General Baptista Pereira: presente!

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João José Brandão Ferreira *

“As guerras podem ser travadas com armas, mas são ganhas pelo homem”.
George S. Patton (General, Exército dos EUA)

Faleceu de morte natural, aos 88 anos de idade, o General Piloto Aviador José Baptista Pereira, nascido em Lisboa, em 1936. Era baptizado e foi, tanto quanto se sabe, um bom cristão e católico. Era viúvo e deixou uma filha e dois netos.

Baptista Pereira
Baptista Pereira

As minhas primeiras palavras vão para a família e amigos mais chegados, a quem apresento sentidas condolências.
Para além da sua família natural, Baptista Pereira pertencia à grande Família Militar, por ter sido instruído no Colégio Militar, onde fez toda a vida liceal e, depois, por ter ingressado na Força Aérea, via Escola do Exército, para onde entrou, em 29 de Outubro de 1954. Pode assim dizer-se que foi soldado desde os 10 anos.
É preciso preservar e valorizar esta família, a que também pertenço, independentemente das queixas que possamos ter uns dos outros. Ela transcende-nos e está para além de nós.
Baptista Pereira era um devoto da sua família natural, um “menino da luz” de sempre e para sempre e um dedicado servidor da sua (nossa) Força Aérea (FA).
Ao estarmos aqui presentes frente aos seus restos mortais, homenageando-o pelo que foi em vida; encomendando-o a Nossa Senhora do Ar e acompanhando-o à sua última morada terrena, também estamos a preservar e a dar continuidade a essa grande família.
O General Baptista Pereira foi ainda um bom português e defensor da sua Pátria.
Alferes Piloto Aviador, desde 1 de Novembro de 1958, subiu com facilidade todos os postos até General de três estrelas – gozando da característica talvez única em todas as Forças Armadas Portuguesas, e desde sempre, de ter superado os anos de serviço que esteve como oficial general, relativamente ao tempo de permanência em todos os restantes postos como oficial do quadro permanente.
Baptista Pereira ocupou quase todas as altas funções dentro da FA, tais como Comandante da Academia da FA; Director do Instituto de Altos Estudos da FA; Inspector-geral da FA; Comandante Operacional dos Açores; Presidente do Conselho Superior de Disciplina; Presidente da Comissão Histórico Cultural da FA e Director da Revista Mais Alto, algumas das quais em acumulação.
Comandou três esquadras, e a Base Aérea das Lajes e fez uma Comissão de Serviço em Moçambique entre 1961 e 1966, tendo operado a partir da Beira, em Nampula, onde foi Comandante de Grupo e 2.º Comandante, e em Lourenço Marques, terras ultramarinas de saudosa memória.
Voou 17 tipos de aeronaves diferentes (maioria de transporte), possui 17 louvores e 10 condecorações e, tendo passado à reserva em 18 de Outubro de 1998, logo nesse dia, meteu o requerimento para permanecer na reserva activa. Cumpriu 47 anos de serviço.
De facto foi sempre “activo” até morrer, tendo já na situação de reforma, desempenhado acção cívica na Liga dos Combatentes, na Sociedade Histórica pela Independência de Portugal, na Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar e na Comissão Científica da Comissão Portuguesa de História Militar e tirado uma licenciatura em História.
Tive o grato prazer de com ele servir na Academia da Força Aérea, altura em que se implementaram várias inovações, e onde testemunhei um episódio revelador do seu carácter e têmpera: organizando-se pela primeira vez um curso de páraquedismo como actividade extracurricular para os cadetes – de que ele foi um grande impulsionador – veio também a frequentar o mesmo, tendo-se sujeitado a todo o treino requerido. Foi assim e até hoje, o único oficial que, sendo general, tirou um curso para se atirar borda fora de um avião em bom estado!
E, mais tarde, quando exercia funções que já não requeriam qualquer actividade aérea, mostrou interesse em cumprir mínimos de voo semestrais, para o que se veio a qualificar na aeronave FTB C-337, mas não se ficou pela qualificação no avião, cumpriu todo o treino operacional.
Será que o descrito representa um pormenor? Não creio. Era sim revelador do seu espírito aeronáutico que se quis manter activo e “operacional” até ao fim da sua carreira, ao mesmo tempo que dava o exemplo.
O General Baptista Pereira era um homem de Bem, simples, bem – disposto, com trato urbano e lhano e em nada afectado. Cumpria a sua missão sem alarde e não se punha em bicos de pés. Era um homem de consensos e não dava murros na mesa, embora tal possa ser necessário fazer, quando a situação o exige.
Era íntegro e nunca deixou ficar mal a Força Aérea nem o seu país. Amigo do seu amigo não se lhe conhecem vilanias nem vícios, que sendo pouco próprios, são próprios da natureza humana.
Hoje desaparece mais um pouco da Força Aérea que eu conheci.
Meu General, Comandante, camarada e amigo, parta descansado para a sua derradeira viagem. Ficará para sempre na memória de quem o conheceu.
Até sempre.

* Oficial Piloto Aviador (Ref.)