Portugal e a Zona Euro

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Rui Carp

O texto que segue antecede um período dramático de Portugal, que conduziu à entrada de Troika, quando a Economia Portuguesa entrou em riscos de insolvência. Os dados são de 2010, mas muito do que disse na altura permite uma reflexão sobre o futuro da nossa Pátria.

Portugal estar na Zona Euro. É um desafio, um risco e uma oportunidade. Não é incompatível com a capacidade de expansão lusíada para outros continentes.

– Portugal, as suas Gentes, a sua economia precisam de se afirmar na Europa do Euro.
– Portugal no Euro, uma causa ganha, um erro ou um combate permanente? Resposta: SIM, NÃO, SIM.
– o Euro como nossa moeda é um grande desafio dos Portugueses para garantir a sua Pátria, honrando as lutas pelas independências (a Fundadora e as duas outras) e a Gesta dos Descobrimentos.

Alguma simbologia nas imagens seguintes:

Fala-se de Estado, de Nação, de Soberania. Mas que formas de ESTADO?

Confina-se à repartição vertical de Poder, em função do elemento territorial. Pode ser:

– unitário
– unitário Composto ou Regional
– complexo ou Federal

A ideia de Nação nunca logrou ter aplicação generalizada porque há o Estado-Nação, há Estados com várias nações (ou nacionalidades) e há nações sem gozar da soberania de um Estado politicamente organizado e reconhecido. Segundo Adriano Moreira, entre outros, a ideia de Nação encontra-se associada à emancipação do poder temporal do poder espiritual. É a partir do Tratado de Westfália (1648), que acabou com a guerra dos 30 Anos, que a ideia de Nação é melhor concebida. O conceito de Estado-soberano de Jean Bodin é o mais consolidado. A nação definida por muitos com base nos vectores da língua e da História comuns. Mas permanecem vários e divergentes entendimentos.

Quanto à noção de Soberania, cito um autor recente:

“…Sovereignty, as the word is now used, is historically a relatively recent concept. It comprehends an alleged right of a State to organize affairs within its borders as it pleases and an alleged right to be free from interference by other States…Theories of sovereignty based on the nationalism of the 19th and early 20th centuries have produced attacks from three different directions but each, in my judgment, is justified.

1) There are those who say that no State should be omnipotent, even within its borders.
2) There are those who ask questions in relation to the boundaries of a State and
3) There are those who point out that in practice no State is omnipotent.” in EUROPE AND THE LOSS OF SOVEREIGNTY, Judge KONRAD SCHIEMANN, the Sir Thomas More lecture, London, November, 2006.

A União Europeia oferece a esperança e tem dado garantias de ser um modelo que transcende e convive com as soberanias nacionais, partilhadas e não subjugadas por um pretenso novo “super-Estado”. Mas há sempre tentações dos maiores Estados quererem sujeitar os outros aos seus interesses particulares.

Uma ideia marcante: «L’Europe se fera par la monnaie ou ne se fera pas» (1950) por Jacques Rueff (Grande economista, grande patriota francês, grande europeu, conselheiro do General De Gaulle).

Mas… o que se entende por «Europa»?

Na boca de tantos, a palavra Europa tem servido a muitos para nela abarcar tanto “o alfa como o ómega”, da Paz à Guerra, da Democracia e Liberdade à tirania e exploração impiedosa do Homem.

Sabemos das suas matrizes grega-romana, judio-cristã, essenciais na construção de uma civilização europeia que se foi consolidando na “península ocidental da Ásia”.

Escolhi duas ideias recentes sobre”Europa”de dois ilustres Portugueses de agora:

D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa e o Doutor Eduardo Lourenço, o grande ensaísta português:

“…Quando dizemos Europa, de que falamos? de um espaço geográfico ou de uma realidade cultural? o espaço geográfico é físico e inalterável[…] mas o esforço secular para transformar esse espaço geográfico num espaço humano, matriz de civilização, convidou a definir a Europa mais como espaço cultural do que geográfico[…].É curioso verificar que a Europa, ao longo da sua história, nunca perdeu a atracção pela Ásia, de Alexandre Magno a Vasco da Gama.[…]Esta determinação em contribuir para a construção, na Europa, da unidade na pluralidade , sempre fez parte da missão da Igreja.” O Cardeal D. José da Cruz Policarpo in «Espírito da Europa» conferência na Academia de Ciências de Lisboa, 6 de Maio de 2010, publicado em “Obras Escolhidas nº.13”, Universidade Católica Editora.

