Razões da descristianização da Europa (sem ser em versão “conto de natal”) – Ensaio

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João Brandão Ferreira

“Por cada pedra daquela fortaleza, arriscaria um filho. Eu vos ponho no caminho da Honra, em vós está agora ganhá-la.”
D. João de Castro (a seu filho, enviado em socorro de Diu, 1546).



O Instituto D. João de Castro (IDJC) (1), sito no Restelo, é uma Associação Cultural ainda pouco conhecida e que tem por inspiradora essa figura extraordinária de português que foi D. João de Castro, o quarto vice-rei da Índia.

De entre a sua actividade cívica e cultural, o IDJC recebeu no passado dia 23 de Novembro, a presença de Sua Eminência Reverendíssima, o Patriarca de Lisboa, que brindou a assistência com uma palestra intitulada “A Igreja no Século XXI”.

Durante o período de perguntas e respostas, um dos assistentes colocou uma pergunta assaz pertinente, cujos termos eram mais ou menos os seguintes: “Porque será que a Europa, onde habitam as pessoas mais evoluídas e educadas do mundo, cujos países gozam em geral de prosperidade, etc., se transformou, ou se encontra, num estado de descristianização tão avançado?”

O Bispo D. José Valério, a quem desejamos as maiores bênçãos na sua actividade pastoral, para o que vai necessitar de coragem, sabedoria e a santidade possível ao seu múnus, lá respondeu do modo que entendeu, resposta que não poderia ser longa dado a circunstância e o tempo disponível.

Vim para casa a pensar no assunto e cheguei à conclusão que o tema dá para escrever um livro (grosso) cujas linhas directoras vou tentar sintetizar de seguida.

Enquadramento Histórico

“As civilizações morrem por suicídio, não por assassinato”.
Arnold Toynbee

A Matriz Cultural dos povos que passaram a habitar o Continente Europeu reside na “Razão” Grega, no Direito Romano e no Cristianismo, inicialmente, católico apostólico romano. Estes são os pilares básicos sobre que assentou a chamada civilização judaico-cristã.

Esta raiz judaico-cristã, logo se cindiu, digamos, entre os adeptos do Velho e do Novo Testamento, nunca tendo os judeus aceite e feito a transição para este último, o que degenerou em conflitos e perseguições mútuas em que os cristãos dominaram durante mais de mil anos, dado o seu número e força. Os judeus sobreviveram pela manha; a linha de descendência matriarcal, algum domínio da ciência médica e da astrologia, e, sobretudo, pelo cada vez maior domínio do sistema financeiro, até que se passaram a impor através dele.

A muito atribulada História da Igreja pode, para efeitos de entendimento prático, ser dividida em vários grandes períodos.

O primeiro vai desde o seu assentamento na “pedra” de Pedro (“tu és Pedro e sobre ti erguerei a minha Igreja”- Mateus, 16,18) até ao Édito de Milão, em 313, constituindo a época do nascimento e da perseguição – a Igreja das Catacumbas.

O segundo período vai desde essa data até 1054, ano da primeira grande cisão, com o nascimento da Igreja Ortodoxa: é o período da expansão, consolidação e sobretudo da época da tentativa de harmonização e uniformização da doutrina e procedimentos, feita através de concílios e do estabelecimento do latim – “o esperanto” da Igreja – como língua comum de toda a Cristandade. E onde já se registaram várias heresias.

Segue-se o período de 1054 até ao Concílio de Trento (1545 – 1563): é o período das Cruzadas; do nascimento das ordens militares/religiosas; do aparecimento de novas heresias; da luta entre o Poder Temporal do Papa e aquele dos príncipes; da estruturação da Santa Sé; é o período da queda de Constantinopla, em 1453 e o perigo que tal representou para todas as igrejas e ritos cristãos do Médio Oriente. Deve ainda referir-se o facto da maior importância e que foi o início do cristianismo para regiões longínquas da Europa, que as navegações dos portugueses e mais tarde dos espanhóis permitiram e foram o veículo; e, finalmente, do aparecimento da Reforma Protestante, em 1517, que veio a criar o maior, mais grave e irreparável cisma em toda a Cristandade.

Seguem-se os anos que decorrem entre o Concílio de Trento (onde se tentou fundamentar a reacção à Reforma, ao mesmo tempo que se corrigia excessos de ordem moral no seio da “Corte Pontifícia”; erros de prática teológica; adequar meios e regras à rápida expansão da evangelização ultramarina e disciplinar os costumes dos padres e religiosos), até ao Concílio Vaticano I, em 1869. Este é o período da ameaça otomana nos Balcãs, Mediterrâneo e Norte de África; do grande e trágico confronto fratricida entre católicos e protestantes que foi a Guerra dos 30 Anos (1618-1648); o ataque ao “Trono e ao Altar”, que representou o “Racionalismo”, o “Positivismo”, o “Iluminismo”, e que desembocou na Revolução Americana e Francesa. Tudo influenciado pela Maçonaria “especulativa”, surgida à luz do dia, em 1717, em Londres, e cujas ideias e forma de actuação logo a tornaram incompatível com o catolicismo oriundo de Roma (mas não com os Luteranos, Calvinistas e Anglicanos), o que veio abalar os alicerces da Igreja e transformar a vida da sociedade, até então Teocêntrica – isto é, centrada em Deus – para Antropocêntrica – ou seja, centrada no Homem – o que teve reflexos na superação, e até supressão, do Direito Natural, pelo novel Direito Positivo. Daí ao “Laicismo” e ao anticlericalismo, foi um passo curto. É nesse estádio, já exacerbado, que ainda estamos.(2)

Segue-se o período entre o Concílio Vaticano I (1869-1870) e o Concílio Vaticano II (1962-1965) – um período assaz curto, mas intenso – dominado pelo advento do Comunismo e as duas guerras mundiais e pela Guerra – Fria, que se lhe seguiu.

