A Doutora Maria Leonor Machado de Sousa – evocação da nossa Conselheira

Inês de Castro Inês de Castro
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Ana Leal de Faria

CONSELHO SUPREMO, 26 de setembro de 2023

Exmo Senhor Presidente do Conselho Supremo, Almirante Henrique Alexandre da Fonseca
Exmo Senhor Vice-Presidente, Dr. João Manuel de Almeida Loureiro
Exmo Senhor Secretario, António Bernardino e Silva Gonçalves,
Exmos Senhores Conselheiros

Cabe-me evocar a memória da conselheira Maria Leonor Ribeiro da Fonseca Calixto Machado de Sousa – nasceu em Lisboa, a 11 de novembro de 1932, onde morreu, a 16 de setembro de 2021 – cumprindo, assim, uma tradição do Conselho Supremo, que me deu a grande honra da eleição para a cadeira nº 37, deixada vaga por sua morte, há cerca de dois anos.

Tinha perto de 89 anos de idade, mas ainda foi a tempo de ser agraciada pela rainha Isabel II de Inglaterra com o título de Member of the Most Excellent Order of the British Empire, pela sua importante contribuição para as artes e ciências no âmbito das relações luso-britânicas, nomeadamente o trabalho pioneiro sobre a escrita de viagens de vários famosos viajantes britânicos no nosso país e a investigação sobre Wellington e a Guerra Peninsular. Deve acentuar-se que esta ordem, estabelecida em 1917 pelo rei Jorge V, só muito raramente é atribuída a cidadãos não britânicos e autoriza a utilização do título MBE após o nome da individualidade por ela agraciada.

A Prof.ª Doutora Maria Leonor Machado de Sousa com a condecoração dada pela Rainha Isabel II de Inglaterra.

Tinha pouco mais de vinte anos quando se licenciou em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa (julho de 1954), com uma dissertação sobre A Literatura Negra ou de Terror em Portugal (sécs. XVIII e XIX). A elevada classificação que obteve, 18 valores, era muito rara nessa época. Com um quadro de professores muito exíguo, as novas contratações eram raríssimas pelo que não admira que a nossa homenageada não tivesse tido lugar na universidade.

Seja por essa razão, seja porque, entretanto, foi mãe de quatro filhos 2, o que é certo é que só vinte anos mais tarde, Maria Leonor Machado de Sousa iniciou a sua carreira académica, ingressando no corpo docente de uma instituição universitária nova – a Universidade Nova de Lisboa – fundada no quadro de um projeto de expansão do ensino superior desenvolvido por Veiga Simão, fundação essa cujo meio centenário se comemorou no mês passado (11 de agosto de 1973).

Capa do livro “Inês de Castro – Um tema Português na Europa”, de Maria Leonor Machado de Sousa.

Foi nessa novíssima universidade que Maria Leonor se doutorou em Ciências Literárias (1977), com uma tese sobre Francisco Solano Constâncio: Portugal e o Mundo nos primeiros decênios do séc. XIX. Dois anos depois aí fez concurso para Professora Extraordinária de Literatura Inglesa, logo passando a Professora Catedrática (dezembro de 1979).

Maria Leonor Machado de Sousa dedicou-se à investigação sobre a escrita de viagens e sobre os ingleses na Guerra Peninsular, estudou também os poetas modernistas e a difusão dos mitos portugueses na Europa: D. Inês de Castro, que pesquisava desde 1980 e sempre foi um tema da sua predileção, tentado ver como a Europa absorvera esta tragédia amorosa; também a presença de D. Sebastião ou de Luís de Camões na literatura inglesa atraíram a sua atenção de estudiosa, sensível aos dramas da História da sua pátria. Mas não se limitou a uma investigação puramente intelectual, dinamizando importantes instituições culturais do nosso país, sendo mesmo pioneira em algumas delas.