Quatro ideias ressaltam: espaço cultural, unidade e pluralidade, abertura.”… Na verdade, a Europa é difícil de fazer sobretudo por uma razão simples: é que a Europa não precisa de ser feita. No fundo, há Europa a mais. Cada nação europeia é uma maneira de ser Europa. […] A identidade europeia é a identidade das diversas culturas, que se reconhecem nos referentes donde a Europa partiu. É a velha Grécia, naturalmente. […] Ora a Europa ─ e essa é uma das suas características ─ passou a vida a autocriticar-se, a afastar-se de uma certa fase do seu desenvolvimento, criticando a época anterior.”Eduardo Lourenço «Pequena meditação europeia», conferência em Guimarães, 23 de Janeiro de 2010. Editora Verbo Babel.

– A construção europeia dos seus fundadores baseou-se no pragmatismo das soluções organizativas, passo a passo. Não se baseou numa estrutura federal, manteve a soberania dos Estados-membros, embora com partilhas progressivas, fixadas matéria a matéria, em certos casos, com opção de derrogação (v.g. o Espaço Schengen) ou reservas (v.g. o Tratado de Lisboa). Essa é a originalidade da construção da Comunidade Europeia. Também não tem a estrutura de uma confederação, até porque há órgãos com poderes superiores aos dos Estados Membros. A originalidade da União Europeia tem que ver com o “federalismo” intergovernamental” do seu funcionamento (das decisões à execução), a par das soberanias nacionais. No entanto, em matéria política, o recente Tratado de Lisboa reforçou a componente federal. Mas nenhum Estado é obrigado a entrar ou é proibido de sair (embora, haja custos elevados em qualquer desses casos, difíceis de quantificar).

Aproveitando uma expressão de Montesquieu (Séc. XVIII), é «uma sociedade de sociedades». Aliás, a União Europeia comporta actualmente três Estados Federais: Alemanha, Áustria e Bélgica.

A génese e a noção da Integração Económica (IE)

Aparece esta expressão no final da 2ª Guerra Mundial para significar tudo o que tivesse a ver com relações económicas internacionais, numa acepção ampla. Só a partir de 1950 é que IE passou a designar uma situação ou um processo envolvendo a combinação de economias anteriormente autónomas/independentes em zonas mais amplas. O grande teórico é Bella Balassa (1961) com The Theory of Economic Integration, mas outro autor também é importante: Peter Robson(1984)com The Economics of International Integration(Tradução da Coimbra Editora de 1985).

Desde o início, a génese primeira da integração europeia foi política, pois quis-se:

– evitar mais guerras intra-europeias, em especial entre França, Alemanha e Inglaterra;
– fazer frente à pressão do expansionismo soviético e aos blocos USA e URSS da “guerra fria”;
– reconstruir a Europa, muito devastada pela 2ªguerra mundial (1939- 45), com base na ajuda norte americana do Plano Marshall (1947), para o qual se criou a OECE (1948, dando depois origem à OCDE).

Daí, a ideia inicial da França, embora frustrada posteriormente pelo seu governo, da Communauté Européenne de Défense (CED, 1954) e da Comunidade Política Europeia (CPE).Ficaram o Conselho da Europa (Tratado de Londres,1949) e a União da Europa Ocidental(UEO, Outubro de 1954).

Começou-se com a CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, Abril de 1951,com a sua Alta Autoridade); depois, com o Tratado de Roma, de Março de 1957, cria-se:

– a CEE (Comunidade Económica Europeia,1957);
– a CEEA ou EURATOM (A Comunidade Europeia de Energia Atómica,1957), com 6 Países.

Os que ficaram de fora daquelas comunidades, mantendo-se na “órbita” do Reino Unido, criam:

– a EFTA ou AELE (Associação Europeia de Comércio Livre,1960), com Grã- Bretanha, Suíça, Suécia, Noruega, Dinamarca, Áustria e Portugal.
– finalmente, o Espaço Económico Europeu (EEE,1992-2004), composto pela UE e alguns países da EFTA (até à integração destes naquela, excepto a Noruega, a Islândia, o Liechtenstein e a Suíça).

Portugal só entrou na 2ª tranche do Plano Marshall, para beneficiar de algumas ajudas desse plano, mas o mais discretamente possível, de modo a não ser posto em causa o regime vigente nessa época.