O Concílio Vaticano I foi o 20º Concílio da Igreja, convocado pelo Papa Pio IX (1846-1878) pela Bula “Aeterni Patris”, de 29 de Junho de 1868 e foi curto pois teve de ser interrompido por via da ocupação de Roma pelas tropas de Garibaldi.(3)

Teve quatro sessões com início a 8 de Dezembro de 1869 e terminado a 18 de Julho do ano seguinte, tendo participado 731 padres de todo o mundo. Decorreu numa época de grande conflitualidade entre a Igreja e os Estados Europeus; uma cada vez maior laicização da sociedade e do ataque cerrado das ideias liberais, anticlericais e socialistas e de se considerar a Igreja como muito ligada aos regimes absolutistas, caídos em desgraça sobretudo após a Revolução Francesa. Na própria Itália os Estados Pontifícios foram absorvidos pela unificação italiana, tendo a Santa Sé ficado reduzida à Colina do Vaticano.(4)

O galicanismo, o racionalismo, o rigor científico histórico na interpretação da Bíblia, ganhavam terreno. Impunha-se, pois, a realização de um novo Concílio, o que já não ocorria há mais de 300 anos.

No Vaticano I surgiram textos de crítica contra as ideias e ideologias que atacavam a Igreja surgidas ao longo do século XVIII procurando-se ainda esclarecer as relações entre a Fé e a Razão (Constituição Dogmática “Dei Filius”).

No final surgiu o dogma da infalibilidade do Papa “ex cathedra”, no âmbito da Doutrina da Fé e dos Costumes (Constituição Dogmática “Pastor Aeternus”).

Tal pretendia “blindar” a Igreja em termos doutrinais e espirituais de modo a fazer face aos ataques e críticas que lhe eram dirigidas. Tal veio, porém, a provocar um desequilíbrio de poder entre o Papado e os bispos, que teriam de esperar pelo Concílio seguinte, para tornarem a ver o seu papel eclesiástico reforçado.(5) E, ao contrário do que tinha acontecido em Trento, a igreja Portuguesa não teve praticamente intervenção alguma.(6)

Surgem, entretanto, as preocupações sociais na Igreja, cujo grande impulso se situa na notável Bula “Rerum Novarum”, de 15 de Maio de 1891, do Papa Leão XIII; as questões dos Estados Pontifícios; a luta contra o Comunismo (onde se inserem as aparições de Fátima, em 1917), a difícil sobrevivência durante a II Guerra Mundial e a ameaça dos regimes totalitários. De realçar ainda os equilíbrios que a Igreja (e a diplomacia da Santa Sé) teve de fazer por causa da vaga de descolonização que varreu o mundo – sobretudo a Ásia e a África – a seguir ao fim da II Guerra Mundial e à concorrência de outras religiões por esses territórios nomeadamente de Igrejas Protestantes – o que já se fazia sentir sobretudo em África desde o início do século XIX.
O Concílio Vaticano II convocado pelo Papa João XXIII, em 25 de Janeiro de 1959, marca uma espécie de abertura da Igreja ao mundo e a “actualização” da Igreja, o “aggiornamento”. O Papa falou em “tempos de renovação”, necessidade de interpretação dos “sinais do tempo”, uma “nova fase de diálogo com a sociedade moderna”, tendo havido uma fase preparatória do Concílio que durou entre 1959 e 1960. Nesse período chegaram a Roma cerca de 2000 pareceres de toda a parte do mundo cuja interpretação revelava uma grande dose de surpresa e desorientação.

Seguiu-se uma fase de preparação que ocupou os dois anos seguintes dirigida por uma comissão central (dominada pela Curia Romana) que coordenou dez comissões diferentes.

O Concílio foi finalmente convocado pela Bula “Humanae Salutis”, de 25 de Dezembro de 1961. Participaram 3060 membros da Igreja com direito a voz e voto. O Papa João XXIII faleceu a meio do Concílio, em Junho de 1963 e foi substituído pelo Papa Paulo VI. Este tentou que os textos conciliares fossem aprovados, o mais possível, por unanimidade, para que não se passasse para a opinião pública uma imagem de divisão na Igreja.

O Vaticano II foi chamado de “Concílio Pastoral” e a sua ideia central foi a de modernizar a Igreja (seja lá o que isso quer dizer), aproximá-la dos seus fiéis – que se estariam a afastar – e aumentar o diálogo com a sociedade. Por isso não se registaram, como do anterior, anátemas e condenações em matéria de fé e moral.

Como é costume o debate não foi fácil sendo os principais temas a relação com outras religiões e, nomeadamente, com outras igrejas cristãs; o modo de pensar a fé; a relação com os fiéis e as relações hierárquicas dentro da igreja, de onde resultou uma maior descentralização do Poder Papal (o seu poder passou a ser mais dividido com os bispos). Passou-se ainda a aceitar que seria possível conhecer Deus e a Salvação, em outras religiões.

Outra disposição foi a de aceitar a comunicação social sem a julgar, mas como ferramenta de evangelização. Mas a grande novidade foi a de que as missas passariam a ser rezadas na língua de cada país e não em latim.

Por outro lado, nada mudou relativamente às relações sexuais e ao aborto, por exemplo, bem como à condenação do comunismo e do capitalismo selvagem.

Ao longo do Concílio foram aprovadas quatro “Constituições” (sobre a liturgia; a palavra de Deus; a Igreja as relações desta com a Sociedade); nove “Decretos” (sobre o ecumenismo; sobre os bispos; sobre os leigos, etc.) e três “Declarações” (sobre a liberdade religiosa; a Educação e as religiões não cristãs), que deveriam orientar a Igreja em todo o mundo,

Até 1978 pode dizer-se que as resoluções do Concílio despertaram entusiasmo na Igreja, sobretudo o impulso ao diálogo com as igrejas cristãs e outras religiões; a renovação da vida religiosa; uma nova consciência do papel dos leigos, o fortalecimento das conferências episcopais, a criação dos sínodos em Roma e um grande aprofundamento e difusão da Bíblia.(7)

Mas também houve críticas de sectores ditos mais conservadores que mostraram preocupação pela maior liberdade no âmbito da interpretação da Bíblia, com a ambiguidade de alguma da documentação produzida e com o facto de não se ter conseguido uma síntese harmoniosa entre a continuidade da tradição e as novidades trazidas pelo Vaticano II. Choveram críticas sobre o que foi considerado constituir abuso no campo da liturgia, da moral e no ecumenismo.

