Andreia Fontenete Louro *
1. O lobo e a cultura médico-farmacêutica no Antigo Regime português
Durante milénios, o lobo ocupou todo o hemisfério norte do planeta[1], coexistindo e formando com o ser humano relações das mais variadas tipologias. Por conseguinte, podemos dizer que a relação Homem-Lobo é tão antiga quanto a própria Humanidade. Nos espaços que hoje correspondem ao território português, a presença do lobo está atestada, pelo menos, desde o Paleolítico Superior (50.000-10.000 a.C.), algo comprovado por alguns restos arqueozoológicos como, por exemplo, aqueles que já foram recuperados e estudados na Casa da Moura, em Óbidos, na Gruta do Caldeirão, em Tomar, ou ainda na Gruta da Furninha, em Peniche[2]. Desde então, o lobo sempre foi usufruindo de condições de sobrevivência muito favoráveis em todo o espaço ibérico, relacionadas com a baixa densidade humana, a abundância de alimento e a existência de uma orografia e coberto vegetal que ofereciam um bom refúgio. No decorrer de Oitocentos, várias fontes escritas demonstram que o lobo ainda ocupava todo o país, e só no início do século XX é que se começaram a notar os primeiros sinais de mudança na sua distribuição[3]. Assim, nos séculos XVII e XVIII, a probabilidade de encontros entre humanos e lobos era bastante elevada.
Nos séculos XVII e XVIII, a farmácia conventual era essencial na sociedade portuguesa, uma vez que as boticas conventuais não se limitavam a atender os religiosos. Além de contribuírem para a formação de boticários, eram concorrentes diretas das boticas leigas e fontes de financiamento fulcrais para as ordens religiosas, fornecendo medicamentos para a generalidade da população e igualmente para os hospitais[4]. Várias receitas de remédios e mezinhas podiam ser encontradas nos livros de botica, pois era muito comum que estes, além de apontamentos dietéticos, incluíssem indicações de fórmulas agrícolas, cosméticas, espirituais, mas também farmacêuticas e medicinais, entre outras, uma vez que a cozinha tendia a ser um dos espaços centrais de uma casa e, portanto, tudo era preparado ali[5].
Nesta mesma altura, o aperfeiçoamento e a criação de novos conceitos nos campos da Medicina e da Farmácia, paralelamente à descoberta de novas plantas e drogas medicinais provindas de todas as partes do mundo, bem como o desenvolvimento do conhecimento das propriedades dessas novas espécies, alavancou a produção e a publicação de obras literárias de cunho farmacêutico e medicinal – as farmacopeias e os tratados de medicina –, que procuravam sistematizar diversos usos possíveis de certas substâncias e diversos preparados com finalidade curativa, organizar o conhecimento sobre estes temas e preparar os boticários para o exercício da sua profissão[6].
Ao longo do século XVIII, esta literatura farmacêutica, alinhada com a tendência existente no resto da Europa da proliferação desta tipologia de publicações, teve um desenvolvimento muito significativo. Efetivamente, entre 1704 e 1785 várias farmacopeias não-oficiais foram publicadas, desempenhando um papel crucial na normalização do conhecimento farmacêutico e da prática médica em Portugal e na difusão de fórmulas atualizadas, e refletindo a evolução da prática farmacêutica, bem como a necessidade da sistematização dos métodos de produção e conservação dos medicamentos.[7] A primeira farmacopeia oficial do reino, a Pharmacopeia Geral, só foi publicada em 1794, sendo a sua autoria atribuída a Francisco Tavares.[8] Estas são, portanto, as três categorias de fontes que iremos analisar: livros de botica, farmacopeias e tratados de medicina.
Desde a Antiguidade Clássica que a Medicina e a Farmácia prescreviam alimentos e remédios de origens predominantemente naturais, produzidos com elementos animais, minerais e vegetais, por norma ao alcance de todos. O espectro de substâncias usadas nos medicamentos, nesta época, era extremamente amplo, parecendo não ter limites no que à inventividade dos autores dizia respeito. De entre os ingredientes de origem animal, mineral ou vegetal, este artigo centrar-se-á naqueles que provinham do lobo, o protagonista da tese de Doutoramento que estamos a desenvolver na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na qual analiso a relação entre o imaginário cultural do lobo e a conservação da espécie. A nossa premissa é de que a generalizada má reputação do lobo, que ainda se verifica nos dias de hoje, provém de um conjunto de camadas de ligações culturais estereotipadas, e não propriamente de motivos ambientais e ecológicos fundamentados.
O “lobo cultural” –, ou seja, o lobo que habita no imaginário cultural da população –, difere muito do “lobo real” –, isto é, o animal verdadeiro – e graças a várias investigações feitas nas últimas décadas sobre este mamífero, é possível basear essa diferenciação nas suas características biológicas e comportamentais, algo que tem sido conseguido sobretudo pela área da Biologia, na qual os estudos sobre o lobo estão bastante avançados. Contudo, a força da imagética do “lobo cultural” ainda supera a do “lobo real”, algo que acontece porque, enquanto agente cultural, o lobo modifica-se – ou, melhor dizendo, é modificado pelo ser humano – em função dos contextos específicos de cada época, contextos esses nos quais as suas características inerentes vão muito além daqueles que são verdadeiramente os seus instintos naturais, sendo por isso, sem dúvida, um animal no qual a cultura supera a biologia.
Relativamente à dicotomia concetual lobo real/lobo cultural, do nosso ponto de vista, tudo o que se relaciona com a utilização de elementos do corpo do lobo em contexto de Farmácia ou Medicina encaixa-se na ideia de “lobo cultural”, uma vez que os poderes curativos destes elementos provinham mais de perceções culturais construídas pelo ser humano, do que de propriedades terapêuticas realmente comprovadas.
