José Ribeiro e Castro
Este é o primeiro acto público oficial, a nível nacional, do programa de comemorações PORTUGAL 900 ANOS, que desenhámos e estamos a desenvolver. É um programa de comemoração, em ciclo largo (como dizemos), que acompanhará, quase até ao final do século, o governo do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, assinalando 900 anos dos quatro marcos ou pilares políticos da fundação: 1128, S. Mamede (em Guimarães), a batalha por que Afonso Henriques resgatou da mãe o governo do Condado; 1139, Ourique, outra batalha, segundo a lenda, sobre cinco reis mouros, que consolidou a sua autoridade e projetou o seu prestígio entre os reinos cristãos da Europa; 1143, a conferência ou o tratado de Zamora, em que o Reino de Leão reconheceu a independência do novo Reino de Portugal; 1179, a Manifestis Probatum, em Roma, a bula por que o Papa Alexandre III consagrou o vínculo direto do nosso Rei e dos seus herdeiros e, assim, a independência de Portugal no plano internacional da época.


Tem havido já comemorações de 900 anos a nível local, focadas nos forais concedidos desde 1096, quando o Condado Portucalense foi atribuído a D. Henrique e D. Teresa, pais de Afonso Henriques, até à morte deste em 1185. São 60 os forais que temos considerado, no período de 1096 a 1185, em 54 municípios atuais. Neste ano de 1125, é o foral de Ponte de Lima, famosa, bela e carismática vila portuguesa, no Alto Minho, que recebeu foral de D. Teresa, condessa-rainha, e de Afonso Henriques, seu filho, em 4 de março, pouco antes de vir até aqui, à Catedral de Zamora, fazer o que estamos a celebrar nestes três dias.
No Domingo de Pentecostes de 1125, que, nesse ano, caiu em meados de Maio, o jovem Afonso Henriques, então com 15 anos (se, acompanhando José Mattoso, considerarmos que nasceu em agosto de 1109, em Viseu), armou-se Cavaleiro, na catedral de Zamora. Na altura, Zamora estava no senhorio de D. Teresa, pois, escreve José Mattoso, fora concedida pela irmã D. Urraca a D. Teresa, durante o cerco de Peñafiel em 1111.


No Domingo de Pentecostes de 1125, que, nesse ano, caiu em meados de Maio, o jovem Afonso Henriques, então com 15 anos (se, acompanhando José Mattoso, considerarmos que nasceu em agosto de 1109, em Viseu), armou-se Cavaleiro, na catedral de Zamora. Na altura, Zamora estava no senhorio de D. Teresa, pois, escreve José Mattoso, fora concedida pela irmã D. Urraca a D. Teresa, durante o cerco de Peñafiel em 1111.
Sigamos o relato de Alexandre Herculano[1], o nosso primeiro grande historiador na historiografia moderna. Diz ele:
«É em 1125 que o infante practica o primeiro acto de que a história conserva lembrança. Este acto foi o armar-se cavaleiro em Zamora, então unida (…) aos domínios de D. Theresa. Na catedral daquella cidade, no sancto dia de Pentecostes, elle proprio foi tirar as armas de cavalleiro de cima do altar de S. Salvador e juncto delle vestiu a loriga e cingiu o cinto militar, segundo o costume dos reis.»
O mesmo nos conta o grande medievalista José Mattoso, na biografia de Afonso Henriques[1], citando diretamente crónicas medievais:
«A notícia acerca da cerimónia encontra-se nos Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses, que dizem, textualmente:
“(…) O ínclito infante D. Afonso, (…) estando na Sé de Zamora, no dia santo de Pentecostes, tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar, como é costume fazerem os reis”.»
Ambos os autores, além de sublinharem que o infante Afonso Henriques seguiu o costume dos reis, acrescentam que ele replicou na catedral de Zamora, com a companhia do arcebispo de Braga, Paio Mendes, o gesto que o primo Afonso Raimundes (futuro rei Afonso VII de Leão e Castela) fizera, um ano antes, na catedral de Santiago de Compostela, com a companhia do respetivo arcebispo Diogo Gelmires.