Alguns religiosos abandonaram a igreja e verificou-se um “mini cisma” protagonizado pelo bispo francês, Monsenhor Lefebre, falecido em 1991, que acusou o Vaticano II de ser “protestante”, “modernista” e “pró-comunista”.

Estas críticas foram fazendo o seu caminho ainda no tempo de Paulo VI e cresceram nos pontificados de João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI (2005-2013). Assistiu-se a uma nova centralização eclesial, com grande preponderância da congregação para a Doutrina da Fé, colocou-se algum freio no ecumenismo, na liturgia e no papel dos leigos.

Até que subitamente o Papa Bento XVI alegando razões de saúde (apesar de ter vivido como Papa Emérito mais do que como Papa), renunciou ao cargo. Tal facto foi fonte de grande especulação. Aparentemente não sentiu força suficiente para lidar com três problemas que atormentam a igreja há décadas, ou seja, o “funcionamento” do Banco do Vaticano, a questão da homossexualidade e pedofilia, dentro da igreja e de um novo surto de tentativas reformistas no âmbito da Moral e da liturgia derivados do desenvolvimento – sobretudo no mundo de matriz ocidental – de ideias fraturantes e diferentes “ismos”, derivados em grande parte das “escolas” que passaram a difundir o “Marxismo Cultural” e que o Maio de 68 em França (sempre a França …) pôs em movimento uniformemente acelerado (feminismo, drogas, teologia da libertação, eutanásia, aborto, divórcio, destruição da família tradicional, relativismo moral e ético, etc.).

Dentro da igreja a ala mais “modernista” veio a confluir no grupo de St. Gallen e nos prelados alemães, (sempre o racionalismo alemão…).

O substituto do Cardeal Ratzinger, como Papa, foi Francisco, nascido argentino, o primeiro pontífice oriundo de fora da Europa e o primeiro jesuíta a ocupar o lugar de (Simão) Pedro.

Pode dizer-se que o Papa Francisco cedo se revelou adepto do que se pode denominar por “progressismo” dentro da igreja e deu azo a uma revitalização das teses mais “avançadas” do Vaticano II e em “fuga para a frente”.

Gestos iniciais pouco comuns na Curia Romana (não reside nos aposentos ancestrais do Vaticano; aproximação aos pobres e ao mundo; uma certa bonomia de atitudes, apesar de alguma precipitação na linguagem e aparente relaxamento das tradições morais e exigências no culto e nos costumes, valeram-lhe aquilo que se pode chamar de “boa imprensa” (o que é sempre de desconfiar…), e uma oposição que começa a ser feroz de toda ala mais conservadora da Igreja. E a Igreja não devia ter “alas”.

Graves distúrbios ou, até mesmo, um cisma, não são de descartar.

As crises dentro da Igreja

“Santa Catarina de Siena em diálogo com Deus (“O Livro”) a pensar nos inocentes pede a Deus misericórdia para aquelas cidades (Sodoma e Gomorra). Deus respondeu-lhe: “Se houvesse dez justos na cidade ela não seria destruída.”

Pode dizer-se que a Igreja de Cristo sempre viveu em crise; são 2000 anos de crises! E a religião sendo uma necessidade natural e humana nunca permitiu que o Homem enquanto criatura terrena pudesse viver que não fosse em crise…

Algo estranho quando os objectivos a atingir são a conversão do mundo; a prática do Bem; a vivência em harmonia e a salvação da alma.

Os primeiros três séculos foram de perseguições aos cristãos. Todo o mundo conhecido os perseguiu (e todo o mundo mesmo o desconhecido vivia quase sempre em guerra e sempre em conflito). Foi o tempo da sobrevivência e das catacumbas.

Quando os cristãos deixaram de ser perseguidos foi a época da organização e afirmação.

Quer isto dizer que foi necessário organizar a Igreja e o “trono” de Pedro. E quando os cristãos emergiram das catacumbas e a poder circular e evangelizar livremente, deram-se conta que havia dezenas ou centenas de comunidades com características próprias; com diferentes interpretações da Bíblia e da palavra do Senhor; variados documentos e relíquias, supostamente autênticos; costumes e pragmática.

Foi preciso tentar uniformizar tudo, segundo bases comuns e na procura da verdade revelada. Daí se ter convocado e realizado o primeiro Concílio de Niceia (cidade situada na Ásia Menor, sensivelmente no meio do Império Romano, de então) no ano de 325.

Essa procura de uniformização e das verdadeiras fontes da verdade revelada, ainda continua nos dias de hoje.

A queda do Império Romano do Ocidente, em 453, veio complicar a vida no orbe, e estilhaçar a sociedade, sobretudo em toda a região do Norte de África e no actual território europeu.
Salvou-se o Império Romano do Oriente, mas, logo em 1054 ocorreu a divisão do Cristianismo, com o Cisma que criou a Igreja Ortodoxa.(8)

Este cisma teve raízes culturais e políticas profundas, que duraram séculos. Enquanto a Igreja “ocidental” passou a ter muita influência dos povos germânicos (e outros), a Igreja Oriental ficou sempre ligada à matriz helénica – a Igreja de tradição e rito grego. Por outro lado, a Igreja de Constantinopla, respeitando sempre Roma como a capital original do Império, ressentia-se de algumas exigências jurisdicionais feitas pelo Papado, o que atingiu algum exacerbamento ao tempo do Papa Leão IX (1048-1054) e seus sucessores.

Roma não via ainda com bom grado, o “cesaropapismo bizantino”, ou seja, a subordinação da Igreja oriental a um chefe secular. Finalmente quando Miguel Cerulário se tornou Patriarca de Constantinopla, no ano de 1043, fez campanha contra as igrejas latinas na cidade de Constantinopla e originou uma discussão sobre a natureza do Espírito Santo, o que viria a dar muita discussão posterior.

Roma enviou a Constantinopla o Cardeal Humberto para tentar resolver os problemas, mas a visita terminou com este cardeal a excomungar o Patriarca o que este devolveu.

Tal situação veio largamente a justificar a tristemente célebre tomada e saque de Constantinopla pelos membros da Quarta Cruzada, em 1204.