O nosso artigo dividir-se-á em três partes. Em primeiro lugar, apresentaremos as referências à utilização de partes do corpo do lobo pelos seres humanos com finalidades terapêuticas, atribuindo-lhes uma referência numérica o e localizando-as na respetiva fonte documental. Até agora, encontrámos 48 recomendações de remédios com este propósito, provenientes de dez documentos, que iremos identificar seguindo uma ordem mais ou menos cronológica. De seguida, abordaremos agora a questão da transformação desses elementos, no sentido da sua posterior utilização. E, por fim, tentaremos refletir um pouco acerca da(s) lógica(s) por detrás do uso de determinadas partes do corpo do lobo para o tratamento de determinados problemas da saúde humana.
2. 1. Identificação das partes do corpo do lobo
No caderno II do manuscrito 142 do Arquivo Distrital de Braga, intitulado Remedios Varios, e Receitas. Aprouadas[9], de autor desconhecido[10], algures do século XVII[11], deparamo-nos com a utilização de 1) gordura de lobo como um dos ingredientes para preparar um unguento destinado ao tratamento de hemorroidas[12] e de 2) pele de lobo combinada com um emplastro para curar fraturas ósseas[13].
Na primeira edição do Compendio de Muitos e Varios Remedios…[14], datada de 1611, e da autoria de Gonçalo Rodrigues de Cabreira (??-??), um cirurgião do qual pouco que sabe, surgem 3) olhos de lobo para curar as cataratas[15] e 4) pele e 5) coração de lobo para tratar a “gota coral” (ou seja, a epilepsia)[16].


Em 1664, Francisco Morato Roma (1588-1670)[17] escreveu a obra Luz da Medicina…[18], na qual prescreve: 6) fígado de lobo para a fraqueza do fígado, conhecida como “fluxo hepático”[19]; a utilização de um 7) amuleto com olhos de lobo para curar as cataratas[20]; e o consumo e utilização, respetivamente, de 8) coração e 9) pele de lobo como remédios para a epilepsia[21].
Com exceção da receita 6), as restantes referências retiradas desta obra são em tudo iguais às recolhidas do Compendio de Muitos e Varios remedios…: a 7) corresponde à 3); a 8) à 5): e a 9) à 4). O título do livro de Cabreira indica que este compêndio foi compilado a partir das obras de outros autores, aludindo especificamente ao Thesouro de Pobres, uma obra escrita pelo médico português Pedro Hispano (1215-1277), que em 1276 se tornou no papa João XXI. Este foi um dos mais difundidos receituários médicos medievais, contendo mais de mil indicações sobre como curar doenças físicas e mentais[22].


Na obra Polyanthea medicinal[23], originalmente datada de 1697, o médico João Curvo Semedo (1635-1719)[24] enumera como 10) um dos remédios para a “gotta coral”, um preparado contendo fígado de lobo[25]; recomenda 11) beber pela garganta ou traqueia de um lobo para prevenir ou curar “garrotilhos”[26]; sublinha, em quatro momentos distintos, o efeito das fezes ou do intestino reto de lobo contra as cólicas[27]; ensina a receita de umas 16) pílulas para tratar a hidropisia anasarca que, entre outros ingredientes, continham fígado de lobo[28]; aconselha o consumo de 17) carne do coração do lobo para prevenir e curar os “accidentes uterinos actuaes”[29]; e o 26) uso de pele de lobo para prevenir os móvitos[30], isto é, abortos espontâneos ou partos prematuros. Existem ainda duas alusões a pó de coração de lobo como sendo um bom remédio para os fátuos. Contudo, não atribuímos nenhuma referência numérica a estas passagens uma vez que a primeira surge no contexto de uma pergunta retórica[31] e a segunda está integrada no índice remissivo da obra[32], apesar de não deixarmos de verificar uma associação entre uma parte do corpo do lobo e um problema de saúde humano, que neste caso seria mental.
A Polyanthea Medicinal… foi precursora na introdução de um estilo moderno de escrita científica, no sentido em que vai indicando as fontes utilizadas e referencia a bibliografia consultada no final de cada capítulo, duas características que ainda não eram muito comuns em obras semelhantes coevas. Além disso, tornou-se num dos tratados terapêuticos mais populares entre médicos e boticários, tanto em Portugal continental como nos territórios ultramarinos até meados do século XVIII.[33]


João Curvo Semedo é também autor das Observaçoens Medicas Doutrinaes de Cem Casos Gravíssimos[34], obra datada de 1707, tendo ele mesmo recorrido a 28) pó de intestino[35] e a 29) fezes de lobo[36] para tratar as dores de cólica nalguns dos seus doentes. Esta obra era uma compilação de vários casos de pacientes que o próprio médico atendera, abordando em cada “observação” prognósticos das patologias, remédios utilizados no tratamento e, por vezes, chega a identificar esses mesmos pacientes. O principal objetivo de Curvo Semedo com este livro era orientar médicos e leitores sobre como agir caso se deparassem com situações semelhantes às descritas.[37]
Uma terceira obra deste autor onde também existem referências à utilização de partes do corpo do lobo como ingredientes para fórmulas terapêuticas é a Atalaya da Vida Contra as Hostilidades da Morte[38], publicada postumamente em 1720 e editada seguindo a ordem alfabética e um estilo enciclopédico[39]. Nesta obra, que contém muitos dos remédios que já haviam sido publicados na Polyanthea Medicinal… e nas Observaçoens medicas…[40], João Curvo Semedo assinalava: que beber água através de uma 30) garganta de lobo ajuda a combater a asma e as faltas de respiração[41]; que uma colher matinal de 31) fígado de lobo “he remedio excelente” para a diarreia[42]; que o 32) fígado de lobo infusado com vinagre, seco, é um remédio recomendado por vários autores para curar a disenteria[43]; que 33) o coração e, sobretudo, 34) o fígado de lobo “he maravilhoso remedio para curar a gotta coral”[44]; que as 35) fezes de lobo curam as cólicas[45]; que o 36) fígado de lobo em pó misturado com vinho ou água “he remedio muyto experimentado para a fraqueza, & intemperanças do figado, & he muyto proveytozo para os hydropicos, para os que se vam emagrecendo muyto, & para as tosses”[46]; que 37) pó de fígado de lobo “he dos melhores remedios, que tem a Medicina para curar”[47] a gota coral; que usar uma 38) tira da pele do dorso do lobo desde a nuca até ao traseiro cura os vagados, ou seja, as vertigens[48]; que o 39) fígado de lobo cura os “accidentes uterinos”[49]; e, por fim, que colocar 40) uma cria de lobo com idade de quinze a vinte dias sobre o estômago ajuda a curar as fraquezas deste órgão[50].