Foi, no entanto, fundador da EFTA (ao contrário da Espanha) e tentou sempre acordos (que conseguiu, no início da década de 70)com a CEE. Houve sempre no regime não-democrático da época, duas “forças” uma anti e outra pró processo europeu.

Voltemos à teoria, mas das uniões económicas e monetárias: Implicações de uma UNIÃO ECONÓMICA numa MONETÁRIA e vice-versa. Conceitos:

– UNIÃO ECONÓMICA— Mercado único; políticas e regras comuns visando a integração positiva; reforço de meios orçamentais próprios; coordenação das políticas económicas.
– UNIÃO MONETÁRIA—SISTEMA MONETÁRIO com um banco central, com moeda única ou sistema cambial rígido. Quando a política monetária é decidida centralmente num grupo de países, e existe uma moeda única para esse mesmo grupo, existe uma união monetária.

A HISTÓRIA ECONÓMICA da Europa (séculos XIX-XX) sustentou a ideia geral, com exemplos de fracassos, segundo a qual as duas uniões necessitam uma da outra para resistirem muito tempo. Sem isso uma ou outra claudicam.

O papel da moeda é, além de unidade de conta, também de instrumento que facilita as transacções e a poupança e que por isso tem um efeito directo sobre a procura e sobre o custo das transacções realizadas pelos agentes económicos. A complexidade dos meios de pagamentos e a globalização tornou a moeda um bem cada vez menos fungível. Várias moedas também servem de negócio, de especulação. Mas várias moedas, regidificando as suas cotações, também podem dar grandes problemas (a obra fundamental é de Mundell, Robert (1983), ‘A theory of optimum currency areas’, American Economic Review 51, Nobel da Economia). A adopção da Moeda Única (Art.4º do Tratado) constituiu a vertente mais importante do Tratado, com uma excepção (opting out) para o Reino Unido, comportando três fases para lá se chegar e cinco critérios, os da Convergência Nominal que teriam de ser cumpridos até ao momento da decisão final (1 de Janeiro de 1997 ou 1999). Esses critérios tiveram que ver com: o défice orçamental limitado; a dívida pública limitada; a inflação baixa; a taxa de juro baixa; curtas margens de flutuação cambial, dentro do Mecanismo de Taxas de Câmbio do Sistema Monetário Europeu. Para a Moeda Única exigia-se um desenvolvimento equilibrado (convergência real) e não gerador de tensões entre os Estados Membros. A adopção da Moeda Única (Art.4º do Tratado) constituiu a vertente mais importante do Tratado, com uma excepção (opting out) para o Reino Unido, comportando três fases para lá se chegar e cinco critérios, os da convergência nominal que teriam de ser cumpridos até ao momento da decisão final (1 de Janeiro de 1997 ou 1999).Esses critérios tiveram que ver com: o défice orçamental limitado; a dívida pública limitada; a inflação baixa; a taxa de juro baixa; curtas margens de flutuação cambial, dentro do Mecanismo de Taxas de Câmbio do Sistema Monetário Europeu.

Para a convergência real, que tinha a ver com níveis de riqueza e de Bem-Estar, criaram-se Planos integrados (o “Pacote Delors” foi o mais eficaz), reforçaram-se os Fundos Estruturais (FEDER; FEOGA …) e criou-se o Fundo de Coesão, para além de ter sido adoptado (em 1991) um Protocolo Social, como prolongamento da Carta Social Europeia.

Foram então três os pilares do Tratado da União Europeia (ou “Tratado de Maastricht”):

– um mercado único e políticas comuns, onde se insere a UEM;
– uma política externa e de segurança comuns (a PESC);
– uma segurança interna através da cooperação entre os serviços policiais e de justiça.

Quais os benefícios de uma união monetária?

São determinados principalmente por se conseguir ganhos de coordenação, resultantes da passagem de uma situação em que a política é decidida a um nível nacional para um novo quadro institucional em que as decisões de política monetária são tomadas centralmente.

Os benefícios derivados do sistema de pagamentos e da eliminação do risco cambial devem igualmente ser tomados em conta ao avaliar aqueles benefícios.

Além da coordenação das políticas, uma união monetária é caracterizada por uma política “harmonizada”, ou seja, não só as deliberações de política monetária são tomadas de forma centralizada como estas são idênticas para toda a área.