As mútuas excomunhões só vieram a ser levantadas a 7 de Dezembro de 1965, pelo Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I, por forma às duas igrejas se pudessem aproximar.

Entretanto a Igreja viu-se confrontada com o aparecimento do Islão, no século VII, e sua rápida expansão que ocupou grande parte do Médio Oriente, Norte de África e invadiu a Península Ibérica, em 711. Ao mesmo tempo que atacava as fronteiras do Império Bizantino (até o conquistarem por completo com a queda de Constantinopla, em 1453. Já com o “Império Otomano” em franca expansão) penetrando nos Balcãs e Europa de Leste (a que se deve juntar a ameaça dos Mongóis nos séculos XIII e XIV). A Europa e com ela a Cristandade ficou cercada.(9)

Para além dos muçulmanos passou a haver cada vez maiores comunidades de judeus que se foram espalhando por todo o Império Romano e depois por toda a Europa e Império Otomano. A convivência foi, no mais das vezes, conflituosa e acções de perseguição ocorreram até meados do século XX.

Emergiram ainda numerosas heresias de que se nomeia o Priscilianismo, o Arianismo, os Gnósticos, o Monofisismo, o Nestorianismo e muitos outros.

Uma heresia merece destaque, o “Catarismo”, que deu origem à “Cruzada Albigense”, que se desenvolveu no sul de França, no século XIII e veio a desenvolver a Santa Inquisição, que funcionou nos moldes tradicionais até ao início do século XIX.

De facto, a Inquisição, foi criada pelo Papa Gregório IX, em 1233, pela bula “Licet ad capiendos” (das quais as mais famosas foram a espanhola, a austríaca, a italiana e a portuguesa) destinava-se a combater as heresias e, ou, manter a unidade da Fé(10). Só que fazê-lo, chegando ao ponto de queimar pessoas não deva ser o processo mais adequado, sobretudo para quem se diz cristão…

Felizmente tudo isso acabou, tendo a sua acção sido centralizada (não há inquisições nacionais) na Santa Sé, cujo órgão se chama desde 1966, Congregação para a Doutrina da Fé e desde 2022, Dicastério para a Doutrina da Fé.

E foi ainda lamentável a colaboração do Papa Clemente V, na perseguição da Ordem do Templo (fundada em Jerusalém, em 1118, por Hugo de Payens e mais oito cavaleiros), pelo Rei de França, em 1307, (e cujo móbil era a apropriação dos seus bens) o que levou à extinção da Ordem, em 1312, num processo iníquo, que arrastou para a tortura e para a fogueira, centenas de cavaleiros.(10)

Seguiu-se o “Grande Cisma” também conhecido por “Cisma do Ocidente”.

Tal ocorreu entre 1378 e 1417, período durante o qual dois (mais tarde, três) Papas reclamavam para si a legitimidade da direcção da Igreja Católica, o que naturalmente criou a maior instabilidade no seio dos Católicos.

Um século depois, em 31 de Outubro de 1517, o monge Martinho Lutero pregou na porta da Igreja de Wittenberg as suas “teses de protesto”, em número de 95, que veio dar origem ao “Protestantismo” e à Reforma nos seus diferentes matizes (Luteranismo, Calvinismo, Baptistas, Presbiteranismo, Metodistas, etc.), que tem origem em conflitos teológicos; a venda de indulgências e na imoralidade que grassava em Roma, a qual atingiu o seu clímax com o Papa Bórgia, Alexandre VI (o que chegou a motivar uma tentativa de acordo entre o nosso Rei D. Manuel I e Carlos V para uma intervenção comum, para pôr alguma ordem no que se passava). A cobiça de muitos príncipes alemães em se apoderarem dos bens da igreja e subtraírem a autoridade Papal fez o resto.

Tal criou cisões no seio da cristandade que até hoje não foram resolvidas e deu origem ao que se pode designar como primeira grande guerra civil europeia (1618-1648) – a Guerra dos 30 Anos – que abalou profundamente todo o Continente Europeu e deixou grande parte da Europa Central devastada e sem população. As “guerras de religião” estão também na origem da emigração de grande número de europeus para a América do Norte.

A Reforma deu origem embora por razões não idênticas à Igreja Anglicana por via das acções de um Rei devasso, Henrique VIII, que não querendo submeter-se a decisões papais sobre os seus casamentos e ao modo como tratava suas mulheres, separou-se da Igreja de Roma criando uma Igreja Nacional, pelo “Acto de Supremacia” de 1534, após ter sido excomungado pelo Papa Clemente VI.

A partir dos séculos XV e sobretudo XVI, a Igreja viu-se confrontada com uma nova realidade: a descoberta e ou ligação marítima com todos os povos e terras do mundo, muitos dos quais desconhecidos dos europeus e da Santa Sé, por via das navegações oceânicas encetadas, primeiro pelos portugueses e seguidos pelos espanhóis. Tal representou um novo desafio para a Igreja (e sobretudo para o clero e ordens religiosas portuguesas e espanholas), no sentido em que abria a oportunidade de evangelizar vastas populações que não conheciam a palavra de Cristo Redentor, ao mesmo tempo que se chocavam com a oposição islâmica e de outras culturas e religiões cujos estádios de desenvolvimento estavam ao nível dos europeus. Mas foi devido a estas descobertas que o Cristianismo e nomeadamente o catolicismo se tornaram universais. Algo que a Santa Sé e a Igreja nem sempre reconhecem…

O que se passa hoje em dia é uma síntese amalgamada, mal resolvida e mal – assumida, de tudo o que se tem passado e ora descrito de uma forma necessariamente simplista.

Causas do declínio; inimigos da Igreja

Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro.”
Mateus 6, 24

No que está escrito até agora, podem divisar-se claramente algumas das causas que levaram ao seu declínio, sobretudo na Europa. Salvou-a a evangelização feita por portugueses e espanhóis na América Central e Sul; em África e no Oriente onde se conseguiu estabelecer núcleos de católicos (e mais tarde, também, protestantes, por via da colonização inglesa e holandesa) no seio de populações “civilizadas” e onde outras religiões já estavam implantadas.
Na América do Norte a implantação da Igreja Católica, apesar de gozar de liberdade religiosa, nunca se conseguiu impor às “Igrejas Reformadas”.