Naquela que é considerada uma das primeiras farmacopeias portuguesas, por ter sido a primeira obra desta tipologia escrita por um boticário em língua portuguesa, a Pharmacopea lusitana…[51], publicada originalmente em 1704, D. Caetano de Santo António (??-1730)[52], o seu autor e importantíssimo boticário conventual, menciona 41) fígado de lobo como um dos ingredientes para produzir pílulas “pro colico morbo”[53].


A literatura farmacêutica portuguesa começou a refletir alguma aceitação de medicamentos químicos a partir da segunda edição desta obra, em 1711, e da publicação de dois outros receituários – a Pharmacopeia Ulyssiponense…, de Jean Vigier, e a Pharmacopea Tubalense…, de Manuel Rodrigues Coelho – que, curiosamente, também contêm alusões à utilização de partes do corpo do lobo para a produção de medicamentos.
A Pharmacopeia Ulyssiponense…[54], publicada em 1716 por Jean Vigier (1662-1723)[55] é uma obra na qual podem ser encontrados, de modo organizado e sistemático, fórmulas de preparação de remédios de origem química. Nela, há alusões ao 42) intestino e ao 43) fígado de lobo como remédios para cólicas flatulentas[56] e possivelmente às secundinas da loba[57] para impedir as dores pós-parto.
Já Manuel Rodrigues Coelho (1687-ca. 1746-1751)[58], na sua Pharmacopea Tubalense…[59], publicada em 1735, ensina a preparar 44) fígado e 45) intestinos de lobo para tratar cólicas flatulentas[60]. Esta obra reunia conhecimento sobre medicamentos simples e compostos, descrevia operações farmacêuticas e regras para a conservação destes preparados e harmonizava saberes antigos e modernos, criando assim um modelo de prática farmacêutica que, equilibrando tradição e inovação, saberes antigos e modernos, refletia o hibridismo cultural da época[61].
Para terminar, resta-nos aludir às referências localizadas no manuscrito n.º 394 da Biblioteca Pública Municipal do Porto, intitulado Remedios Varios e Alguns Experimentados Tirados de hum Livro de Manu Escrito que Tinha o Padre Francisco Mathias em Pombeiro no Anno de 1724[62]. O autor, desconhecido, refere: que os 46) intestinos da loba devem ser usadas pelos homens, amarradas à cintura, para tratar hemorroidas e, havendo crise destas, deve cozer-se e beber-se uma pequena parte destas vísceras; 47) que o focinho do lobo serve para tratar a asma tanto de homens como de mulheres, sendo que no caso dos primeiros, deve usar-se pendurado ao pescoço;[63] e ainda um preparado contendo 48) carne de lobo tostada para acelerar o parto[64].
2. 2. A transformação das partes do corpo do lobo
Passemos agora à segunda parte do texto, relacionada com a questão da transformação das diferentes partes do corpo do lobo no sentido da sua utilização como ingredientes de medicamentos. Os documentos analisados responderam-nos apenas parcialmente acerca dos processos de transformação a que as partes do corpo do lobo eram sujeitas antes de serem utilizadas.
Algumas das referências identificadas mencionam, de facto, de que forma é que algumas partes do corpo do lobo deveriam ser usadas para fins terapêuticos. Boa parte delas é vaga, e não aprofunda esta questão, um fator que, ainda assim, não lhes retira qualquer importância. Considerando a natureza das próprias fontes, decidimos agrupar as partes do corpo do lobo em dois conjuntos. O primeiro é composto pelo focinho (47), garganta/traqueia (11 e 30), gordura (1), olhos (3 e 7) e pele (2, 4, 9, 15, 20, 22, 26, 27 e 38), pelo facto de não haver qualquer indicação no sentido da sua transformação. O segundo congrega a carne (17, 25 e 48), o coração (5, 8 e 33), as fezes (12, 13, 18, 23 e 35), o fígado (6, 10, 14, 16, 21, 31, 32, 34, 36, 37, 39, 41, 43 e 44) e os intestinos (13, 24, 28, 29, 42, 45 e 46), já que, apesar de nalgumas destas referências não se verificarem quaisquer dados relativos à transformação, no que diz respeito a estas partes do corpo do lobo, as receitas vão um pouco mais longe em termos de detalhe e descrição do que as do primeiro conjunto. Uma outra diferença importante entre este conjunto e o primeiro é o facto de, como veremos, este indicar, muitas vezes, quantidades concretas do ingrediente a ser empregado na receita médica ou diretamente consumido.
Antes de esmiuçarmos este tema, comecemos somente por fazer uma breve distinção entre as 47 referências nas quais, ao usar-se uma parte do corpo do lobo, pressupõe-se que o mesmo estaria morto, e a única exceção em que nos deparamos com o animal vivo: a referência 40) menciona que colocar uma cria de lobo com idade de 15 a 20 dias sobre o estômago curaria as fraquezas deste órgão[65].