Foi a primeira mulher a exercer uma cátedra de Estudos Anglo-Portugueses, especialização que conduziu à fundação de um Centro de investigação (1981) de onde resultou o actual CETAPS (Centre for English, Translation, and Anglo-Portuguese Studies).

Foi também a primeira mulher nomeada para presidir à Biblioteca Nacional de Portugal (1990-1992).

Inauguração da Exposição sobre “Inês de Castro” na Biblioteca Nacional de Portugal.

Foi a primeira vice-reitora da Universidade Aberta (1988-1990).

Exerceu os cargos de Vice-Presidente da Byron Society in Portugal.

Foi Secretária-Geral (1979-83) e depois (1987-89 e 1999-2001) Presidente da Associação Portuguesa de Estudos Anglo-Americanos (APEAA).

Foi Vice-presidente da Academia Portuguesa de História (2001-2004), onde era Académica de Número. Ocupava (desde 1990) a cadeira nº 25, para a qual, por coincidência, eu própria fui eleita quando a nossa homenageada foi elevada a Académica de Mérito (2014).

Iniciou a English-Speaking Union in Portugal, uma associação de voluntários que tem por objectivo promover um crescente entendimento entre os povos do mundo através da língua inglesa, tornando-se a sua primeira Presidente.

Criou a Revista de Estudos Anglo-Portugueses (1990), com publicação ininterrupta há três décadas o que mostra a sua efectiva capacidade de “fazer escola”, lançando os alicerces para o trabalho de um número muito elevado de investigadores.

Era extremamente dedicada aos seus alunos. Chegou mesmo a acompanhar a Londres alguns pequenos grupos dos seus “meninos”, como maternalmente lhes chamava, para fazerem investigação com vista às respectivas teses de mestrado.

Jubilou-se da universidade (2001), mas nem por isso deixou de se interessar pela vida académica e pela investigação. Entrou para a SHIP alguns anos depois (2006), onde a sua presença não passou desapercebida, sendo uma das poucas mulheres eleitas para o Conselho Supremo (2012).

Continuou a publicar estudos e a organizar congressos e outros eventos científicos com o mesmo entusiasmo e energia de sempre. A título de exemplo, destaco o Congresso internacional e interdisciplinar evocativo da Guerra Peninsular (2007), que integrou o XVII Colóquio de História Militar, na altura sob a presidência do General Alexandre de Sousa Pinto, juntando, assim, os esforços das instituições a que ambos presidiam num único evento que contou com mais de uma centena de congressistas, entre os quais elevado número de estrangeiros, e dois grossos volumes de Actas, um verdadeiro “estado da arte” sobre um acontecimento que deixou marcas profundas na História de Portugal.

Mª Leonor Machado de Sousa deixou-nos a imagem de uma mulher elegante, afável, pragmática e persuasiva, com um carácter forte e decidido, de energia e vontade inabalável.

Singrou num mundo dominado e presidido por homens. Não sem sacrifício, no esforço em conciliar todos os afazeres, com entrega abnegada aos compromissos profissionais assumidos e com a maior prontidão em apoiar os estudos e os trabalhos dos jovens investigadores, alunos e assistentes, que lia cuidadosamente, uma atitude rara no meio académico, encontrando sempre uma palavra simpática de incentivo, não deixando de dar sugestões e conselhos doutos e nunca descurando um cuidado esmerado pelo rigor da utilização da língua portuguesa.

Os mais de sessenta artigos publicados no livro de estudos em sua homenagem testemunham a admiração e amizade dos seus colegas e discípulos. Fez verdadeiramente “escola”.

Possibilitou o desenvolvimento das potencialidades dos seus discípulos sempre com o cuidado de que cada um pudesse contribuir de um modo qualificado para o bem comum.

Não deixou de ser mulher e mãe e cumpriu a missão e o sonho de um verdadeiro professor universitário, seja ele homem ou mulher. O seu exemplo é inspirador para todos nós.

A Prof.ª Doutora Ana Leal de Faria no uso da palavra.