Muitas outras causas de declínio se podem apontar, onde entram ideias contrárias na forma de ideologia e inimigos confessos.

Mas o que temos de considerar à frente de tudo, como causas das sucessivas crises na Igreja – coisas mais terrenas e conformes à natureza humana – são as lideranças fracas; o desvio dos princípios enformadores das escrituras (nem sempre de interpretação clara); a incapacidade de manter a coesão da hierarquia e dos fiéis; a procura de poder temporal; práticas pouco consistentes com a moral cristã e concessões à vida mundana.

Ora do mesmo modo que um chefe militar não leva ninguém atrás de si se não der o exemplo, o mesmo acontece com os membros do clero e religiosos, cujo comportamento não é conforme aos valores, deveres e doutrina pregados.

A Igreja tem, antes de mais, inimigos. Logo à cabeça, e em termos teológicos, o demónio, belzebu, o anjo caído, que representa o Mal e as trevas, em contraponto a Deus, fautor do Bem e da Luz (Amor).

Depois contam-se outras religiões onde se destaca o Judaísmo e o Islamismo (nas suas versões sunita e xiita), todas elas apelidadas de “Religiões do Livro”. Não se trata aqui de “adversários”, mas de “inimigos”, que durante séculos se digladiaram, perseguiram e não raras vezes usaram de violência mútua. O mesmo se passou com as igrejas protestantes. Só depois do Concílio Vaticano II passou a haver algum diálogo ecuménico e com outras religiões e com a Igreja Católica (e apenas ela) a assumir erros do passado e a pedir desculpa por eles.

Sem embargo ainda nos dias de hoje se assiste à perseguição de comunidades cristãs, sobretudo em África e no Médio Oriente; surtos de antissemitismo um pouco por todo o mundo; ódio entre judeus e muçulmanos, sobretudo por causa da situação de Israel vs Palestina; terrorismo islâmico contra países de maioria cristã e inimizade manifesta entre muçulmanos e hindus e outras minorias religiosas.

A Igreja habita na Terra não no céu…

No século XVIII mais propriamente, em 1717, em Londres, surgiu à luz do dia, a chamada Maçonaria Especulativa que se espalhou rapidamente na Europa e no novo mundo. Os objectivos, prática e crenças desta “organização”, envolta em segredo, foram logo considerados incompatíveis com a prática católica pelo que o Papa Clemente XII, em 18 de Abril de 1738, pela Bula “In Eminencti Apostolatus” proibiu a todo o católico, a sua filiação na mesma, sob pena de excomunhão, o que se mantém até hoje. Sem que tal impedisse que muitos padres e até bispos, se tivessem filiado nessa organização de vários ritos e obediências. Muitos dos Maçons eram ainda adeptos dos Racionalismo, Enciclopedismo e Iluminismo que fizeram escola durante todo o século XVIII e culminaram nas Revoluções Americana e Francesa, o que representou – sobretudo esta última – um ataque ao Trono e ao Altar.

O Direito Positivo passou a imperar sobre o Direito Natural até este ter praticamente desaparecido nos dias de hoje. Tudo isto teve o condão de transformar a sociedade em termos diametralmente opostos, no sentido em que se passou de uma vida teocêntrica, isto é baseada em Deus, para uma existência antropocêntrica, ou seja, centrada no Homem.

A igreja foi ainda acusada de ser o sustentáculo do “Absolutismo” regime político entretanto posto em causa.

A Maçonaria teve uma maior aceitação e até protecção nos países que adoptaram a Reforma e gozou de uso livre na América do Norte, e depois na do Sul, sendo mais ou menos perseguida nos países de cariz católico, o que explica que as monarquias dos países do sul da Europa tivessem um fim violento enquanto nos países do centro e norte se mantivessem quase todas até hoje.

No século XIX e princípio do século XX, apareceram e vingaram em muitos lugares, uma série de ideologias políticas todas elas mais ou menos inimigas, ou incompatíveis com a Igreja de Roma.

Desde logo o Liberalismo, depois o Socialismo, o Materialismo, o Positivismo, o Ateísmo, o Anticlericalismo, e as mais extremas e violentas por serem totalitárias como o Anarquismo, o Comunismo e o Nazismo, este de duração efémera.

E sobretudo a partir dos eventos do Maio de 68, em França, a Igreja teve que se confrontar com a infiltração do “Marxismo Cultural” oriundo da Escola de Frankfurt, criada em 1922, o feminismo, o individualismo, o movimento hippie e a prática do “amor livre”; o aparecimento da “Teologia da Libertação”, etc., tudo consubstanciado no ataque descomunal à família tradicional.(12)

Mais recentemente e a agravar s situação, outras ideias e práticas desenvolvidas como o Relativismo Ético e Moral, a cultura da morte (aborto, eutanásia, experiências biogenéticas) a agenda LGBT, o incentivo à prática homossexual e a actual cultura “woke”. São muitos desafios.
Os anos em que a Igreja se deixou arrastar numa posição “dúbia” sobre o que fazer nos casos de pedofilia em que se viu envolvida foram de grande desgaste para a sua imagem. Mas neste âmbito, como noutros, só tem de se queixar de si própria.

Será a igreja a principal inimiga de si própria?

Fuga para o Egipto, Igreja de Nossa Senhora da Purificação, Pontével

Como reagir?

Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e onde os ladrões não arrombam e não furtam.”
Mateus 6, 19 e 20

A crise na Igreja actual pode dizer-se que se agudizou após a renúncia, aos 85 anos de idade, do Papa Bento XVI. A renúncia foi anunciada a 11 de Fevereiro de 2013 e efectivou-se a 28 do mesmo mês, a primeira desde o Papa Gregório XII, em 1415.

Esta renúncia, justificada por razões de saúde, foi muito sentida nos meios conservadores e tradicionais da igreja. E, naturalmente, objecto de alguma especulação.(13)

Bento XVI passou mais tempo como Papa Emérito (o primeiro também a ter esta designação) e fê-lo com toda a discrição, do que como Papa e foi ele verdadeiramente o primeiro a “descer da Cruz”. O que, aliás, está previsto no Direito Canónico (cânone 332, artigo 2).