Os casos em que não há alusões a transformação deixa-nos com mais perguntas do que respostas. Em relação ao focinho: será que o amuleto da referência 47) – em que os homens, pelo menos, deveriam utilizá-lo pendurado ao pescoço para tratar a asma – consistiria literalmente nas mandíbulas do animal, como sugere a definição coeva desta palavra registada por Rafael Bluteau[66], ou será que bastariam alguns pelos dessa mesma região? E será que era colocado dentro de alguma bolsa ou embrulho, ou utilizado sem qualquer tipo de proteção deste género?
E no que diz respeito à garganta ou traqueia do animal? Recolhemos duas referências que mencionam que beber por esta parte do corpo do lobo era um tratamento possível para garrotilhos (11) e para asma e faltas de respiração (30). Será que se recorria à garganta ou traqueia do lobo cruas? Ou será que era usada mumificada, como ainda se faz nalgumas regiões do norte de Portugal[67]?
A gordura e os olhos do lobo são outras partes do seu corpo sobre as quais não temos nenhuma informação no que respeita à sua transformação. A gordura era usada como ingrediente para a produção de um unguento (1), e as duas referências acerca dos olhos reportam apenas à sua utilizada ao pescoço (3) e 7). Mas será que eram usados crus? Ou numa versão como que seca ou mumificada de alguma maneira? E, tal como indagámos acerca do focinho, será que os olhos eram colocados nalguma bolsa ou embrulho, ou usados diretamente sobre o corpo?
Por fim, as referências concernentes ao uso de pele de lobo para efeitos curativos são um pouco mais específicas, mas nenhuma delas menciona se esta era empregada crua ou seca, tendo sido submetida ao processo de curtimento ou semelhante. O tamanho da dita pele parece-nos ser bastante variável: a referência 2) indica que a pele teria de ser do tamanho da fratura óssea a ser curada; a 4) e a 9), escritas de forma igual, citam uma “correa […] apertada ao longo de si”[68], quem sabe se de um modo semelhante à receita 38); na referência 15) encontramos a recomendação de um cinto de pele do dorso do lobo a ser “trazido junto da carne”[69]; as referências 20) e 22) e 26) e 27) indicam somente que a pele deste animal era eficaz, respetivamente, para tratar a epilepsia e impedir os móvitos, provavelmente tocando no ventre, neste último caso, tal como a esmeralda mencionada na mesma referência; e a referência 38) dá conta do uso de uma tira de pele do dorso do lobo que se deveria “trazer ao longo da carne desde a nuca atè a rabadilha”[70] para curar as vertigens.
Abordemos agora o segundo conjunto de ingredientes originários do lobo, relativos à carne, ao coração, às fezes, ao fígado e aos intestinos que, como veremos, na maior parte dos casos, eram consumidos em pó. Na maioria dos medicamentos receitados nas farmacopeias deste período – e o conjunto documental analisado neste artigo não é exceção – eram-no sob a forma de pós[71].
Na referência 17), João Curvo Semedo recomenda carne de lobo seca no forno e pulverizada para curar e prevenir acidentes uterinos, declarando que “não falta Author grave que diz, que a carne ha de ser do coração”[72]. A referência 25) está contida no índice remissivo da Polyanthea medicinal… e alude ao pó de carne de lobo para o tratamento de acidentes uterinos. O professor Eugénio Francisco dos Santos, no seu artigo de 1984, no qual analisou o manuscrito intitulado Remedios Varios e Alguns Experimentados…, recuperou a referência que numerámos como sendo a 48) do nosso estudo, a qual especifica que a carne de lobo tostada numa panela bem tapada, e depois ser reduzida a pó e dissolvida em vinho ou água na quantidade de “hum didal”[73], ajudava a acelerar o parto.
Quanto ao coração do lobo, além de a carne deste órgão ajudar a curar e prevenir acidentes uterinos, como dissemos anteriormente, as referências 5) e 8) são exatamente iguais, ainda que provenientes de fontes distintas, e ambas se reportam a um remédio para a epilepsia que consistia em dividir o coração do lobo ao meio, devendo o doente comer uma metade e beber a outra com vinho, possivelmente sob a forma de pó, uma vez que os documentos usam a palavra “moido”. A referência 33) reforça esta crença no poder do coração do lobo para tratar a epilepsia, mas não há menção sobre de que forma deveria ser consumido.
Passemos agora às fezes, também elas usadas em pó. A referência 12) declara que um bom remédio para as cólicas é “huma oytava de pòs de esterco de ratos, desfeyto em duas onças de agua de flor de laranja, ou de vinho”, acrescentando depois que “mayor effeyto fazem duas oytavas de esterco de lobo”[74]. Considerando a forma como o texto está construído, assumimos que as fezes de lobo eram utilizadas pulverizadas e misturadas com água de flor de laranjeira ou vinho. Aplicamos esta mesma lógica à referência 18), que alega que “huma colher de cinza de cotovia, queimada com sua penna, & dada em caldo, cura as dores de cólica […] [tendo] igual virtude que o esterco de lobo”[75], e à 35), que assegura que “o [esterco] dos ratos feyto em pò, & dado em quantidade de huma oytava em tres onças de agua cosida com macella gallega, cura certissimamente as dores de colica. O esterco do lobo tem a mesma virtude”[76]. A referência 13) faz menção a uma oitava de fezes ou de intestino de lobo em pó para combater as cólicas, a 23) apenas ao facto de as fezes deste animal serem um bom remédio para este mesmo problema de saúde e a 29) à “maravilhosa virtude para curar as dores de cólica”[77] que têm as suas fezes.