Ao existir uma moeda única, a política comum implica taxas sem risco idênticas entre países.

E que custos numa união monetária?

A teoria diz-nos que os custos de uma união monetária resultam dos custos de taxas de câmbio fixas, assim como da perda de autonomia da política monetária ao nível de cada país.
Na literatura recente, o ambiente que os modelos tentam replicar é o de uniões monetárias em que os países não só diferem quanto aos choques a que estão sujeitos como quanto às estruturas que os caracterizam. Isto significa que o ênfase utilizado na literatura actual é não só na existência de choques assimétricos como na diferente resposta a choques simétricos devido a diferentes mecanismos de transmissão entre diferentes países da união.

Conforme já foi referido, o facto das economias terem estruturas diferenciadas leva a que mesmo perante choques comuns as economias possam apresentar diferenças cíclicas, nomeadamente nos desenvolvimentos do Produto Interno Bruto e da inflação. Numa união monetária, a forma como as economias se ajustam perante choques é também influenciada pelo facto da política monetária ser fixada para a união como um todo e pelo facto da taxa de câmbio nominal dentro da união estar fixa.

No caso de países membros e uma união monetária, alterações de preços relativos bilaterais (taxa de câmbio real e termos de troca) vis-à-vis outros países da união correspondem a diferenciais de inflação.

Exige-se uma coordenação compulsiva da política monetária e cambial da zona unificada com as políticas orçamentais dos Estados Membros:

Para haver estabilidade monetária na união monetária, é indispensável que as finanças públicas não criem tensões. Ou seja, é preciso que os Orçamentos do Sector Público Administrativo, cuja principal receita é fiscal, não provoquem fenómenos de evicção (ou “Crowding-out). Daí a necessidade de se impor regras “cegas” para desincentivar défices orçamentais elevados e resistentes. Porque é arriscado manter défices permanentes e elevados ?

Os défices são mais arriscados se o nível da dívida pública – ou seja, grosso modo, a acumulação de todos os défices públicos anteriores ─ for elevado ou se estiver um rápido crescimento em relação ao PIB. Défices elevados e sem crescimento económico, irão transferir a “factura” da sua cobertura para gerações seguintes, o que poderá bloquear o investimento reprodutivo, atrasando assim a melhoria do nível de vida, o emprego, a justiça social e hipotecando mais o grau de independência nacional.

Passa-se de uma soberania real (que nunca é absoluta) para outra mais formal.

A entrada em vigor da UEM e da Zona Euro.

Em 1998, onze Estados Membros da União Europeia cumpriram os critérios de convergência, começando a existir a zona euro, com o aparecimento oficial do euro em 1 de Janeiro de 1999.

A Grécia, com “malabarismos” estatísticos, qualificar-se-ia em 2000, a tempo de ser admitida a 1 de Janeiro de 2001 nessa zona.

O Banco Central Europeu passou a ser a instituição central da política monetária da União Económica Monetária (UEM), responsável pela Moeda Única da Zona Euro e o centro do Sistema Europeu de Bancos Centrais(SEBC), sendo seus objectivos:

– manter a estabilidade de preços na UEM sendo totalmente independente do resto das instituições europeias e dos diferentes governos nacionais,
– garantir o bom funcionamento do sistema de pagamentos através do sistema de pagamentos TARGET)
– administrar as reservas de divisas que os países membros nele depositam,
– colaborar com as autoridades de cada país nas funções de supervisão bancária,
– emitir as notas de euros e
– estabelecer a quantidade de moedas de euro que os países membros devem cunhar para assegurar o fornecimento do mercado.

The European Monetary Institute (EMI) was the forerunner of the (ECB). It encouraged cooperation between the national banks of the member states of the EU.Created 1 January 1994, it was the key monetary institution of the second phase of the EMU, and was dissolved with the creation of the ECB and the European System of Central Banks.

Em 2011, são 17 os Estados Membros da União Europeia que usam o euro como sua moeda.

– Bélgica Alemanha Estónia Irlanda Grécia Espanha França Itália Chipre Luxemburgo Malta Países Baixos Áustria Portugal Eslovénia Eslováquia e Finlândia.

O Estados Membros da União Europeia Não-participantes na zona euro (Bulgária, Republica Checa, Dinamarca, Letónia e Lituânia, Hungria, Polónia, Roménia, Suécia e o Reino Unido) mantém moedas diferentes do euro.