É tido como seguro que a eleição do Cardeal Bergoglio, como Papa, tenha sido preparada para ocorrer no Conclave de 2005. Aquele terá pedido para não ser eleito o que permitiu a eleição do Cardeal Ratzinger, como Papa Bento XVI.

Aqueles que tinham mais interesse na eleição de Bergoglio eram bispos e cardeais considerados mais “progressistas” (seja lá o que isso queira significar), parte dos quais se reuniam no grupo de St. Gallen (São Galo, em português).(14)

É natural que a influência e pressão desta “ala” se tenha continuado a fazer sentir.

Os maiores problemas dentro da Igreja, que podemos sintetizar na acção de um chamado “lobby gay” dentro da Curia Romana; a denúncia pública de eventuais casos de pedofilia entre membros do Clero e seu encobrimento por parte da hierarquia católica (um problema certamente associado ao anterior, embora sejam coisas diferentes); a falta de “transparência” de métodos usados no “Banco do Vaticano” e a deriva progressista na defesa de mudanças na doutrina e prática religiosa, pouco consentâneos com os ensinamentos tradicionais da Igreja, há muito estabelecidos, poderão ter tomado tal gravidade que o bom Papa Bento XVI se tenha convencido que não teria saúde física e ânimo mental para lhes fazer face, a contento do bem da Igreja. E a má educação com que foi tratado por bispos alemães na sua própria terra, também não deve ter ajudado muito.(15)

Com a ascensão do Cardeal Bergoglio a Papa, este parece estar a esforçar-se por fazer tudo ou quase tudo, em sentido contrário aos seus dois antecessores na direcção das “teses” defendidas pelo tal grupo de St. Gallen.

Há um excesso de exposição pública da figura cimeira da igreja; as mensagens e parte dos documentos passaram a ser dúbios, passíveis de várias interpretações e parte do que é dito passou a ser emendado ou esclarecido no dia seguinte. E, curiosamente, parte dos temas a que se tem dado a maior importância ou visibilidade, como as migrações, as alterações climáticas, a “propaganda” LGBT, a aceitação ou tolerância com as acções ou ideias fracturantes da sociedade, passaram a estar estranhamente alinhadas com a agenda 20-30 da ONU, como se tal tivesse algo a ver com o fulcro da acção ou a razão da existência da Igreja.

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Há duas maneiras de viver uma vida: A primeira é pensar que nada é um milagre; a segunda é pensar que tudo é um milagre. Do que estou seguro é que Deus existe”.
Albert Einstein

Creio que de tudo o que já foi referido facilmente se pode inferir as causas do afastamento das populações europeias do seio do Cristianismo e particularmente do Catolicismo.

O que se pode ou deve fazer?

Parece ser uma evidência que não precisaria ser repetida que a Igreja deve continuar a trilhar o caminho para que foi criada que é a de pregar a palavra de Cristo mediante a verdade revelada nos Evangelhos – a não ser que se prove sem dúvida, que algo do que lá está não corresponda ao que se passou e disse. E para isso é preciso continuar o trabalho de evangelizar. Se esse trabalho desaparecer a Igreja naturalmente desaparece.

Mas a Igreja para fazer o seu trabalho, que é um serviço, e cumprir a sua missão, não pode perder o seu objectivo de vista, nem tão pouco pôr em causa a sua doutrina e princípios, muito menos caminhar ao sabor de modas ou fazer concessões ao politicamente correcto. Pode e até deve, não ser imobilista, mas apenas no âmbito da técnica e da táctica ou da forma, mas nunca da substância, no modo como acompanha a evolução dos tempos e da sociedade. Pois as suas causas são eternas e ademais estão para além deste mundo e são mais do âmbito espiritual do que material.

Partindo do princípio de que isto é assim, e só pode ser assim, a Igreja tem que ter a coragem de se limpar por dentro e afinar estratégias de actuação e comunicação sem pôr em causa a liberdade de pensamento e discussão no seu seio. E já houve cismas, heresias e rupturas que cheguem ao longo dos últimos 2000 anos…

Ora isto só se conseguirá com uma liderança forte que não deixe mal a inspiração do Espírito Santo!

E essa é uma das questões fulcrais: os bispos devem ser escolhidos entre os que tenham bom comportamento, alguma santidade e capacidade de liderança. Tal está intimamente ligado aos seminários, isto é, ao mais adequado recrutamento, formação e selecção de quem para lá entra e sai, pois é aqui que tudo começa.

Do mesmo modo tem de fazer um esforço para não se deixar infiltrar por organizações que lhe são inimigas ou adversas ao mesmo tempo que não deve permitir e extirpar, “grupos informais” que funcionam à margem das suas estruturas existentes, como é manifestamente o grupo de St. Gallen.(16)

E tem ainda de resolver dentro de si, em comunhão com as escrituras, uma má relação que sempre teve desde as origens, com a sexualidade humana. Pois as relações entre homem e mulher são um facto natural da vida, não só necessário à preservação da espécie como à harmonia e bem-estar psicofísico de qualquer humano e da própria família. Tal nada tem a ver com o respeito pela castidade ou a condenação de vícios e perversões; a preservação dos menores ou a indiferença face á falta de consciência e responsabilidade com que se assumem as relações sexuais.

A Igreja tem de continuar a fazer combate ideológico, não para atacar outros, mas para se defender a si própria e não tem que respeitar tudo, pois nem tudo é respeitável. E tem de ponderar melhor os pedidos de desculpa, sob pena de ter de pedir desculpa de existir. Pedir desculpa é um acto de contrição louvável; uma demonstração de humildade que só fica bem e uma afirmação de que se quer emendar a mão no futuro.

Mas tal não deve entrar no campo da repetição gratuita que se desvaloriza naturalmente. E, pelos vistos, a Igreja não consegue arrastar mais ninguém a imitá-la…

E quanto a pedir desculpa por casos de pedofilia, melhor seria pôr a hierarquia a disciplinar e castigar os infractores, pois essa é a razão principal pela qual o problema existe e progrediu.
A Igreja nunca conseguiu ainda compatibilizar – sobretudo no mundo ocidental – os 10 Mandamentos com a Declaração (algo maçónica) Universal dos Direitos Humanos, da ONU, essa organização babilónica que se tem revelado um alforge de inúteis e de inutilidades.