As referências 13) e 29) também recomendam o uso de intestinos de lobo em pó para estas dores, já que eram considerados, na altura, um remédio eficaz para tal. João Curvo Semedo escreveu, na Polyanthea Medicinal…, que o “intestino recto feyto em pó he grande remedio para a cólica flatulenta”[78] (24) e, nas Observações Medicas…, que, para curar as cólicas ordinárias, dever-se-ia “tomar meya oitava de pò de raiz de bicha, ou de calumba, ou de esterco de ratos, & melhor que tudo, huma oitava de pò de intestino de lobo, de que Pedro Pacheco (3.) diz milagres” (28)[79]. Jean Vigier e Manuel Rodrigues Coelho ensinam a preparar intestino de lobo em pó parar tratar deste mesmo problema, nas referências 42) e 45), respetivamente, que analisaremos daqui a alguns parágrafos. A última referência aos intestinos de lobo é a 46), recuperada por Eugénio Francisco dos Santos do manuscrito n.º 394 da Biblioteca Pública Municipal do Porto, a qual afirma que os intestinos de loba – a única especificação respeitante ao sexo do animal – deveriam ser usados pelos homens, amarrados na cintura, sobre a carne, para curar as hemorroidas; e, no caso de se verificar um crise deste problema, dever-se-ia cozer uma pequena parte dos intestinos e beber, possivelmente a água da sua cozedura.
Resta-nos o fígado de lobo, a parte do corpo do lobo à qual, aparentemente, mais se recorria, tendo em conta que é a mais frequentemente citada, surgindo num total de 14 receitas, ou seja, mais de 1/4 do total de referências recolhidas. Era maioritariamente utilizado para o tratamento da epilepsia.
Francisco Morato Roma refere que o fígado de lobo, lavado com vinho ou água ardente, seco, pulverizado e misturado com os alimentos era um bom tratamento para o chamado “fluxo hepático”, podendo ainda tomar-se misturado com açúcar rosado e/ou canela em pó (6). Tanto Jean Vigier como Manuel Rodrigues Coelho declaram, respetivamente, nas referências 43) e 44), que o fígado de lobo serve para tratar as cólicas, no segundo caso em pó.
A Polyanthea Medicinal… contém 4 referências ao fígado de lobo utilizado para o tratamento da epilepsia: a 10), na qual se recomenda a incorporação, entre outras substâncias, de duas onças de fígado de lobo seco num electuário de xarope de hissopo, do qual se deveria tomar uma oitava e meia todos os dias; a 14), que sublinha as virtudes do pó de fígado de lobo misturado em água de arruda-caprária ou de cardo-santo; e a 19) e 21), que aludem brevemente ao facto de ser um “remedio experimentado para a Gotta Coral” [80]. Esta mesma obra possui igualmente a receita de umas pílulas produzidas, entre outros ingredientes, com duas oitavas de fígado de lobo, pílulas essas que se deveriam tomar na quantidade de cinco por dia no sentido de combater a hidropisia anasarca (16).
Mas as recomendações respeitantes ao consumo de fígado de lobo por parte de Curvo Semedo não se limitam à Polyanthea Medicinal…. A Atalaya da vida… inclui mais seis receitas em que este órgão surge como um dos ingredientes para o tratamento de uma série de problemas de saúde. Uma colher matinal de fígado de lobo “he remedio excelente”[81] para a diarreia (31). Este órgão, infusado em vinagre muito forte durante dois dias, e depois seco no forno sobre uma telha, “he remedio muyto recomendado por Authores gravíssimos”[82] para a disenteria (32). O médico português, na receita 34), apesar de não mencionar nenhuma forma transformada do fígado de lobo a ser utilizada, tece consideráveis elogios a esta substância, afirmando que “he maravilhoso remedio para curar a gotta coral […] & só este remedio tem mais virtude, que todos os vegetaveis juntos”[83] (34). Uma oitava de pó de fígado misturado com duas onças de vinho ou de água “he remedio muyto experimentado para a fraqueza, & intemperanças do figado, & he muyto proveytozo para os hydropicos, para os que se vam emagrecendo muyto, & para as tosses”[84] (36). Dois escrópulos de pó de fígado de lobo “he dos melhores remedios, que tem a Medicina para curar”[85] a epilepsia. E, por fim, que uma oitava e meia de pó de fígado de lobo misturado com três onças de água de cerejas negras ou de lírio-do-vale ajuda a curar os acidentes uterinos, também conhecidos como “Gotta coral da madre [isto é, útero] […] & sendo isto assim, todos os remedios, que tiverem virtude especifica para curar a gotta coral da cabeça, pódem aproveytar para a gotta coral da madre”[86].
D. Caetano de Santo António ensina a receita de umas “pirolas pro colico morbo”[87] que, entre outros ingredientes, continham seis oitavas de fígado de lobo em pó (41). Esta receita distingue-se de todas as restantes pela configuração moderna com que está escrita, no sentido em que, por esta ordem, apresenta o título, a lista de ingredientes e o modo de preparação da mesma. Além deste dado interessantíssimo, as páginas que contêm esta receita, contêm também uma passagem que ensina a preparar e conservar o fígado de lobo, baseando-se para o primeiro processo nos ensinamentos do químico francês Nicolas Lémery (1645-1715):


“O Figado de Lobo se prepara lavando-o primeyro muyto bem, & depois secando-o no forno em fogo brando feyto em talhadas para que melhor se seque o que se pôde fazer, pondo as talhadas do Figado em hũa frigideyra nova com o fũdo cuberto de Hyssopo, ou Marroyos, & nella se deyxão secar virando-os para que fiquem igualmente bem secos, & assim se guardaõ para o uso; nesta fórma os ensina a preparar Lemery na sua Pharmacop. cap. 54. De præparat. simp. He admiravel o Figado de Lobo para as colicas ventozas: da-se de hum escropulo atê huma oytava, conserva-se emburulhado em folhas de ortelãa ou de ouregãos secos”.[88]
A importância desta passagem é significativa, porque dá-nos a conhecer o processo de produção do pó de fígado de lobo, permitindo que o nosso conhecimento vá além de meramente sabermos que este produto era utilizado para finalidades curativas no contexto da saúde humana. Há outras passagens igualmente significativas neste conjunto documental. Na sua Pharmacopeia Ulyssiponense…, Jean Vigier dedica alguns parágrafos ao “Modo de preparar os bofes de rapoza, do figado, & dos intestinos de lobo, das secundinas, & de outras materias semelhantes”:
“Esta preparação não consiste mais que em secar as entranhas destes animais para as guardar, & pizar quando se quer usar dellas. Os bofes de Rapoza saõ tirados no instante q́ a matão, lavão-se, & cortão-se em bocados, & secaõ-se em calor brando, depois de secos guardaõ-se cubertos com folhas de hyssopo, ou de marroyos. […]
As secundinas se hão de secar em forno de sorte, que se não assem, nem queymem, & feytas em pó se guardem em vidro tapado. Serve para impedir as dores depois do parto.
