“Hoje é dia de comemorar a História: 385 anos da Restauração da Independência, nos quase 900 anos de Portugal” – lembrou Carlos Moedas

Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, enquanto discursava Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, enquanto discursava
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Carlos Moedas *

Senhor Presidente da República,
[outras saudações iniciais]
Senhoras e Senhores,
Lisboetas,

Hoje é um dia de comemorar a História. De comemorar 385 anos da Restauração da Independência. 385 anos que se integram nos quase 900 anos de Portugal. É uma longa história.

E quando falamos de história – quando a tentamos interpretar – surgem-nos dúvidas. Surgem-nos perguntas e inquietações. Aparece o debate. E houve, principalmente em Portugal, um longo debate sobre a forma de interpretar a história: entre aqueles que diziam que eram as grandes individualidades quem fazia mover a história; e outros que defendiam o contrário: que eram as forças e as estruturas sociais que explicavam a história.

Mas seriam estas duas visões tão inconciliáveis?

Porque não juntá-las? Porque não compatibilizar aquilo que parece incompatível? Foi isso que fez Jaime Cortesão, um dos grandes historiadores do século XX. E ao fazê-lo disse isto:

Que os grandes homens são tanto mais representativos quanto melhor incarnam e orientam as necessidades e aspirações coletivas.

Ou seja: é precisamente quando as elites políticas melhor representam essas aspirações coletivas que a história avança. Mas muitas vezes vemos o contrário: quando se dá um afastamento entre as elites políticas e o povo; quando se vê uma dissonância entre o que os políticos pensam e aquilo que as pessoas pensam. Quando há esta incompreensão mútua.

É, de certa forma, também isto que vemos nos nossos dias. E o 1.º de Dezembro aconteceu precisamente porque em 1580 o país tinha caído numa situação semelhante. Portugal tinha caído nesta divisão.

As elites tomaram, na sua generalidade, o lado de Filipe de Espanha: uns por conveniência material; outros por interesse político ou partidário; outros por ilusões ideológicas.

E poucos foram os que resistiram: sobrou D. António, Prior do Crato – alguém que devemos lembrar hoje e em cada 1.º de Dezembro. Mas, abandonado pelas elites, viu-se obrigado a fugir para o exílio – para um exílio de perseguição e miséria.

O que se passara então fora isto: As elites políticas tinham levado o país ao domínio dos Filipes.

Senhoras e Senhores,

O 1.º de Dezembro foi o ultrapassar desta situação. Foi o momento em que as nossas elites voltaram a dar voz às necessidades das pessoas. Em que voltaram a escutar as aspirações das pessoas.

Foi exatamente essa a ação dos conjurados. E foi também esse o objetivo dos anos seguintes: dos anos de governação de D. João IV e do seu filho D. Afonso VI. Vencer a Guerra da Restauração – porque o 1.º de Dezembro não foi só aquele dia. Foi tudo o que se lhe seguiu: foram os vários anos de combate para assegurar a independência de Portugal. Foi o sacrifício de tantos que se bateram para que o 1.º de Dezembro não fosse apenas uma proclamação.
São eles os homenageados de hoje. São eles o centro e a razão desta nossa Praça dos Restauradores. Naquele obelisco onde hoje deixamos as nossas flores está a sua memória. A eles daremos sempre o nosso agradecimento.

Comemorações do 1.º de Dezembro de 2025
Comemorações do 1.º de Dezembro de 2025

Senhoras e Senhores,

Nesse tempo as elites políticas souberam representar as aspirações coletivas. E souberam-no fazer porque se guiaram por três valores tão importantes. Porque souberam mostrar três grandes qualidades.

A primeira é a coragem.

A coragem que é a virtude de não ter medo perante os perigos. Na política também é não ter medo. Não ter medo de ir contra o que parece conveniente. Não ter medo de às vezes estar contra os interesses partidários. Não ter medo, também, de falar de forma diferente daquela que é muitas vezes a opinião “oficial” ou “autorizada”, a opinião da bolha político-mediática.

Na vida política é preciso esta coragem. Lembro-me perfeitamente de quando, há 3 anos, disse que precisávamos de regular a imigração em Portugal. Que o estávamos a ver – principalmente aqui em Lisboa – era grave e muitas vezes absolutamente desumano.

Nesse momento fui acusado de tudo. Muitos foram os que disseram que eu confundia deliberadamente segurança com imigração; e alguns até chegaram a acusar-me de extremismo; mas eu apenas disse algo com o qual a esmagadora maioria das pessoas concorda. E concorda porque é correto. Concorda porque faz sentido. E é exatamente isso que se está a fazer hoje, ao regular-se a imigração como durante anos não se fez.

