Nuno Melo *
Sua Excelência Senhor Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa,
[outras saudações iniciais]
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Há momentos na história em que uma geração tem a oportunidade e o privilégio de fazer a grandeza de Portugal. Foi assim no Primeiro de Dezembro de 1640 e na Guerra da Restauração.
Hoje, 385 anos depois, celebramos tudo isso, assente simbolicamente no gesto primordial de 40 Conjurados que deram um passo em frente, arriscando a vida e encarnando em si o destino coletivo de um povo insubmisso. Nesse dia memorável, os conspiradores invadiram o palácio no Terreiro do Paço, gritando “Liberdade, Liberdade, Viva El-Rei D. João IV”.
O monarca organizou a defesa do país, construiu fortes, mobilizou as tropas e fez alianças para resistir ao inimigo. Portugal restaurava finalmente a sua independência política, 60 anos depois.
Neste tempo, a cada Primeiro de Dezembro, evoca-se essa libertação. O momento é vivido entre nós. No Colégio Militar, os Alunos gritam “Liberdade, Liberdade”. As Bandas Filarmónicas interpretam hinos patrióticos. Entre outros exemplos que mantêm viva a memória coletiva. Esse esforço compete-nos a todos.
Agradeço por isso, em nome do Governo, a todas as entidades envolvidas nas comemorações. Sublinho o empenho particular da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, na pessoa do seu Presidente, Doutor José Ribeiro e Castro. Agradeço, de forma especial, às Forças Armadas portuguesas. E nelas e através delas, dirijo uma palavra de profunda gratidão a Sua Excelência o Senhor Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas que ao longo dos seus mandatos tem feito ecoar a essência e o sentido da Instituição Militar.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
No Primeiro de Dezembro cruzaram-se o idealismo, o patriotismo, a coragem e o espírito livre. Nesse lance decisivo dobrou-se o arco da história. E a nação reencontrou-se com o seu destino de uma viagem com 9 séculos. Por essa boa razão, este ano assinalam-se os 900 anos do momento em que Afonso Henriques se armou cavaleiro em Zamora, num gesto inaugural. Assinalam-se também os 700 anos da morte de El-Rei D. Dinis, rei lavrador e fundador da Marinha que em 1297 assinou o tratado de Alcanizes, definindo as nossas fronteiras, contribuindo decisivamente para a identidade e independência nacional. Estas associações reforçam esta evidência: Somos herdeiros daqueles cuja alma não era pequena.


Somos herdeiros das gerações que, em cada época, mesmo se à custa de enormes sacrifícios, estiveram à altura do dever para afirmação de um bem maior. Tantas vezes procuramos “a grande geração” e esquecemo-nos que ela está diante de nós. Em relação ao tempo contemporâneo não tenho dúvidas: A grandeza está nos Antigos Combatentes – na geração dos nossos pais e avós – que lutaram em África e na Índia nas décadas de 60 e 70. Os Antigos Combatentes são Heróis de Portugal. Alguns estão aqui presentes. Estão “ali” heróis e é importante que todos saibam isto.
A grandeza está nos corajosos militares a quem devemos a democracia nascida em 25 de Abril de 1974, e nos militares corajosos que há 50 anos, em 25 de Novembro de 1975, confirmaram essa mesma democracia. A grandeza está também nos militares que levaram esperança a tantos continentes em missões pela paz.
E a grandeza, no presente, onde está? No presente penso nos gestos daqueles que estão sempre ao serviço da Pátria e do povo português. No oficial da Marinha que está no Oceano Índico a combater a pirataria. Na praça do Exército que está na Roménia, lado a lado com os nossos aliados. No sargento da Força Aérea colocado nos Açores que vai onde o mar português acaba para resgatar vidas.
As Forças Armadas são legatárias do espírito do Primeiro de Dezembro, porque são a manifestação viva de todas as conquistas, a essência da Nação portuguesa, a primeira expressão de soberania e a última fronteira da nossa independência.
É a pensar neles, na sua importância e nas suas missões ao serviço da Pátria portuguesa, dentro e fora de fronteiras, missões militares e missões civis, que ontem lançámos o maior programa de investimento, de uma só vez, para os três ramos das Forças Armadas. 5,8 mil milhões de euros, mobilizados para a aquisição de navios, veículos blindados, satélites, defesas antiaéreas, reservas de munições e drones, em linha com o nosso sistema de forças e o que os nossos aliados esperam de nós. Um investimento que também alavancará a economia nacional e chamará as indústrias nacionais que serão envolvidas na produção e na manutenção destes equipamentos ao longo de todo o seu ciclo de vida.
A grandeza do presente está também em todos os portugueses que se superam ao serviço dos outros. Os profissionais de saúde que salvam vidas nos nossos hospitais, os professores que ensinam nas escolas, os agricultores que mantêm a terra produtiva, os guardas e polícias que arriscam a vida pela nossa segurança, os empresários que dão cartas, os desportistas que surpreendem com tantas conquistas, os jovens que acreditam no seu país e nos renovam no ciclo de cada geração, todos eles poucas vezes notícia, porque noticiar teima ser a excepção e raras vezes a regra e a regra é boa. Os portugueses são em regra um povo extraordinário.
Minhas senhoras e meus senhores,
A terminar, quero dirigir uma mensagem especial aos nossos jovens.
A Restauração foi no significado a expressão do grito de uma Nação antiga, que repudia a submissão. Só aceitamos o nosso destino em independência e em liberdade. Uma ideia muito velha, mas sempre atual – disso, minhas amigas e meus amigos – não tenham dúvidas.
As autocracias desafiam as democracias. Há povos que lutam para escolher livremente o seu destino. E outra parte relevante do planeta não se revê nos mesmos valores universais e no modo de vida em que cada um de nós – de vós – cresceu. É por isto que neste ciclo investimos em nós próprios, a pensar na defesa e a pensar nas oportunidades de fazer o país avançar para ficarmos à frente do nosso tempo. O que fazemos é a pensar na paz e não na guerra. É a pensar no futuro e não na destruição.
Cabe-nos a todos a responsabilidade de legar um futuro melhor. Para os nossos filhos e para os filhos dos nossos filhos.
A promessa do Primeiro de Dezembro foi também essa: a possibilidade de um futuro melhor. E é em cada um de vós que essa promessa continua viva.
Com coragem, com audácia e com esperança, saibam seguir por diante, fazendo as escolhas certas do presente e abrindo caminho ao futuro.
Viva o 1.º de Dezembro! Viva sempre Portugal!
* – Ministro da Defesa Nacional.
Discurso proferido nas Comemorações do 1.º de Dezembro de 2025, nos Restauradores.
