A visão de Portugal de Casais Monteiro 50 anos depois

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Carlos Leone

Conferência realizada em 30 de Janeiro de 2024 na Sociedade Histórica da Independência de Portugal no âmbito do Círculo da Língua Portuguesa.

Quero começar por agradecer à Sociedade Histórica da Independência de Portugal, bem como ao Círculo da Língua Portuguesa, este convite inesperado. Encontrava-me fora do país quando fui contacto pelo Dr Renato Epifânio, a propósito da apresentação da obra colectiva que temos a ocasião de ver surgir, para vos falar de um Autor que me é caro e cuja Obra muito trabalhei, Adolfo Casais Monteiro, então com a confiança e apoio imprescindíveis do Prof. António Braz Teixeira na INCM e do filho de Casais, Prof. João Paulo Monteiro. Aceitei de imediato pois, neste como em outros casos de grandes autores portugueses, sei bem a dificuldade que encontram os organizadores destes trabalhos e encontros enfrentam ao tentar renovar perspectivas sobre o homenageado.

Esse é aliás o ponto pelo qual devo começar. O meu trabalho em torno da Obra de Casais Monteira data, aproximadamente de 2000 a 2008. Isto para me reportar ao essencial: o meu doutoramento, os materiais que dele se autonomizaram editorialmente, o convite para colaborar nos trabalhos da Obras Completas de ACM na INCM. Depois disso, um hiato causado pela minha ocupação profissional e pela estagnação das Obras Completas. Recentemente, e em parte já pela mão do Renato Epifânio, voltei ao contacto com ACM a propósito do cinquentenário do seu desaparecimento, em 2022. O lançamento em que hoje nos encontramos resulta desse trabalho de memória em que a Universidade do Porto foi decisiva.

Ora, logo em 2022, foi com desconforto mas sem surpresa que constatei o facto de os estudos sobre ACM estarem hoje tão negligenciados como se encontravam há 15 anos atrás, quando me afastei deles. Tal como sucede com muitos outros autores (e a Presença ilustra bem isso mesmo), o pensamento português contemporâneo, ou como lhe chamei há 20 anos, o pensamento crítico português, é recebido hoje com o mesmo desinteresse e esquecimento que quase sempre lhe foi dedicado. Significa isto que somos poucos, muito poucos, os que lemos, comentamos, discutimos estas obras de um passado afinal ainda muito recente. Em 2022, nas duas ocasiões em que tive o prazer de participar em eventos na Universidade do Porto, tentei abordar justamente estes problemas: a difícil perenidade de obras como as de Casais e as condições de recepção actuais de obras de intelectuais contemporâneos. Mais recentemente, e de novo por convite do Renato, fiz algo semelhante (Outubro 2023, BNP) sobre Eduardo Lourenço, cuja fortuna crítica e pública é contudo muito maior que a de Casais. Mas este é um tipo de exercício a que se presta a generalidade das obras de críticos portugueses do século XX, não importa qual a sua visibilidade em vida, pois o esquecimento é por norma quase total após o seu desaparecimento. Parabéns redobrados por isso por esta iniciativa.

O tema desta intervenção foi sugerido pelo Renato e prontamente aceite por mim. Ele comporta uma dificuldade evidente e três possibilidades aliciantes. A saber:

A dificuldade óbvia de encontrar uma visão unificada de Portugal no corpus monteiriano e a tentação correspondente (na qual já incorri) de a encontrar em O País do Absurdo;
A possibilidade de concatenar essa imagem a partir do conjunto da sua Obra;
A possibilidade de assimilar Casais a um conjunto mais vasto e diverso de visões de Portugal (de novo, algo que já ensaiei);

A possibilidade de reflectir sobre tudo isto e já também sobre os meus trabalhos anteriores na matéria (algo que comecei a fazer em 2022) e sobre a minha experiência desse «Portugal segundo Casais» – um confessionalismo que aqui exploro conscientemente pela primeira vez.

Ou seja: o modo que encontro de corresponder ao convite é convencional, mas o modo de lhe corresponder originalmente, e não apenas repetindo o que já fiz, obriga-me a afastar-me e a ampliar o tema do título.

Em primeiro lugar, e como o próprio Casais repetiu amiúde, o seu interesse e a sua Obra são predominantemente literários, artísticos, sobretudo poéticos. A palavra essencial é a poesia, não o ensaio. A reflexão subordina-se à expressão poética (Europa). As considerações pessoais mesclam o artístico e o social, mas sem nunca subordinar aquele a este. O mais próximo presencista dos neorealistas, talvez, mas sempre com os seus pés fincados na terra da liberdade autoral.

