Martinho — de soldado a santo: lenda, capela, Verão, magusto e… um rei português

Castanhas assadas Castanhas assadas
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João Abel da Fonseca

Muito boa tarde caríssimos convivas, com uma saudação especial ao ‘Coral Contas e Cantos’, de Belo Horizonte, e, um por todos, o Senhor Presidente da SHIP, Dr. José Ribeiro e Castro, saudando-o por mais esta excelente iniciativa.

Diz o povo que para as festas querem-se as vésperas e assim estamos a cumprir hoje, véspera do ‘Dia de São Martinho’, 11 de Novembro.

Martinho nasceu na Panónia Prima, actual Hungria, na cidade de Sabária, ou Savária, actual Szombathely, por volta do ano 316, filho de uma família pagã com algum estatuto social, já que seu pai servia, como comandante, numa legião romana. Seguindo a mesma carreira a partir dos 15 anos, o então jovem oficial encontrava-se integrado numa legião estacionada na Gália, actual França, cerca do ano de 338. Diz a lenda que, perto da cidade de  Samarobriva, actual Amiens, num dia frio e chuvoso de Inverno, Martinho seguia montado a cavalo quando encontrou um mendigo, à beira da estrada, a tremer de frio. Sem que nada lhe pudesse dar, pegou na espada e cortou o seu manto ao meio, cobrindo-o com uma das partes, continuando a viagem. Naquele momento, as nuvens negras desapareceram e o Sol surgiu. O bom tempo prolongou-se por três dias. Na noite seguinte, Cristo apareceu-lhe num sonho coberto por aquela parte do manto e, voltando-se para a multidão de anjos que o acompanhavam disse, em voz alta: “Martinho cobriu-me com esta veste”. 

A tradição oral, passada de geração em geração ao longo dos séculos, contava que o sonho impressionara a tal ponto o jovem soldado que este, por ocasião do Natal ou da Páscoa seguinte, se fizera baptizar, tornando-se cristão. A aura de santidade não tardou a correr, sendo que aquele pedaço de manto foi guardado num relicário e conservado num oratório, construído de propósito para aí poder ser visto e venerado pelos crentes. Sabemos, contudo, que foi só mais tarde, em 356, depois de ter abandonado o exército que foi baptizado. Tornou-se discípulo de Santo Hilário, bispo de Pictavium, actual Poitiers, na zona oeste da actual França, que o ordenou diácono e presbítero, regressando de seguida à Panónia, onde converteu a mãe. De volta à Gália, foi perto de Poitiers que fundou o mais antigo mosteiro conhecido na Europa, na região de Ligugé. Conhecido pelos seus milagres, o santo atraía multidões. Foi ordenado bispo de Cesaroduno, a cidade dos Turões, actual Tours, em 371, e fundou o mosteiro de Marmoutier, na margem do rio Loire. Pregador incansável, foi também o fundador das primeiras igrejas rurais na região da Gália, onde atendia tanto ricos como pobres. Morreu, já octogenário, a 8 de Novembro de 397 em Condate, actual Candes-Saint-Martin, e foi sepultado no dia 11 seguinte, em Tours, local de intensa peregrinação desde o século V.

São Martinho, de Domenico Ghirlandaio, século XV (Florença)
São Martinho, de Domenico Ghirlandaio, século XV (Florença)

São Martinho (Mosteiro de Tibães)

A palavra capela tem origem no vocábulo latino diminutivo de capa, que significa manto, logo capela seria uma capinha, uma capa pequena. Passando da tradição oral à escrita, o vocábulo capela terá aparecido, pela primeira vez, num documento datado do ano 660 para designar um pedaço da capa de São Martinho. O termo foi mais tarde alargado a outros relicários e passou a substituir a palavra oratório. Já no século XIII, a palavra se aplicava a qualquer local consagrado ao culto religioso e, desde o século XV, passaria a designar um «lugar separado na igreja e onde há um altar», alargando-se depois a todos os locais de culto que não tinham o estatuto de igrejas, ou seja, da origem, no latim medieval, até aos nossos dias, vem a significar, por confusão do continente com o conteúdo, o mesmo que ermida ou igreja pequena. Por seu turno, os guardiões de um santuário que acolhia uma relíquia passaram a designar-se por «cappellani», e daí a origem das palavras capelão e capelania.

Quanto ao curto período do ano conhecido em Portugal por ‘Verão de São Martinho’ acolhe-se à lenda, sobre os tais três dias de bom tempo relatados, que se seguiram ao frio e à chuva. Ocorrem pela altura em que no santoral se comemora o ‘Dia de São Martinho’, ou seja, 11 de Novembro.

Acontece que à lenda se junta a tradição portuguesa de por esta ocasião confluir um outro acontecimento que o ditado popular contempla: “No dia de São Martinho vai-se à adega e prova-se o vinho”. Na verdade, em Portugal é tradição fazer-se um magusto, beber-se água-pé ou jeropiga e comerem-se castanhas. De acordo com alguns autores, como José Leite de Vasconcelos, a realização do ‘Magusto dos Santos’ é uma reminiscência de antiquíssimos rituais fúnebres pagãos, festivais que comemoravam o início do Inverno, segundo a tradição celta, durante os quais se faziam oferendas em géneros alimentares às almas dos mortos. Assim foram assimilados os rituais transpondo-se para o Dia de Todos os Santos, onde se acendiam fogueiras e se assavam castanhas. Importa considerar que a origem da palavra magusto vem do latim «magnus ustus» que significa grande fogueira, que antigamente designava a própria fogueira onde as castanhas eram assadas.

O quinto filho, e segundo varão, de D. Afonso Henriques e D. Mafalda de Sabóia nasceu a 11 de Novembro de 1154, razão pela qual foi baptizado com o nome de Martinho, sabendo-se como o santo era considerado o apóstolo da Gália, com o epíteto de «Pai das Gálias», tão venerado no ducado da Borgonha, a cuja casa pertencia o seu avô, o conde D. Henrique. O mais velho dos filhos, Henrique Afonso, nascera em 1147, seguido por três irmãs, sendo que Martinho não estava destinado a suceder ao pai como rei, não fora Henrique ter falecido em 1155, poucos meses após o nascimento do irmão. O nome, sem tradição entre os reis hispânicos, fez com que o neófito fosse, prontamente, rebaptizado Sancho Afonso, entendido este como mais apropriado para o futuro segundo monarca do reino de Portugal.

Acertadas as contas com estas histórias singelas da História, resta-nos agradecer o honroso convite para Vos roubar algum tempo entre o precioso cante e o magusto de castanhas e água-pé.

Nestes tempos conturbados, com tanto frio na alma e no coração das gentes, brindemos em uníssono pelo calor da Esperança na Paz mundial.

Muito grato pela Vossa atenção neste momento irmanado de confraternização luso-brasileira.

Dr. João Abel da Fonseca no uso da palavra.
Dr. João Abel da Fonseca, no uso da palavra.