Este é o eixo central das nossas comemorações por estes dias. Não é ainda um acto de fundação do Reino de Portugal, mas é o último acto público que a prepara, em que Afonso Henriques mostrou ao que vinha. Por isso, estas comemorações são a oportunidade para anunciarmos o programa em que temos trabalhado para acompanhar os 900 anos em todo o ciclo da fundação e o governo de D. Afonso Henriques. Também vimos mostrar e dizer ao que vamos.
Este Congresso insere-se neste tempo de anúncio, para compreensão de como eram estes territórios no século XII, como eram as fronteiras e as suas questões, o papel da religião cristã, as elites e as lideranças, a nobreza e o clero, a herança lusitana, os judeus, os moçárabes e a diversidade cultural do povo, os almorávidas e, é claro, a figura de Afonso Henriques – tudo não só na perspetiva portuguesa, mas também de como éramos vistos a partir de Leão. Temos forte esperança no lastro de arranque que este Congresso deixará para todo o ciclo, constituindo um seu grande capital – outro capital, já em desenvolvimento, é o conjunto das crónicas semanais que começámos a publicar no jornal OBSERVADOR há um ano e de que acabamos de editar em livro o 1.º volume.
Portugal começou numa história de família na descendência de Afonso VI, de Leão e Castela, que seguiu caminhos diferentes, porque exprimia aspirações diferentes dos respetivos povos e seguiu também, numa linguagem de hoje, as dinâmicas da geopolítica.
Considero curioso como Zamora aparece duas vezes em marcos importantes desta nossa história inicial: em 1125 e em 1143. É uma marca de paz, não a de exércitos que se confrontam – que também os tivemos na nossa história. Numa, o nosso jovem Afonso Henriques arma-se cavaleiro, para ser igual ao seu primo, mais velho, Afonso Raimundes. Noutra, na conferência de Zamora, Afonso Henriques entra Conde e sai Rei, Afonso I de Portugal, reconhecido por aquele seu primo mais velho, Afonso VII de Leão.
Zamora é uma cidade preciosa que marca a nossa História e sempre com sinais de paz. Por isso, pode ser inspiração e ponto de encontro para desativar conflitos armados e definir caminhos pacíficos. Está aqui uma boa onda em Zamora. Diria até, quando a paz na guerra da Rússia contra a Ucrânia continua tão difícil e a situação é tão perigosa para toda a Europa e para o mundo, que Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky poderiam ganhar em encontrarem-se aqui. Zamora guarda e transporta uma longa e fecunda sabedoria a respeito de um sensível problema geopolítico entre irmãos e vizinhos: como enquadrar as relações entre um irmão maior e um irmão mais pequeno, no respeito mútuo, na boa vizinhança e na convivência pacífica. Putin encontraria aqui boa inspiração e bom caminho, para russos e ucranianos poderem viver em paz.
Nunca saberemos – se não se experimenta. Mas uma coisa é certa. A inspiração de Zamora para a paz seria certamente melhor e mais forte do que a proporcionada pelo Presidente Trump.
A História é um recurso poderosíssimo, creio mesmo que um dos maiores recursos da Humanidade. Guarda tudo. Ensina tudo. É aí que sempre vemos o que devemos querer repetir e o que não devemos querer repetir, o que nos traz o Bem e o que nos traz o Mal.
Sendo a política a arte das escolhas, a História tem muitas vezes luz para nos iluminar. Devemos buscar essa luz, que é o conhecimento feito da experiência.
É também esse o espírito, humilde e curioso, com que percorreremos todo o ciclo largo de comemorações dos 900 anos de Portugal, cujas portas viemos abrir aqui em Zamora, no 8 de junho de 2025. Para saber tudo. Para fazer o que falta.


[1] José MATTOSO, D. Afonso Henriques, Temas e Debates, 2007, p. 54-56.
[2] Alexandre HERCULANO, História de Portugal, Tomo 2, Livro 1, p. 114-116.
* Discurso de José Ribeiro e Castro,na abertura do Congresso Histórico Luso-espanhol “Portugal Século XII”, em Zamora.