Ora, a aparente excepção a isto consiste em O País do Absurdo. Devemos lembrar que apesar de se tratar de um projecto de Casais, chega ao prelo apenas depois da sua morte, pela mão de seu filho. No meio do PREC, tal livro terá apenas paralelo em algumas obras também pouco referidas de Eduardo Lourenço (O Fascismo Nunca Existiu) e em algumas observações mais certeiras de gente como Sena ou António José Saraiva a respeito do carácter pouco revolucionário da nossa hoje cinquentenária Revolução.

Significa isto que as páginas de O País do Absurdo são sugestivas e interpelantes mas não formam um todo, não constituem um sistema sócio-político no pensamento de Casais. Delas não resulta uma imagem desse país, pelo contrário, a tese do absurdo constitutivo inviabiliza tal imagem. É uma das dificuldades do livro, encoberta pela sua entusiasmante leitura.

Encontramos elementos que nos restituem influências ante-presencistas, do Porto; encontramos perspetivas sobre o evoluir dessas ligações e de outras posteriores, umas artísticas (Presença), outras políticas (oposição democrática), encontramos libelos sobre a História de Portugal (e acessoriamente da Europa e do Estado Novo). Mas não se define ali uma imagem de Portugal. Nem era esse o fito dos artigos ali reunidos. Talvez Casais se propusesse fazer algo como isso num prefácio especificamente redigido para a reunião daqueles escritos originalmente dispersos, não sei, nunca tive qualquer indicação sobre isso. Faria sentido, mas não tenho elementos nesse sentido.

Assim, temos as três possibilidades elencadas acima.
Primeira, concatenar na Obra um Portugal de Casais. Não é simples pois a Obra tem períodos muito diversos, dificilmente unificáveis. De Considerações Pessoais até A Palavra Essencial os próprios títulos indicam essa evolução. E, a haver montagem possível, parece certamente mais viável em planos como o da reflexão sobre Arte, literária em particular e poética em concreto, do que em matérias também elas tão fluídas e compósitas como o social, o económico, o institucional, o legal. A continuidade nestas matérias, como já se assinalou o suficiente, é real: o anticapitalismo vindo da juventude com Leonardo Coimbra, o democratismo não liberal mas espiritual (difícil é defini-lo mais), o estrangeiramento de segunda geração (dentro do século XX) como em tempos o mencionei, sem grande concreção, admito.

O que me traz a uma via alternativa, a de o articular com outros. Foi o que fiz diversas vezes, de diferentes modos: primeiro como parte do presencismo (no meu doutoramento); depois como parte dos estrangeirados portugueses do século XX (no meu pós-doutoramento); ainda mais recentemente, como um autor desirmanado, não obstante as suas múltiplas ligações ao meio literário e artístico, algo que tenho privilegiado recentemente. Esta última unificação da sua imagem de Portugal com a de um «estrangeiro definitivo» (para glosar um título que não é meu) pode servir para enquadrar um título como o «país do absurdo», na medida que este resulta desse distanciamento que não apenas lhe foi imposto mas que ele próprio também gerou contra a realidade que lhe fora forçada. Aqui, a articulação com outros é sobretudo a articulação com os seus diversos tempos: o Casais do Porto, o Casais de Coimbra, o Casais de Lisboa, o Casais do Brasil e, neste último, o Casais da senectude, «estabilizado» na Universidade (anos ‘60/’70), ainda diferente do imediatamente anterior (anos ‘50/’60). E talvez devesse acrescentar, ainda, o Casais póstumo, na medida que O País do Absurdo ou os dois volumes de correspondência publicados na Obras Completas, são testemunhos muito significativos mas cuja autoria dificilmente lhe pode ser atribuída, pelo menos em exclusivo. Em poucos casos as diferenças dos diferentes períodos de um Autor são tão nítidas, mesmo com algumas continuidades relevantes. Mas em nenhum desses momentos o foco esteve em delinear uma «imagem de Portugal» ou sequer em articular as que foi exprimindo sem nenhum plano premeditado que se possa identificar. O problema persiste, portanto.

