Gago Coutinho – elementar realidade

Avião da travessia aérea do Atlântico Sul Avião da travessia aérea do Atlântico Sul
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Henrique Henriques-Mateus


…o Nada é só o resto

Contemplando a esteira deixada pela elementar realidade da vida de Gago Coutinho; para as pessoas que amou, os amigos que fez —e sobretudo para as várias vidas que viveu numa só existência—, ressalta à vista desarmada o vulto de um homem tranquilo e simples. Tranquilo, porque viveu na entoação serena da doçura e da harmonia —abertamente—, numa lhaneza sem disfarce, longe do odioso da ambição desmedida; o que lhe permitiu afirmar-se feliz(1). E simples, porque soube viver com a mesma naturalidade e graça modesta da gente que o gerara —desguarnecido de fausto e sem vaidade —, como quem cumpre um dever; porque a «vaidade obscurece a razão e endurece a alma».

Ainda nesta perspectiva, a sua figura surge como a de alguém perfeitamente integrado no tempo e no espaço que lhe tocou habitar. Que sabia quem era e de onde vinha, com disposição natural para ver tudo pelo lado bom e sempre em «estado de graça» com a ordenada coexistência universal(2). A figura do «heroico optimista» —usando as palavras de Leonardo Coimbra(3) —, tão talhado pelo rasgar da distância no mar e no mato como pelo estudo da Geometria e Astronomia(4). Ou, visto por outra faceta, a imagem de alguém pronto a romper claridades novas, consciente do que há que pagar por elas e sabedor de que «no meio do materialismo moderno essa vida é luta », abnegação, tenacidade e sacrifício.

Marinheiro por apego à «velha e nobre tradição nacional do rumo ao mar» (que D. João da Câmara entreviu no espírito português), Gago Coutinho sabia por experiência como o mar —…em contacto constante com o perigo, faz homens enérgicos e decididos; torna-os nobres e cavalheirescos. Ali, com a maior simplicidade se arrisca a vida, às vezes para salvar a do nosso semelhante, mas em muitos casos, banalmente, para evitar que se parta um pau, que arrebente um cabo, que se rasgue uma vela… Eu já vi, no alto mar, arriar um escaler guarnecido de gente para se apanhar um pombo…(5) Assim mais além do que cumprir a divisa da Marinha portuguesa «A Pátria honrai…(6) » se procura honrar a própria humanidade(7).

Foi neste propósito de «Honrar a Humanidade» que Gago Coutinho viveu. E mesmo para lá da morte mantem o propósito de o fazer. E isto, porque tudo aquilo que possuía deixou por testamento àqueles que dos seus bens careciam — gente desfavorecida, instituições de beneficência, bibliotecas e Sociedade de Geografia— para que todos prosseguissem a caminhada da existência por caminhos menos penosos. Alguns, ainda hoje amparados —talvez sem já disso se aperceberem — pelo bordão discreto da sua alma de geógrafo.

Quem o acompanhou ao longo dos anos, sabia como a vida de Gago Coutinho foi «natural e simples. Comovedora de simplicidade. Apagando-se em tudo. É o herói «Malgré-moi» — não teve outro remédio senão sê-lo!(8)». E assim foi, porque viveu na linha avançada da vida, tanto em terra como no mar —e ainda mais além — na dureza do campo da batalha, onde a fortuna peleja com a adversidade para decidir a vitória ou o fracasso. Terreno sempre ingrato, onde tantas vezes deu «corpo ao manifesto(9)» para assumir o dever que a consciência lhe impunha. Facto de que a primeira travessia aérea do Atlântico Sul é disso, apenas, mais uma prova.

E porque honrava a humanidade, Gago Coutinho não estava ao lado daqueles que lhe sequestram a independência e a sujeitam à tirania para lhe tolher a progressão. Afeito a escalar mastros e montes, soberano do seu próprio pensamento, sabia que a independência é o vértice de uma pirâmide «de onde se vê de alto e de longe». E isso, dava-lhe a sagacidade da perspectiva humanista e o discernimento para não se deixar profundar no sorvedouro dos discursos exacerbados das demagogias.

