a milenária Nação chinesa utiliza, através de Macau, onde existe um fórum permanente de Cooperação com os Países de Língua Portuguesa, como meio de expansão dos seus interesses em África, no Brasil ou noutras áreas geográficas onde se fala Português. Esse Mar dos Jogos da Lusofonia, onde participaram além dos oito Estados da CPLP, Sri Lanka, Macau, Guiné Equatorial e índia.
Esse Mar onde se efectuam exercícios militares conjuntos, nomeadamente os exercícios Felino.
Esse Mar onde ainda labutam missionários, que a nossa sociedade abandonou também à sua sorte, e cuja acção não só na difusão do cristianismo, como nos sectores da educação, prestação de serviços de saúde e outras intervenções na área social, tem sido uma mais-valia para as sociedades locais, atenuando os efeitos perniciosos da nossa retirada precipitada.
Esse Mar onde cerca de 250 milhões de seres humanos falam esta nossa língua e onde deixámos património edificado, muito dele fruto da mistura de estilos, que é extraordinariamente representativo, mesmo se comparado com o património criado por outras nações no mundo. Mas conhecem muitos dos Portugueses este Mar, ou têm dele notícia através dos nossos meios de comunicação social?
Sabem também que em Washington se realizou de Junho a Setembro de 2007 uma exposição intitulada, Encompassing the Globe. Portugal and the World In the XVI,h and XVIIth centurias?
Não têm, porque não se fala dele, porque, insisto, se tem vergonha do nosso passado e a moda é a Europa. E do que se fala sobre o nosso passado é normalmente negativo e pejorativo.
A propósito deste tipo de procedimento, refiro muito brevemente uma opinião, expressa numa coluna do Diário de Notícias, de um prestigiado jornalista e formador de opinião, que disse com o seu habitual ar de desdém, há algum tempo, que Portugal, no que respeita a património, era miseravelmente pobre.
A respeito desta matéria, lembro que Portugal tem no seu território Europeu 13 sítios classificados pela UNESCO como património da Humanidade e que dos 144 Estados incluí­ dos nessa classificação, só 1 5 têm maior número de sítios classificados.
Mas se adoptarmos o critério de considerar apenas o património classificado que corresponda à intervenção humana, excluindo assim os que correspondem a património natural, como parques nacionais, etc., Portugal passa a ter somente 9 Estados com maior número de sítios classificados.

Portugal o mar e o futuro
Portugal o mar e o futuro

"...parece-me que o nosso lugar na Europa das Nações, e só das Nações, onde pertencemos de pleno direito, só poderá enriquecer essa mesma Europa devido às nossas ramificações transcontinentais, e que os habitantes do nosso Mar só beneficiarão da nossa posição na Europa, para a qual poderemos ser uma ponte de valor inestimável"

Se agora se considerar o nosso património edificado no Ultramar, retirando-o aos Estados que o detêm, uma vez que são fruto da cultura Portuguesa, embora miscigenada com a cultura local, Portugal irá ficar com mais cerca de 20 sítios, espalhados por todos os continentes, totalizando cerca de 33, o que nos colocaria entre o 5.° e o 2.° lugar! Por tudo o já exposto, e por muitas outras razões é que eu considero que tenho muito mais afinidade com um Cabo- -Verdiano do que com um Sueco, com um Chinês do que com um Cipriota, com um Brasileiro do que com um Finlandês, com um Moçambicano do que com um Polaco, e tudo isto sem menosprezo dos povos que habitam esses países Europeus.
E também me parece que os Franceses, Ingleses, Espanhóis e Holandeses, que mais de perto nos acompanharam na expansão, têm em grande parte semelhantes sentimentos. E tudo isto não apenas por razões afectivas, mas por inegável interesse estratégico.
Basta ver que a Inglaterra não aceitou a moeda única, por ter as costas quentes, permitam-me o coloquialismo, com a Commonwealth, e todos estes países continuam a ter uma agressiva política de influência nos seus antigos territórios coloniais.
No que respeita por exemplo à França, o seu interesse em se substituir a Portugal em Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe é conhecido, o mesmo acontecendo à Inglaterra que em Moçambique conseguiu que esse território pertencesse à Commonwealth.
E a que se deve a riqueza actual da nossa vizinha Espanha, senão aos seus avultados investimentos na América do Sul e também na África lusófona.
Acentuemos também que a Espanha compreendeu que a lusofonia e a castelhanofonia (???), engloba quase 600 milhões de falantes, que se entendem mutuamente, ou pelo menos que os que falam Português os entendem a eles, falantes do Espanhol, tirando deste facto as respectivas vantagens.
Mas o que é verdade é que temos que olhar para o futuro e é para isso que eu humildemente pretendo contribuir. E o nosso futuro será a Europa e só a Europa, onde estamos integrados de pleno direito, até porque fomos, entre outras coisas, os responsáveis pelo arranque inicial da sua impará­ vel expansão pelo mundo?