O intestino de lobo, & figado se prepara do mesmo modo, serve para colica ventosa”.[89]
Um nível de detalhe ainda maior é-nos providenciado por Manuel Rodrigues Coelho na sua Pharmacopea Tubalense…, que aborda a questão da trituração dos intestinos de lobo:
“P. Como faremos a Trituraçaõ bem feita, e o que se deve observar para melhor se fazer?
R. Depois de tomar-mos aos simplices, lhe reconheceremos as syuas naturezas, e substancias, para melhor lhe podermos eleger o grão da sua trituração: mas antes de os triturarmos, será preciso observarmos as regras seguintes. […]
A quinta, as partes dos animaes, que em si contiverem muitas partes humido-viscosas, se hão de antes seccar a hum fogo lento, para que privadas da humidade, se façaõ rigidas, e friaveis, assim como o vergalho de Touro, intestinos de Lobo, &c. ás demais parte lhes basta o calor do Sol, assim como os Bichos Contas, Vivoras, &c.”[90];
a sua torrefação:
“P. Que cousa he Torrefacção.
R. He uma assaçaõ diminuida, pois só se differença em que quando os simplex estão seccos, lhe chamamos torrefacçaõ, e quãdo humidos assaçaõ […] quando a cousa, que se torra, está secca, e com huma nova aspereza exterior, entaõ diremos, que he torrefacçaõ. P. Como faremos esta operação?
R. Tomando aos simplices, que estiverem seccos, e preparados como se disse na assaçaõ, os poremos em um caco, ou outro vaso appropriado, e cõ hum muy moderado lume, no qual continuamente se moveraõ, até que suas superfícies estejaõ asperas, e livres das partes húmidas.
P. Por que causas se faz esta operação?
R. Por duas: […] a segunda, para lhes consumirmos alguma humidade supérflua, assim como quando se torraõ os intestinos de Lobo, e mais partes membranosas dos animais, para melhor se poderem polverizar”[91];
e a secagem e conservação não só dos intestinos como também do fígado de lobo:
“Tomar-se-hão os Bofes de Raposo, e depois de lavados em, bom vinho branco, se partiráõ em bocados para se seccarem depois de enxuto, ao Sol, ou em hum brando calor, até que estejaõ bem seccos, que assim se guardaráõ entre folhas de Hysopo, ou de Marroyos. […].
Do mesmo modo, que fica dito se prepáraõ os Intestinos [referência 45], e Figado de Lobo[referência 44], seccando-os ao calor do lume para se administrarem em pós nas Colicas ventosas. A sua dose he de hum escropulo, até huma oitava; e no entanto senaõ administraõ metidos entre Oregãos, ou Ortelã.
As Pareas se prepáraõ do mesmo modo, e se daõ reduzidas em pó para impedir as dores de tripas das mulheres recem paridas, na dose se hum escropulo, até huma oitava; tambem se guardaõ entre folhas de Salva, ou Mangerona”[92].
O leitor atento terá com certeza reparado nas muitas semelhanças entre os processos de secagem descritos pelos três autores. Essas semelhanças podem dever-se ao facto de tanto D. Caetano de Santo António como Jean Vigier e Manuel Rodrigues Coelho seguirem os ensinamentos de Nicolas Lémery. Ainda que, neste conjunto de passagens, só surja citado na da autoria do primeiro autor[93], uma análise dessa mesma citação revela-nos como todos três beberam deste químico francês para escreverem as suas receitas:
“Chapitre XLIV. De la préparation des poulmons de Renard, du foye & des intestins du Loup, de l’arriere-fais & des autres matieres semblables.
Cette préparation ne consiste qu’à faire secher des visceres d’animaux, asin de pouvoir les garder & les mettre en poudre quando on voudra.
On prendra, par exemple, des poulmons dé Renard bien sains tirez de l’animal recemment tué, on les lavera, on les coupera par tranches, on les fera secher au four par une douce chaleur, puis on les envelopera d’hysope ou de marrube pour les garder. […]
Il ne faut pas que le Renard dont on veut tirer les poulmons soit mort de maladie, de peur que c eviscere ne fût imbu de quelque méchante impression, ni qu’il ait peri de vieillesse; ca ril seroit prive d’esprits, il faut qu’il soit mort de mort violente, asin que le poulmon soit dans sa viguer & abondant en esprits, on doit observer la même chose à l’égard du Loup dont on retirera le foye et les intestins. Pour l’arriere-fais, il faut qu’il vienne d’une femme saine, qu’il soit entier & bien conditionné.