O fascismo, o nacional socialismo e o comunismo não conseguiram confundi-lo no vórtice das suas promessas. E nem mesmo a admiração que por ele tinha Italo Balbo o atraiu para terreiro político que aquele professava, apesar de reconhecer o mérito aeronáutico do aviador italiano e de haver entre ambos laços de grande apreço, ou mesmo, de amizade pessoal.

Conta-se até (10) que Italo Balbo, no momento da chegada da sua esquadrilha a Lisboa, em 1927, ao homenagear publicamente Gago Coutinho, terá tido para com este um gesto cortês, quando:

— …aos olhos da multidão, arranca da lapela o distintivo de ouro da aviação italiana e põe no peito do pioneiro da aviação transatlântica: — «Almirante! O senhor, que conquistou o Atlântico pelos ares, receba este emblema, como demonstração da nossa simpatia». Balbo, o chefe da aviação fascista, prossegue viagem e Gago Coutinho viaja para a Alemanha e nunca mais deixou de usar aquele distintivo. A convite do governo do Reich, esteve em Friedrichshafen(11). O doutor Eckener (12) estava ausente, porém o engenheiro construtor, em pessoa, mostrou-lhe todos os detalhes da construção do “Hindenburg” (13), mais tarde destruído por um incêndio nos Estados Unidos. Como hóspede oficial do Reich, foi de avião a Kiel e ao lago Constança, tendo sido posto à sua disposição, desde o seu desembarque em Hamburgo, um aviador que falava correctamente o espanhol e o português. (…) . Como era natural, escreveu uma série de crónicas sobre a Alemanha, narrando o que vira, sobretudo na indústria e na aviação. Isto foi o bastante para que se propalasse em Portugal que o Almirante havia aderido ao nazismo. Homem de convicções democráticas e educado num país liberal, ele preferiu não responder às acusações. O tempo se encarregaria de destruí-las. E destruiu.

Afirmação final, esta, que não deixa de ser digna de admiração — e que muito diz sobre a pessoa que foi Gago Coutinho— posto que está impressa num livro publicado em 1941, quando a guerra corria de feição para as tropas de Hitler.

«Humilde como um asceta e avesso à existência lantejoulada e artificial da vida mundana(14)», Gago Coutinho impõe-se hoje como uma das mais destacadas figuras portuguesas do século XX, protagonista de um dos momentos mais altos da sua História, cujo desempenho ele mesmo reduzia ao mínimo. Pois o mérito era todo do Sacadura!

E é ao olhar para trás, para a sua «humilde simplicidade(15)» e para o mínimo que foi — segundo ele mesmo afirma— o papel que desempenhou durante a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, que nos salta à lembrança um poema de Reinaldo Ferreira, alheio a este tema, mas que diz mais, na sua candura, do que tudo aquilo que sobre Gago Coutinho poderíamos escrever:

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade
O Nada é só o resto.
(16)

* Henrique Henriques-Mateus – Investigador integrado no CITCEM da Universidade do Porto. Membro da Comissão Histórico Cultural da Força Aérea Portuguesa\ Consultor do Museu do Ar. Vogal do Instituto Bartolomeu de Gusmão da SHIP. Sócio Honorário do Aéro-Club de Portugal

Nota: Este texto é um excerto do livro “Gago Coutinho – Um Homem Simples” que foi adaptado e corrigido pelo autor para a revista “Independência”.