E o que deve interessar à Igreja é a prática do Bem, não as ideologias ou sistemas políticos; a Justiça e não a Paz (não serve rigorosamente de nada passar a vida a apelar à paz…); a condenação e combate do Mal e não a convivência ou adaptação às suas práticas (a prática do Mal e do Bem convivem entre nós e até se sente no ar…); a hierarquia dos valores e não a igualdade (inexistente) dos seres; a liberdade como conceito absoluto mas de aplicação relativa e sob várias tipificações e nunca isenta de responsabilidade; a dissuasão e a legítima defesa em contraponto à guerra e ao pacifismo; o amor que a tudo bem dispõe, em oposição ao ódio, que tudo destrói e mortifica. E assim por diante.

Para se realizar tudo isto tem que se escolher os caminhos da dificuldade não os de fácil acesso; a exigência, não o facilitismo; condenar a usura (como os velhos doutores da igreja o fizeram) e os totalitarismos; os deveres e não os direitos; o carácter não a hipocrisia.
Deve, enfim, louvar a virtude e reprovar o vício.

A palavra de Cristo deve ser pregada da melhor maneira a todos por igual? Pois não senhora, pois os povos têm idiossincrasias diferentes. Por isso os evangelizadores portugueses de antanho foram sábios (e santos) quando percorreram o mundo: estudavam os habitantes, aprendiam os seus costumes e língua e assim os levavam pela doçura do comportamento e o exemplo da palavra. Não forçavam conversões; não realizaram morticínios ou genocídios; não criaram “reservas” para “indígenas”, nunca lhes deram álcool ou roupas infectadas para os debilitar. É certo que nem tudo foi perfeito, mas o tom e a regra eram estas.

A Igreja deve ainda expandir e valorizar no que puder, toda a sua obra de assistência social, muitas vezes ignorada pelas populações e poderes públicos; tentar influenciar que as leis fundamentais do país acolham o mais possível a moral e a doutrina cristãs (e ninguém tem o direito de levar tal acção a mal).

Só assim se prosseguirá as virtudes cardeais da Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança de modo a atingir as maiores virtudes teológicas da Fé, Esperança e Caridade.(17)

Acresce um último dado. A hierarquia da Igreja e o restante povo de Deus, tem o direito e o dever de proteger, por todos os meios ao seu alcance, as comunidades católicas dispersas pelo mundo de eventuais perseguições, violência e destruição, pois voltar às catacumbas, ou à paz dos cemitérios, não é opção.

Para isso é necessário criar meios de acesso a tribunais internacionais e pôr de pé no âmbito cívico e laico, instrumentos de protecção para actuar nesse âmbito, para o que se deve procurar alianças entre a Santa Sé e outros Estados. A Santa Sé dispõe apenas de uma “Guarda Suíça” para sua protecção, mas tal é manifestamente insuficiente…

A criação das antigas Ordens Militares e Religiosas, asseguraram durante séculos, esta protecção à Cristandade, mas todas elas foram extintas…

Resta a Ordem Soberana de Malta, mas… desarmada. As forças das Ordens acabaram por ser incorporadas nos Exércitos Nacionais, que passaram a ter outras missões.

Fazem cá muita falta pois, reafirma-se, a Igreja de Cristo vive na terra e não no céu. E o Poder da Oração pode não ser suficiente.

Conclusão

“A Paz é a Tranquilidade na Ordem.
S. Agostinho, “Confissões”

Santo Agostinho tem razão, o problema sendo, que não há tranquilidade nem ordem, logo não há paz… Premissa assaz difícil de mudar.

Em pleno século XXI, havendo razões, não há justificação alguma para haver perseguições ou inimizades religiosas. Mesmo partindo do princípio de que qualquer religião queira para si o monopólio da verdade e seja auto-exclusiva. Cada uma deve ser livre para salvar a alma dos seus, ou realizar os desígnios do “seu Deus”, sem querer impor seja o que for, aos outros. E o que se diz das religiões, aplica-se também às ideologias políticas, sociais ou de seita, que não sejam totalitárias e, ou, antinaturais pois tal atenta contra a essência da dignidade humana.

Quanto à Igreja surgiram, tanto no âmbito material como ideológico, forças que se lhe opuseram e foram, e algumas são, suas inimigas como identificadas supra. E algumas delas formaram-se em países europeus afastando muitos cidadãos do seu seio.

Mas a Igreja foi ela própria, origem de muitos males, divergências e até guerras, no seu interior que provocaram muitas perdas dolorosas, sangue, suor e lágrimas ao povo cristão e católico.

E estamos hoje à beira de ter mais cisões pois, pelos vistos o “máximo divisor comum” não é suficiente e não há autoridade para o impor.

Quando Sua Santidade o Papa Francisco, nas últimas jornadas mundiais da juventude, ocorridas em Agosto passado, em Lisboa, bradou que a igreja é para “todos, todos, todos” limitou-se a dizer uma evidência de sempre (embora duvide que assim tenha sido interpretado…). Mas esqueceu-se, aparentemente, de colocar uma “vírgula” na frase e acrescentar, os que comungarem, aceitem e pratiquem dos seus princípios, doutrina e objectivos. Pois a Igreja podendo ser para todos, não é, de todos. E havendo tanta confusão nas ideias ao ponto da tendência (que vem do século XVIII…) ser a de cada um ser “Deus de si mesmo”, não convém acrescentá-la, mas clarificá-la.

A Igreja não pode ser a principal inimiga de si própria.

No mundo ocidental e, nomeadamente, no Espaço Europeu, parece estar a assistir-se contemporaneamente não só à queda do Império Romano do Ocidente (por “excesso de camas fofas e banhos quentes”; e ter metido os bárbaros no centro do império, ou seja, Roma), mas em simultâneo com a queda do Império Romano do Oriente (discussão do sexo dos anjos – mais temas fracturantes – com as muralhas de Constantinopla cercadas).