On se sert ordinairement pour laver les poulmons du Renard, d’une décoction d’hysope & de scabieuse faite dans lev in blanc […] j’aime donc mieux me servir de l’eau commune en cette occasion, elle n’emporte rien [nenhuma substância] avec soi quando elle s’évapore dans le four.
On peut réduire le poulmon de Renard en poudre dès qu’il a été seché, & garder la poudre dans une bouteille de verre bien bouchée, mais si on le garde en morceaux il faut l’enveloper avec des herbes apropriées à sa vertu, & qui puissent résister aux vers: l’hysope, le marrube secs sont assez convenables pour ce sujet.
On préparera de le même maniere le foye & les intestins du Loup par morceaux, asin qu’ils sechens plus facilement dans le four, ils sont propre por la olique venteuse, la dose en est depuis un scrupule jusqu’à une dragme, on peut les conserver envelopez dans les feuilles de mente ou d’origan seches.
L’arriere-fais prepare de même est dit propre pour empêcher les tranchées des femmes en couché; la dose en est depouis un scrupule jusqu?à une dragme; on peut l’enveloper pour le conserver dans les feuilles de sauge, de marjolaine, de souci”[94].
Nicolas Lémery foi uma figura de referência no domínio farmacêutico por toda a Europa de finais do século XVII e início do século XVIII. Natural de Rouen, estudou Química em Paris e Montpellier e fundou um curso de Química junto da sua botica que se difundiu rapidamente e alcançou grande prestígio.[95]
2. 3. Possíveis motivos para a utilização de partes do corpo do lobo como ingredientes de remédios
Problematizada a questão da transformação das partes do corpo do lobo a serem utilizadas como remédios para o tratamento e cura de problemas de saúde humana, gostaríamos de refletir um pouco, nesta terceira e última parte deste texto, acerca de alguma(s) lógica(s) por detrás do uso de determinadas partes do corpo do lobo para o tratamento de determinadas doenças. Salientemos, somente, que esta reflexão não incluirá qualquer interrogatório ou julgamento relativos à eficácia ou não destas receitas médico-farmacêuticas, porque não nos revemos nessa prática nem acreditamos que seja esse o nosso papel enquanto historiadores.
A maior dificuldade desta abordagem às nossas fontes históricas é o facto de nenhuma delas nos responder a esta pergunta, nem direta, nem sequer indiretamente. Deste modo, os motivos da utilização das várias partes do corpo do lobo mencionadas não são claros, até porque há inúmeras menções a outros animais nos documentos e nas receitas aqui em estudo. Tendo em conta estas questões, e considerando que estaremos quase constantemente perante uma mistura de saberes e práticas com origens muito variadas, a nossa tentativa de descodificação torna-se ainda mais complexa pelo facto de a maioria das práticas ser detentora de um grande sincretismo.
Nenhum dos autores explica os motivos da utilização do corpo do lobo para o tratamento das doenças referidas, algo que faz com que pareça, do nosso ponto de vista, que esta utilização também não fosse clara para os próprios. Dois exemplos disso são as referências 34) – “O coração, ou figado do lobo he maravilhoso remedio para curar a gotta coral, por hũa virtude particular, & innata que tem para isto”[1] – e 38) – uma tira de pele do dorso do lobo desde a nuca até ao traseiro “he remedio que cura […] por virtude especifica, ou qualidade occulta”[2] as vertigens.
Mas que virtudes “particulares”, “inatas”, “específicas” e/ou “ocultas” seriam essas? A ideia que nos fica após a leitura e interpretação destas passagens é que o uso de certas partes do corpo do lobo – um raciocínio estendido a outros animais – era já tão antigo e estava já tão imbuído nas tradições terapêuticas, que não merecia, por isso, grande questionamento por partes destes especialistas. Assim, podemos apenas inferir e teorizar estas utilizações.
Na época aqui em estudo, a terapêutica em Portugal estava praticamente estagnada, comparativamente a outros locais europeus, sendo o galenismo a teoria predominante, como analisaremos de modo mais profundo adiante. Também conhecida como “humorismo”, “humoralismo”, “teoria humoral” ou “teoria dos quatro humores”, a versão mais famosa do galenismo foi descrita por Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.) e, depois, largamente expandida por Galeno. Os estados de saúde e de doença eram concebidos como, respetivamente, o equilíbrio e desequilíbrio dos quatro humores corporais, podendo isto dever-se a influências naturais e/ou sobrenaturais. Cada um destes humores detinha qualidades específicas e estava associado a uma das quatro estações do ano: o sanguíneo, associado ao sangue, era quente e húmido, e correspondia à primavera; o colérico, associado à bílis amarela, era quente e seco, e correspondia ao verão; o melancólico, associado à bílis negra, era frio e seco, e correspondia ao outono; e o fleumático, associado à fleuma, era frio e húmido, e correspondia ao inverno.[3] Assim, os medicamentos utilizados deveriam ter um poder contrário à força do humor prevalecente no momento da doença[4].
Há algumas analogias que, a nosso ver, são tão evidentes que são difíceis de ignorar. Por esta altura, o conhecimento tanto da anatomia e do funcionamento do corpo humano como da anatomia e do funcionamento do corpo do lobo já seriam bastante avançados, considerando que em mais de metade dos casos analisados – 25 dos 48 – há uma ligação direta entre a parte do corpo do lobo usada terapeuticamente e a parte do corpo humano que apresenta a doença: os olhos do lobo para tratar as cataratas (3 e 7); o coração do lobo para tratar a epilepsia (5, 8 e 33)[5]; a garganta ou traqueia do lobo para problemas na respiração humana, como asma, faltas de respiração e “garrotilhos” (11 e 30); o fígado do lobo para o “fluxo hepático” e as fraquezas do fígado humano (6 e 36); e, por fim, o fígado, os intestinos e as fezes do lobo, dois órgãos e um subproduto proveniente do seu sistema digestivo destinados ao tratamento de problemas do sistema digestivo humano como cólicas, “colico morbo”, diarreia, disenteria e hemorroidas (12, 13, 18, 23, 24, 28, 29, 31, 32, 35, 41, 42, 43, 44, 45 e 46).
