Nação que se lembra, Nação que se refresca
– por José Ribeiro e Castro
Chega hoje ao público mais um número da revista “Independência”, publicação que se tem afirmado como espaço de reflexão sobre Portugal, a sua história, a sua identidade e o seu futuro. Num tempo marcado pela aceleração dos acontecimentos e pela fragmentação da memória colectiva, esta edição oferece um convite raro: parar para pensar Portugal.
Os textos aqui reunidos percorrem séculos da nossa história, da Idade Média ou da época moderna à contemporaneidade, sob um fio condutor comum. Não se trata apenas de revisitar acontecimentos, personagens ou debates do passado. Trata-se de compreender como se construiu a comunidade nacional portuguesa e de que forma essa construção continua a interpelar-nos.
A escolha dos temas fala por si. Da defesa do Reino durante as Guerras da Restauração ao mistério da “Empresa” de D. Sebastião; da religiosidade e da vida urbana portuense no final do século XVIII às memórias de um tempo recente de ruptura; da reflexão sobre a identidade portuguesa ao apelo para acreditar em Portugal, tudo converge para uma pergunta central: o que significa, hoje, ser uma nação livre, consciente da sua história e confiante no
seu destino?
Um dos méritos desta edição reside na sua amplitude temporal. O leitor percorre diferentes épocas, mas encontra em todas elas questões actuais. A defesa de Portugal durante as Guerras da Restauração recorda que a independência nacional, tantas vezes tomada como garantida, foi uma conquista que exigiu determinação, sacrifício e visão estratégica.
A mesma reflexão surge no ensaio sobre D. Sebastião e a sua “Empresa”, de Vítor Amaral de Oliveira, que, ainda recentemente, publicou a obra monumental “Imagens de D. Sebastião”. Poucas figuras da história portuguesa suscitaram tanta fascinação. Entre a realidade histórica e a construção mítica, D. Sebastião continua a simbolizar a relação complexa entre esperança, ambição e destino nacional. Revisitar esta questão é também reflectir sobre a forma como as comunidades políticas constroem as narrativas acerca de si próprias, dos seus fracassos e das suas expectativas.
Particular interesse reveste igualmente o olhar lançado sobre a cidade do Porto no final do século XVIII, através da evocação de São Vicente. A identidade nacional não se constrói apenas através dos grandes acontecimentos políticos ou militares. Nasce também da vida quotidiana das comunidades, das suas devoções, tradições e instituições. A história de Portugal é, afinal, a soma de muitas histórias locais que se entrelaçam numa experiência comum.
Mas esta edição não se limita à história distante. Pelo contrário, estabelece uma ponte constante entre passado e presente. Num contexto internacional marcado por profundas transformações geopolíticas, por novas dependências económicas e tecnológicas e por crescentes desafios culturais, a questão da independência adquire renovada actualidade.
Naturalmente, a independência de uma nação no século XXI não se confunde com os desafios enfrentados noutras épocas. Contudo, permanece válida a exigência de preservar capacidade de decisão própria, consciência histórica e coesão colectiva. A soberania política continua a depender da existência de uma comunidade que se reconhece a si mesma, conhece as suas raízes e acredita no seu futuro.
O Prémio Aboim Sande Lemos dedicado à Identidade Portuguesa — com que distinguimos este ano o notável trabalho do Eng.º Armando Martins no domínio das Artes, em especial através do extraordinário MACAM — assume, neste contexto, significado especial, bem evidenciado no texto do Tenente-General Alexandre de Sousa Pinto. Num mundo frequentemente tentado por visões uniformizadoras, importa reafirmar que a identidade portuguesa não é uma realidade estática nem uma mera herança do passado. É uma construção histórica viva, enriquecida ao longo dos séculos por múltiplas experiências, influências e realizações.
Também o meu texto intitulado “Este tempo chama-nos a gostar de Portugal, a respeitar Portugal, a acreditar em Portugal”, contendo as palavras que proferi na Sessão Solene anual de Maio passado, se insere nessa mesma linha de reflexão. Num período em que o discurso público tende frequentemente para o pessimismo e para a desvalorização das capacidades nacionais, afirmar a necessidade de acreditar em Portugal constitui uma tomada de posição cívica. Nenhuma comunidade progride sem confiança em si própria. Outro dos pontos altos desta edição é o testemunho pessoal sobre o 25 de Novembro de 1975, cuja evocação marcou o cinquentenário assinalado em 2025.
A memória individual possui uma força particular quando integrada na reflexão histórica. Os grandes processos colectivos tornam-se mais compreensíveis quando observados pela experiência concreta de quem os viveu. As memórias pessoais permitem captar emoções, percepções, dilemas e expectativas que frequentemente escapam às narrativas mais institucionais. As experiências de quem viveu os acontecimentos ajudam-nos a compreender os
factos e as escolhas que moldaram o país.
Aliás, um dos traços distintivos da revista “Independência” tem sido precisamente esta capacidade de combinar investigação histórica, ensaio, reflexão cívica, evocação memorialística e intervenção cultural. A revista procura ser um lugar de encontro entre conhecimento e cidadania, entre memória e actualidade.
Essa vocação adquire ainda maior significado no contexto das comemorações dos 900 anos de Portugal, que progressivamente entram na agenda pública nacional. O debate sobre as origens, os marcos fundadores e os momentos decisivos da construção portuguesa ganha nova visibilidade e exige reflexão séria, informada e plural.
Ao percorrer as páginas desta edição, o leitor encontrará temas diversos, autores distintos e abordagens próprias. Além do que já acima referi, irá dos Atoleiros ao 25 de Novembro, das Alcáçovas a Nossa Senhora da Conceição, de Camões e Macau ao “capriccio” que tece a alma portuguesa, da tradição popular do Dia da Espiga ao mar sempre. E encontrará também uma ideia comum: Portugal é uma realidade histórica que merece ser estudada, compreendida e valorizada. Não por nostalgia, mas porque a consciência histórica continua a ser um recurso indispensável do país e dos seus cidadãos.
Num mundo onde tantas referências parecem dissolver-se, recordar a experiência histórica portuguesa é um acto de responsabilidade cultural. Entre a evocação do passado e a interrogação do futuro, reafirma-se uma convicção simples mas fundamental: a independência continua a ser um dos bens mais preciosos de uma comunidade política.
Que estas páginas ajudem, pois, a conhecer melhor Portugal. E que, conhecendo-o melhor, possamos também servir melhor Portugal.