Portugal o mar e o futuro
Portugal o mar e o futuro
Estátua do Infante D. Henrique evocativa da chegada dos portugueses à ilha de Tanegashima (Japão) em 1543
Estátua do Infante D. Henrique evocativa da chegada dos portugueses à ilha de Tanegashima (Japão) em 1543

Considero que não, e que um esforço grande se deve fazer para não só não perder como também alargar o nosso espaço de influência e intervenção no tal Mar Português, criando condições para que esses laços afectivos e humanos sirvam também os seus povos em todos os outros aspectos, nomeadamente o económico, porque o coração para viver, além de alimento afectivo, também precisa do tal cifrão. E entre nós algo se tem feito, como a criação da CPLP, da RDP África e da RTP África, tendo estas últimas instituições sido um excelente meio de difusão da língua e cultura Portuguesas e da integração das outras culturas na nossa. Podem crer que nos países lusófonos por mim recentemente visitados, estas duas estações são uma referência para os povos dessas paragens.
Também no sector privado e na área da comunicação social, a SIC Notícias é outro factor de união, visto estar acessível, através de satélite, a todo o mundo.
As recentes visitas à China e à índia de altas entidades do Estado Português, são também factores importantes para o estreitamento de laços com os países lusófonos, até porque por exemplo uma visita à China é praticamente uma visita aos órgãos directivos da CPLP!
Na área da educação também se tem proporcionado aos países lusófonos o acesso ao ensino em Portugal, através de bolsas de estudo, e as Escolas Portuguesas têm também sido factor importante de difusão e da interpenetração das culturas da lusofonia. Tive oportunidade de visitar a Escola Portuguesa de Moçambique, que é um exemplo a seguir por outras escolas congéneres, já em formação noutros territórios.
Mas só uma política desassombrada e muito mais agressiva, sem complexos pós-coloniais, que envolva os poderes pú­ blicos, com o objectivo de abrir portas ao sector privado, póde atirar para trás das costas ressentimentos ainda existentes nas elites governantes da África lusófona, que atingiram o poder depois da independência. Note-se que a sua maneira de pensar e agir é muito idêntica a muitas das elites governativas Portuguesas actuais, que como se sabe são fruto das massas vitoriosas da revolução do 25 de Abril. Considero que será necessário rever toda a nossa política externa e de emigração e que se deve avançar rapidamente para o estatuto de cidadão lusófono, devendo estes cidadãos ter tratamento diferenciado do dos outros emigrantes, nos países integrantes do espaço lusófono.
A dinamização do Instituto Internacional da Língua Portuguesa é fundamental e a ratificação do acordo ortográfico recente deverá ser estendida a todos os membros da CPLP, assim como ao Instituto Camões se deverá proporcionar todos os meios para cumprir os seus objectivos.
A integração política dos cidadãos portugueses oriundos da CPLP deveria ser acelerada, através da abertura dos partidos políticos a mais indivíduos nessas condições, o que permitiría, na Assembleia da República ou no poder local uma mais equitativa representatividade.
Considero que não deverá apenas ser o futebol, o atletismo ou o desporto de uma maneira geral, que tenha representantes dos países que falam Português. Não faríamos mais do que faz a Inglaterra, a França e a Holanda em casos idênticos, apesar de nesses países a integração social dos cidadãos oriundos do Ultramar ser mais problemática do que em Portugal.
A organização consistente de um força militar lusófona, de uma ainda maior contribuição portuguesa para a formação das forças armadas nas áreas do ensino e do fornecimento de armamento e na dinamização da divulgação pública dessas acções sem o permanente complexo pós-colonial que aparentemente pretende esconder essas acções, deverá ser incentivada.
Também na área da educação, as bolsas de estudo devem ser alargadas e a instalação de Universidades nas capitais da lusofonia incentivada e alargada.
Também me parece que um maior investimento se deverá fazer na intensificação de relações entre a Região Administrativa Especial de Macau e Portugal nos diversos dominios, nomeadamente no da educação, visto que este rico território, integrado num espaço para o qual parece estar a deslocar-se o eixo do mundo, será um excelente meio de manter, amplificar e dar significado vivo e actuante ao capital humano por nós legado a essa área do globo, onde tantas comunidades, que se reclamam de cultura Portuguesa, subsistem no seio das comunidades locais.
Outra área a não descurar é a do transporte marítimo, que nos livre da nossa dependência permanente dos humores dos camionistas Espanhóis ou Franceses. Não se compreende como uma nação marítima, que já teve uma das grandes marinhas mercantes do mundo, se tenha transformado em frotas de camiões TIR, navegando no asfalto.
Em suma, parece-me que o nosso lugar na Europa das Na­ ções, e só das Nações, onde pertencemos de pleno direito, só poderá enriquecer essa mesma Europa devido às nossas ramificações transcontinentais, e que os habitantes do nosso Mar só beneficiarão da nossa posição na Europa, para a qual poderemos ser uma ponte de valor inestimável. E também me parece que os problemas da época actual só se atenuarão se as pessoas forem reconhecidas ou apreciadas apenas pelo seu carácter, pelo seu mérito, pelo seu comportamento cívico e não pela cor da pele ou crença religiosa. E no Mar Português há muitos exemplos a seguir que o Mundo poderá copiar.
Por isso digo, e para terminar, que a capital do meu País não é, nem deverá ser nunca Bruxelas, Bona ou Paris. A capital do meu País é sim o Martim Moniz.

Vista aérea de Inhambane (cerca de 1965)

Capitão-de-Mar-e-Guerra (Ref.)
Académico da Academia de Marinha e
Mestre em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa
Membro do Conselho Supremo da SHIP