Em síntese, há duas grandes missões complexas para a União Europeia e para o Euro €:

Quanto à EU, ser obstáculo ao deflagrar de guerras na Europa Ocidental e de defesa a ataques dos poderes informais, aumentando:

– a democracia na Europa;
– a eficácia de actuação das instituições da UE;
– a capacidade da União de fazer face aos desafios globais (económicos e financeiros, políticos, de segurança, ambientais, demográficos e sociais). Quanto ao euro, ele deverá servir de contraponto ao Dólar como divisa mundial, melhorando a resposta europeia face à Globalização e face a ataques especulativos. Pertencer ao euro deveria traduzir-se numa protecção quase automática da zona monetária respectiva, resultante da possibilidade de utilizar um maior recurso ao endividamento externo, através do crédito interbancário. Mas é isso que falha na actualidade, embora muitos governos, Conselho Europeu, a Comissão Europeia e o BCE têm procurado remediar.

Com o Pacto de Estabilidade e Crescimento de 1996 reforçou-se a disciplina orçamental em toda a União Económica e Monetária, através de um regulamento de procedimentos em caso de défices excessivos que inclui sanções várias para quem apresentar défices orçamentais superiores a 3% do PIB, excepto em caso de recessão forte.

O objectivo central é impedir que os Estados-Membros sigam políticas de intervenção nas respectivas económicas que provoquem défices orçamentais elevados com efeitos perversos na inflação e na competitividade de toda a zona Euro. Assim, os governos dos Estados-Membros devem orientar as suas políticas orçamentais para, no fim de cada ciclo, apresentarem saldos orçamentais para o Sector público consolidado, próximos do equilíbrio ou mesmo superavitários.

A sua Regra mater: o cumprimento da Regra Orçamental do rácio Défice/PIB< 3%, excepto em caso de recessão muito forte, acompanhado da sustentabilidade das finanças públicas.

Grande virtude: ser simples e potencialmente eficaz.

Grandes inconvenientes:

1. poder ser pró-cíclica, agravando a crise;
2. não prever choques assimétricos;
3. reduzir a utilização de estabilizadores automáticos. Mas, mais vale uma má Regra do que nenhuma!

Fala-se também de uma Estratégia Orçamental na Área do Euro, que tem um objectivo quantificado:

– os Estados-Membros da Zona Euro têm de atingir (em 2/3 anos) posições próximas do equilíbrio orçamental consolidado (défice zero no Sector Público não empresarial) e as suas finanças públicas têm de mostrar que são sustentáveis (ou seja, não ter problemas para se financiarem) a médio prazo.

Para isso, como já referido, o Tratado da União Europeia e o Pacto de Estabilidade e Crescimento fornecem o enquadramento político e jurídico da coordenação das políticas orçamentais nacionais na União Europeia. Só que a “estratégia”, para ser simples e compreensível, é muito pobre e cega.

A nossa dependência da economia espanhola, o vizinho ibérico. Um problema importante

– Espanha evoluiu como primeiro “sócio comercial” para Portugal, desde 1995.
– a Espanha é responsável por cerca de 30% das nossas trocas comerciais com o exterior.
– a economia espanhola tem um forte efeito centrípeto e assimétrico sobre a Procura portuguesa. A economia portuguesa, só conseguirá reduzir esse efeito se o quiser fazer, se diversificar os fluxos comerciais e financeiros com outras regiões fora da península ibérica e se atacar com paciência, estratégia de médio prazo e qualidade, os mercados Espanhóis.

Recorro, como fonte, três diaporamas retirados de Fernando Faria de Oliveira, numa conferência no IIEE, sobre «Centros de decisão empresarial em Espanha»:


As nossas regiões tendem a ser atraída pelos polos de desenvolvimento espanhóis:

Outro mapa elucidativo da potencialidade de expensão das exportações portuguesas pra fora do espaço europeu:

Outro estudo de 2009, este de José Félix Ribeiro , «Portugal 2025 ─ que Funções no Espaço Europeu», dá-nos uma visão larga dos movimentos do sector exportador português:


Agora, o sector exportador português enfrenta um grande dilema: ou se concentra nos produtos e serviços onde tem vantagens comparativas, promovendo-os com forte acréscimo de qualidade e alargando a novas geografias e outra gama de clientes (o que envolve investimentos elevados) ou mantem os produtos tradicionais, com cortes salariais radicais (incluindo na protecção social) e forte aumento do desemprego.