É esta a dissonância entre a bolha político-mediática e as pessoas que leva a situações tão graves. Porque é ela realmente o que alimenta os extremismos. O que deixa as pessoas sem ter outras soluções que não os extremismos.

Em segundo lugar, a proximidade.

Em momentos decisivos como o 1.º de Dezembro as elites políticas conseguem compreender as pessoas. Conseguem dar voz às pessoas. Isso implica aproximarmo-nos delas. Implica muitas vezes conhecer as pessoas. Implica saber o que elas pensam e o que elas sentem. Implica – sim – falar com as pessoas.

Sei bem que não é fácil: são várias as vezes em que ouvimos opiniões diferentes das nossas, em que ouvimos algo que não concordamos ou não gostamos. Mas também só aproximando-nos das pessoas é que as podemos tentar convencer do contrário. O que não podemos fazer é – só porque as pessoas votam ou pensam de uma determinada maneira – ostracizá-las. O que não podemos fazer é insultá-las. Menorizá-las. Temos de falar com elas e para elas. Isto é essencial na política hoje.

E foi isso que eu vi tão bem personalizado numa figura particular da nossa vida coletiva: no Senhor Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Alguém que fez desta proximidade uma missão. Alguém que conseguiu tornar-se o Presidente das pessoas. E que foi alguém com quem aprendi muito ao longo destes últimos anos – e só lhe posso agradecer tudo isso. Quero aqui agradecer-lhe, em nome de Lisboa e dos lisboetas, neste seu último 1.º de Dezembro como Chefe de Estado.

Muito obrigado por tudo.

Senhoras e Senhores,

Por último, o bom-senso.

Sim, o bom-senso – e parece tão básico fazer disto uma qualidade, mas a verdade é que na política falta frequentemente o bom-senso…

Falta muitas vezes saber compreender o essencial. Naquele Portugal dos inícios do século XVII também tinha faltado: foi o tempo em que o Conde-Duque de Olivares, com punho de ferro, tentou submeter Portugal a um centralismo que nós nunca tínhamos vivido.

Mas os conjurados nesse momento perceberam o que era essencial para o país. Perceberam que o essencial era a independência. Por isso, o 1.º de Dezembro foi a restauração do bom-senso. E é também desse bom-senso que precisamos hoje. Dessa capacidade de distinguir o essencial do acessório.

Quando vejo que perdemos anos de ação na habitação apenas por discussões ideológicas sobre se deveria ser o setor público ou privado a resolver o problema – isso é sem dúvida falta de bom-senso.

Quando se quer dizer às pessoas que a questão da segurança é uma “mera perceção” – isso é falta de bom-senso.

Quando se tenta obstruir a governação apenas por capricho ideológico ou partidário, sem sequer querer dialogar ou conhecer as posições de cada parte – isso é falta de bom-senso.

Isso é confundir o acessório com o essencial. E o país não precisa de quem faça do acessório o centro do debate público.

Felizmente, os portugueses sabem distinguir o essencial. Felizmente, os portugueses têm mostrado – século após século – ser um último-reduto do bom-senso. Mesmo quando as elites políticas são exatamente o contrário.

Os portugueses foram esse reduto do bom-senso aqui em Lisboa em tantos momentos históricos: em 1383, quando das nossas ruas partiu a revolta popular; em 1640, quando os conjurados decidiram pôr fim ao domínio dos Filipes; em 1974, quando os capitães fizeram o 25 de Abril; e em 1975, quando os militares moderados asseguraram a liberdade e a democracia. Todos eles foram uma vitória desse bom-senso.

Senhoras e Senhores,

Em cada um desses momentos o país corria um risco: o risco da separação entre as elites políticas e as pessoas. o risco da divisão do país em dois mundos – em duas nações, como dizia um antigo Primeiro-Ministro britânico:

Duas nações, entre as quais não há interação ou simpatia, que são tão ignorantes dos hábitos, pensamentos e sentimentos de cada uma como se vivessem em diferentes planetas. 1

Mas em cada um destes momentos soubemos mudar. Soubemos interpretar as aspirações das pessoas. Soubemos dar-lhes voz. Não nos quisemos dividir em dois planetas diferentes, incomunicáveis e intransponíveis.

Naquele dia, há 385 anos atrás, fizemos exatamente isso. Com coragem, com proximidade, com bom-senso. Saibamos hoje estar à altura dessa história.

Senhoras e Senhores,

Viva o 1.º de Dezembro!

Viva a Restauração! Viva Portugal!

Notas:
1 – Benjamin Disraeli, Sybil, or The Two Nations.

* Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Discurso proferido nas Comemorações do 1.º de Dezembro de 2025, nos Restauradores.