É natural, mas pouco curial, que o mesmo se passe dentro da Igreja. Vêm aí tempos de (maior) tribulação.

Não sei se tudo isto responde à pergunta do meu caro concidadão que assistiu à conferência do Patriarca de Lisboa e à limitação de tempo que certamente o condicionou.
Mas foi uma tentativa honesta, embora pouco natalícia.

1 O IDJC foi fundado em 1986, pelo Padre Joaquim António de Aguiar e destina-se a efectuar estudos de carácter político e social sobre a história e a sociedade portuguesa.
2 O Laicismo é o princípio político que rejeita a influência da Igreja na esfera pública do Estado, considerando que os assuntos religiosos devem pertencer somente à esfera privada do indivíduo.
3 Giuseppe Garibaldi, nascido em Nice a 4 de Julho de 1807 e falecido a 2 de Junho de 1882, foi um célebre nacionalista e revolucionário italiano e Maçon, cuja acção foi crucial na unificação da Itália.
4 As relações entre a Santa Sé e o novo estado italiano só foram reguladas por Mussolini, através do Tratado de Latrão, de 1929.
5 Concílio – conjunto de reuniões de autoridades eclesiásticas com o objectivo de examinar e decidir sobre questões que envolvem a Fé e os dogmas da Igreja Católica. Não tem duração fixa.
6 Foram eles, o Bispo de Lamego D. António Pereira de Melo; o Bispo do Algarve D. Inácio Cardoso; o Bispo do Funchal D. Patrício de Moura e o Bispo de Cabo Verde D. José Feijó. Os dois primeiros protestaram contra a ocupação de Roma. A sua falta de acção reflecte o Estado de menoridade e conflito entre a Igreja em Portugal após o termo da Guerra Civil entre 1828 e 1834, e as pressões políticas exercidas sobre a Igreja Portuguesa. Aliás o que o Concilio veio a condenar eram em grande parte os males de que padecia Portugal.
7 A decisão de traduzir a Bíblia nas línguas locais foi uma boa decisão dos “Protestantes”, que a então recente invenção da tipografia por Gutemberg, potenciou. E foi também um veículo importante para a alfabetização dos respectivos povos. Naturalmente o primeiro livro impresso foi a Bíblia, o que foi iniciado em 1450 e concluído em 1455, cerca de cinco anos!
8 Cisma, é um termo que serve para designar a divisão formal e voluntária da unidade da Igreja Cristã que, ao contrário da heresia (termos que são por vezes confundidos) não contêm em si mesmo um desvio doutrinal.
9 Foi este cerco que as Cruzadas (do oriente e do ocidente) ajudaram a romper e a criação das ordens militares (sendo as mais importantes a Ordem do templo e a Ordem teutónica) ajudaram a defender e a preservar. Hoje a Europa está novamente cercada e a situação é mais grave, pois o cerco não é só às suas fronteiras, é também interior. Está cercada por dentro…
10 Heresia (do latim “haeresis”, escolha ou opção) é uma doutrina ou linha de pensamento contrário ou diferente de um medo religioso relativamente ao que está doutrinariamente estabelecido na ortodoxia existente.
11 Em Portugal os templários foram protegidos, pelo Rei D. Dinis, e mais tarde a Ordem do Templo foi transformada na Ordem de Cristo.
12 A Escola de Frankfurt é uma escola de teoria social e filosofia associada ao Instituto para Pesquisa social daquela cidade alemã. Os professores de maior nomeada eram marxistas, alguns judeus, que desenvolveram estudos a partir de 1922, nomeadamente sobre o Comunismo e que inspiraram muitos outros autores que o socialismo e o comunismo não se deveriam atingir pela via revolucionária, mas sobretudo pela cultura e pelas mudanças sociais. Um dos seus expoentes foi o italiano António Gramsci. Parte destas ideias emigraram para os EUA ainda durante a II Guerra Mundial, período em que aquela escola esteve encerrada ou condicionada, tendo retomado em 1953.
13 Antes do Papa Gregório XII, que renunciou, para se encontrar uma solução para o Cisma do Ocidente, houve apenas um Papa que também o fez: o Papa Celestino V, em 1294. Esta renúncia, envolta em algum mistério, após cinco meses no cargo, teve como razão anunciada a de o próprio querer voltar à sua vida de eremita. Foi, porém, preso pelo seu sucessor, tendo morrido em condições miseráveis, em 1296.
14 O grupo de St. Gallen também conhecido por “Máfia de St. Gallen” é um grupo informal de sacerdotes tidos por relativistas e modernistas do alto clero da igreja que se reuniam todos os anos em Janeiro (a primeira reunião deu- se em Janeiro de 1996 e a última, em 2006), em St. Gallen, na Suíça (povoação que deu o nome ao grupo) para debater e contestar livremente as reformas na Igreja. Esta iniciativa partiu do Bispo desta localidade, Monsenhor Ivo Furer, que tinha sido secretário das Conferências Episcopais Europeias entre 1977-95. O Cardeal Carlo Maria Martini, Arcebispo de Milão foi, aparentemente, um dos principais mentores e nas reuniões começaram por participar cerca de uma dezena de prelados, sendo outros convidados posteriormente. Admissivelmente o único português a participar foi o Patriarca de Lisboa D. José Policarpo, convidado em 2004.
15 Convém ainda deixar nota de que dos 266 Papas até hoje existentes, seis foram de origem alemã, sendo Bento XVI o sexto. Do que se sabe, todos os cinco anteriores não morreram de morte natural.
16 Os problemas podem e devem ser discutidos e resolvidos através de Sínodos, por ex.,como aquele que está a decorrer sobre a sinodalidade. Um sínodo é uma assembleia de eclesiásticos convocada pelo legítimo superior e destinada a tratar de assuntos relativos à vida da Igreja.
O Sínodo dos Bispos é uma instituição eclesiástica central, criada em 1965, subordinada directamente à autoridade do Papa e constituída pelos representantes do Episcopado e das Congregações Religiosas de todo o mundo e, ainda, por cardeais da Cúria Romana.
17 Desígnios mais perfeitos e superiores, que o triângulo, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”…