Além disso, está-se a atingir limites de endividamento externo (público e privado),o que exige uma dramática política restritiva (para não lhe chamar recessiva). Arriscamo-nos a fazer a má figura da Grécia (em vias de insolvência e de expulsão da zona euro). Veja-se este quadro retirado de um artigo do Financial Times:


Se há problemas de financiamento, em grande parte ele deve-se às “poupanças negativas” crónicas do Estado (leia-se défices orçamentais) e à quebra de hábitos de poupança por parte das famílias portuguesas. É muito preocupante a quebra da poupança bruta em Portugal desde 1996.

Neste quadro, extraído de um estudo do Prof. Álvaro Pereira, vê-se bem isso:

Neste quadro (do semanário EXPRESSO) sobre «Século XX (2000-2010): Maiores agravamentos (ou “subidas”) da Dívida pública e evolução do peso do Défice Orçamental no PIB» Portugal aparece mal colocado.

Embora menos altos do que na Grécia e Irlanda os yelds a 10 anos das Obrigações do Tesouro de Portugal vão subindo, como se vê neste quadro extraído de um artigo de hoje do The Economist, (March 2011). O subirem, tornam cada vez será mais difícil a Portugal honrar a dívida…

Os juros exigidos pelos investidores para deterem títulos de dívida soberana portuguesa com maturidade a cinco anos negoceiam hoje em máximos históricos, superiores a 8 por cento, tal como a yield exigida pelos investidores para deter a dívida portuguesa a dez anos, o seu máximo desde a entrada no euro, com o ‘spread’ face à dívida alemã a situar-se acima dos
540 pontos base. Mas para o eurogrupo (Estados membros com o euro como moeda), o que interessa é um Estado Membro corrigir derrapagens das finanças públicas ( défice+ dívida). Como cada um consegue isso, sem « batota », isso é problema interno de cada governo.

Como Portugal poderá sair sustentadamente da grave crise? Limito-me a citar Luis Mira Amaral na sua obra “E depois da crise?”(ed. Bnomics, 2010):

“…A economia portuguesa tem de passar de um modelo de crescimento económico extensivo, assente na dotação de factores de produção, com trabalho pouco qualificado e salários baixos, para um modelo de crescimento intensivo feito através do aumento da produtividade, recorrendo para tal ao avanço tecnológico, à inovação e à qualificação do factor trabalho.

O modelo do crescimento extensivo que foi impulsionado pelos fundos comunitários e pelo “boom” de consumo, na sequencia das descidas das taxas de juro com a adesão ao euro, está esgotado. O modelo de crescimento intensivo só é possível através de empresas de conhecimento intensivo produtoras de bens e serviços transaccionáveis nos mercados internacionais.

A tecnologia só por si não resolve os problemas da competitividade. Precisamos também de organização, gestão e marketing, tendo que na formação dos nossos engenheiros haver maior equilíbrio entre o conhecimento científico e tecnológico e o conhecimento humano, organizacional e do funcionamento económico dos mercados…”

Em conclusão, as ideias força que considero obrigatórias pra se vencer a crise:

Urge:

– construir uma estratégia de médio/ longo prazo, com metas, prazos e medidas sequenciais, sendo umas prioritárias e outras contingentes.
– tentar a adesão dos agentes económicos e sociais e da população em geral a essa estratégia , explicando aonde se pretende chegar e monitorizando a sua aplicação, se necessário com o apoio de entidades credíveis e independentes.
– investir mais selectivamente , incentivando os investimentos que produzam bens e serviços com mercado externo ou que dissuadam, pela qualidade e pelo preço, a consumir menos importação.
– consumir menos embora até ao ponto em que a dignidade não seja destruída.
– poupar mais no Sector Público mas tendo em atenção não lesar grosseiramente o Estado Social e o limitando o risco de saída dos mais competentes, sérios e dedicados.
– remunerar mais os quadros, atrair os que estão fora, acarinhar as empresas que criem mais riqueza e competitividade, dentro do respeito pela Pessoa e pela memória do País.
– ganhar respeito por nós próprios, afastando pensamentos medíocres, estéreis e mesquinhos, embora se saiba que a popularidade fácil a isso aconselha aos menos corajosos e visionários.