Resta, então, e para cumprir com o objectivo e não apenas me repetir, tentar interpretar, hoje, a visão de Portugal que temos pelas lentes de Casais. Hoje, como no início deste mês de Janeiro de 2024, noticia-se em Portugal a elevada percentagem de jovens nascidos em Portugal que emigram (Expresso, 11 de Janeiro: https://expresso.pt/sociedade/2024-01-11-Exodo-tem-um-impacto-brutal-30-dos-jovens-nascidos-em-Portugal-vivem-fora-do-pais-6b42d39c=). Nada de novo, na realidade. Ainda em vida de Casais assim o era, como Adérito Sedas Nunes estudou nas décadas de 1950 e 1960. Nunca deixou de ser assim, eu próprio o estudei há cerca de 20 anos, quando a notícia era o ‘brain drain’ (fuga de cérebros) de Portugal ser o maior da UE (nunca publiquei esse trabalho). A realidade que nos alarma é contínua e nada indica que se vá alterar; o que levou Casais a referir-se-lhe como absurda, embora nos deva fazer pensar que talvez seja, bem pelo contrário, um sistema bem eficiente. Portugal foi um Império que expulsou a diversidade da metrópole (como notado em tempos pelo jovem Hermínio Martins, oriundo de Lourenço Marques), característica que persiste hoje mutatis mutandis: Lisboa é agora mais cosmopolita, apesar de queixas várias, mas o êxodo (nem o termo muda) de jovens e de profissionais qualificados continua. O título jornalístico que citei surgiu poucos dias antes do convite do Renato para aqui estar hoje – e, enfim confessionalmente, a sequência de título e convite fez-me sentir mais próximo do que nunca de Casais. Também eu, como ele, me encontro fora de Portugal, apesar de (tal como Casais) não ir para jovem, e por razões em boa parte idênticas, o bloqueio laboral. Ontem, esse bloqueio era imposto legalmente a Casais; hoje, continua, no meu caso, pela simples indisponibilidade de qualquer ocupação em Portugal. Convites pro bono, como este, são regulares; mas, tal como Casais experimentou, aqui não há possibilidade alguma para mim a não ser sair. Longe de ser um absurdo é um sistema: Casais saiu dele em direção ao Brasil, eu saio rumo a Itália (suspeito que a escolha dele faz mais sentido). O notável é como a mudança de Portugal nas últimas cinco décadas, que é real, não alterou isto a não ser formalmente. Não pretendo significar que a mudança formal (já não existir perseguição política legalmente sustentada) seja menor, pelo contrário, é da maior importância. Apenas observo como essa mudança não altera a experiência individual, ao ponto de afectar escolhas decisivas de partes significativas da população. E, constato, recentemente até se encara com normalidade os serviços secretos visitarem as pessoas em casa à noite, para «recuperar computadores» aos seus legítimos utilizadores…

Casais, creio, reconheceria sem dificuldades o Portugal de hoje apesar de todas as mudanças materiais que ocorreram após a sua morte em 1972. O cortejo diário de peripécias insignificantes não é exclusivo de tempos de campanha eleitoral (e eu acrescento: desde a «saída limpa» que Portugal vive em campanha contínua) e seria perfeitamente familiar a Casais. Tudo o que deixou escrito leva a crer que apreciaria as mudanças institucionais e desprezaria o resultado prático delas (ou a escassez de tal resultado). Não creio que revisse nada em O País do Absurdo ou que visse diminuída a sua Melancolia do progresso, ou melancolia com este progresso. Por isso, ler o Casais mais civicamente empenhado, qualquer um dos vários Casais, é reencontrar Portugal, por vezes de forma bem diferente mas quase sempre bem próximo da nossa experiência.

Se esta abordagem confessional à visão de Casais de Portugal, cinquenta anos depois, não me equivoca, será caso para dizer que se pode encontrar aqui um desafio a uma Sociedade como esta, que se dedica à história e à independência do país. À Sociedade mais até do que ao círculo da língua portuguesa, que talvez fosse o foco mais imediato do próprio Casais, ou da sua Obra, talvez melhor assim. O desafio em que penso é o de perceber que independência há, ou pode haver, num país assim. Desafio que Casais enfrentou mas para o qual não deu, tanto quanto sei, outra resposta que não a sua vida, em Portugal e no Brasil.

Quero enfim terminar, com uma citação e quero dizer que não sei se os portugueses estão em vias de descobrir o que diz Casais, mas merece ser aqui citado (O País…, p.329):

Os portugueses estão em vias de descobrir que a revolução terá de ser a de cada um, que não se trata de lutas de partido, nem de perguntar pelo «programa» da revolução, mas de salvar a própria razão de ser, para criar um mundo em que se tenha o direito de viver. Então será o fim do medo, e a hora de Portugal recomeçar.

Assim seja, Obrigado pela V. atenção.

O Doutor Carlos Leone a proferir a conferência no Salão Nobre do Palácio da Independência.