1 Sobre este assunto, vd. Morel, Edmar — Op. cit., pp.53 e 152, onde, por esta ordem, se atribuem a Gago Coutinho as seguintes afirmações: «sempre me senti feliz…» e «nunca ambicionei uma existência tão feliz!».
2 «O Universo é uma ordenada coexistência…», escreveu Leonardo Coimbra:
(in. A Alegria, a Dor e a Graça, Renascença Portuguesa, 2.ªedição idem, p.168., Porto, 1920.
3 Coimbra, Leonardo — A Alegria, a Dor e a Graça, Renascença Portuguesa, 2.ªedição, Porto, 1920.  p. 173.
4 «Nos elementos fornecidos por Gago Coutinho ao comandante Teixeira Marinho (…) declarou o almirante: A função principal da minha vida não foi a Marinha nem a Aviação, mas sim Geometria e Astronomia…». Corrêa, Pinheiro —Gago Coutinho, p. 202.
5 Sobre este episódio do «Pombo», leia-se aquilo que o próprio almirante sobre isso disse, numa entrevista que Pinheiro Corrêa reproduz parcialmente (Op. cit., p. 199.): — …no Douro, de que era «imediato», atravessei o Atlântico com as bonanças do golfo da Guiné, tantas que chegámos a arriar um escaler para exercício — acompanhando o navio à vela. De uma vez, até, tendo caído ao mar um pombo, que era o «pet» ou «mascote» da tripulação, conseguiu-se arriar a tempo o escaler e apanhar o pombo… Ainda sobre este assunto, vd. «Pombo ao Mar- fragmentos de histórias marítimas», in Anaes do Club Militar Naval, 1947.
6 «A Pátria Honrai Que A Pátria Vos Contempla».
7 Carta-prefácio de Gago Coutinho (Bordo do Porto, em viagem, 25 de Outubro de 1922), in. Mesquitella, Almirante D. Bernardo de — Marinheiros de Portugal, Lisboa, 1923, p. 9.
8 Rodrigues, Contra-Almirante M.M Sarmento — Almirante Gago Coutinho – Um dos maiores de Portugal, Funchal 1972, p. 21.
9 Na «Relação da Viagem e Sucesso que teve o hidroavião 4018, de Lisboa à Madeira com as impressões pessoais do navegador do dito avião capitão-de-mar-e-guerra- Gago Coutinho» (vd. Corrêa, Pinheiro — Op. cit., p. 257.), dá este conta das razões que o levaram a integrar, em 1921, a tripulação daquele aparelho, sendo que «dar o corpo ao manifesto» surge como a principal: — Há quase dois anos que eu venho a ocupar-me em estudos de navegação aérea, com a adaptação dos métodos usados na navegação marítima, combinando processos e instrumentos especiais, visto não conhecer nem tratados nem relatórios a respeito da aplicação da astronomia às viagens aéreas sobre o mar. Tendo eu nas minhas viagens de experiência recorrido a aeroplanos, principalmente aos hidro-aviões da marinha, estava materialmente indicada a minha colaboração para uma viagem aérea de Lisboa à Madeira na qual, como prova de confiança, nos meus estudos, eu tinha de dar o corpo ao manifesto, propondo-me seguir como navegador do hidroavião F4018, ocasião excelente de fazer uma ultima experiência final. Experiência esta, antes de se lançar com Sacadura Cabral à conquista do Atlântico Sul, entenda-se.
10 Morel, Edmar — Op. cit.,pp. 146\147.
11 Junto ao Lago Constança. Ali se situava o estaleiro onde eram projectados e construídos os maiores e mais avançados dirigíveis do mundo, vulgarmente conhecidos por Zepelins, nome que provém do pioneiro e fundador da fábrica Conde Zeplin.
12 Engenheiro Hugo Eckener.
13 Dirigível alemão, o maior do seu tempo. Sobre esta aeronave, que teve um fim prematuro e funesto, nos arredores de Nova Iorque,  vd. LZ 129 ‟Hindenburg” (há muita informação disponível na internet).
14 Lopes, Norberto, Op. cit., pp.241\242.
15 Lopes, Norberto — Op. cit., pp. 241\242.
16 Ferreira, Reinaldo — Poemas, Portugália editores, Lisboa, 1961, p. 95.