Neste conjunto de receitas médicas, os três problemas de saúde que mais faziam os seres humanos recorrerem ao lobo, consumindo as mais variadas partes do seu corpo, eram: a epilepsia, doença mencionada num total de quinze casos (4, 5, 8, 9, 10, 14, 15, 19, 20, 21, 22, 33, 34 e 37); as cólicas, que surgem em treze casos (12, 13, 18, 23, 24, 28, 29, 35, 41, 42, 43, 44 e 45); e patologias associadas ao útero e à gravidez, existentes em seis casos (17, 25, 26, 27, 39 e 48).
A palavra “epilepsia” deriva do grego, epilambanein, que significa “atacar” ou “tomar posse”. Desde a Antiguidade Grega, e até desde alturas anteriores, que se acreditava que a epilepsia era um “ataque” ou uma “possessão” por parte dos deuses ou demónios. Era a doença mais associada a fenómenos paranormais devido às suas características peculiares.[6] Esta visão da epilepsia como sendo causada por possessão demoníaca prevaleceu ao longo da Idade Média e reapareceu, por vezes, nas sociedades ocidentais modernas, materializada na prática de exorcismos, uma questão que pode ser explicada através da compreensão demoníaca das convulsões existentes em fontes bíblicas e nos escritos de várias figuras religiosas acerca desta doença.[7]
O lobo, por sua vez, era considerado, na simbologia cristã, um animal demoníaco, sendo muitas vezes mencionado nas Sagradas Escrituras como uma alegoria do mal e uma metáfora do Diabo ou dos falsos profetas, um inimigo e predador das ovelhas, que representavam os “fiéis”. A Igreja Católica fez uso desta ideia durante séculos, recorrendo à imagem negativa do lobo, para criação a sensação da existência de demónios reais pairando no mundo real, e toda esta imagética acabou por se consolidar e refletir na literatura ocidental.
Ora, se a epilepsia era uma doença de natureza demoníaca, e se o lobo era encarado como um animal de natureza demoníaca, é possível que a lógica por trás da utilização de partes do corpo do lobo para tratar a epilepsia se devesse à crença de que o segundo poderia funcionar como uma espécie de antídoto para a primeira.
Relativamente às fezes, independentemente da espécie que as produzia, desde a época greco-romana que estas eram usadas na “medicina popular”, acreditando-se que, de alguma maneira, certas propriedades do animal a que pertenciam as tais fezes poderiam ser transferidas para o ser humano que as consumia. Pessoalmente, no que diz respeito à época moderna, quando falamos de medicina em particular, e de cultura em geral, não defendemos a oposição concetual entre “popular” e “erudito”, uma vez que estes dois níveis culturais não existiam fechados sobre si mesmos, com homogeneidade se sem quaisquer contactos ou influências recíprocas, sendo sempre possível identificar elementos de fusão e interpenetração entre ambos. Tanto que, como afirma o próprio João Curvo Semedo na referência 13), o uso foi sendo recomendado por médicos como Galeno (ca. 129-ca. 217), Bernard de Gordon (1270-1330) ou Lazare Rivière (1589-1655) e, na referência 35), que “os estercos de vários animais tem grandes virtudes”[8].
Galeno, por exemplo, defendia que as fezes eram uma substância com um poder de dispersão bastante elevado, e distingue os excrementos produzidos por vários animais com base nas suas dietas, fazendo ainda alguns comentários sobre as propriedades particulares de cada uns e enfatizando a observação pessoal da sua eficácia para tratar uma série de problemas da saúde humana[9]. Este médico romano de origem grega escreveu que as fezes de um lobo alimentado com ossos, ou seja, fezes brancas, dadas a beber a alguém que sofresse de cólicas faria com que estas passassem. Também podiam prevenir as cólicas antes de estas ocorrerem, e se ocorressem, se a pessoa já estivesse a tomar este remédio, as dores não seriam tão fortes como de costume.[10] De acrescentar ainda que o lobo, do ponto de vista da teoria dos quatro humores, era considerado um animal melancólico, ou seja, de natureza fria e seca[11], pelo que se deveria recorrer ao mesmo para atuar em problemas de saúde provocados pelo humor sanguíneo, que era quente e húmido. Além disso, é possível que se acreditasse que as fezes do lobo, quando eram brancas, serviriam para limpar e purificar os intestinos, aliviando assim as dores de cólicas, uma vez que o branco está histórica e simbolicamente associado à limpeza e à pureza.
Por fim, no que diz respeito aos “acidentes uterinos”, aos abortos espontâneos, aos partos prematuros e à aceleração do parto, e partindo do princípio de que o consumo de um certo animal fazia com que determinadas propriedades deste fossem transferidas para o ser humano, a utilização de uma parte do corpo do lobo, neste contexto, poderia estar associada à ideia de que o lobo, de alguma maneira, protegeria a mulher contra estes males. Acreditamos que uma resposta possível para isto é o facto de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) ter escrito que as lobas pariam dentro de um determinado período de doze dias ao longo de ano. Mas Plínio (23-79) e Eliano (175-235) interpretaram mal esta passagem e escreveram que as lobas pariam durante doze dias.[12] Deste modo, é possível que este equívoco tivesse circulado nas obras destes dois autores, levando à consolidação da respetiva crença. Considerando que o parto humano é tão complexo, é possível que as mulheres procurassem recorrer a partes do corpo do lobo para canalizarem para si mesmas a perseverança e resistência que se acreditava que as lobas exibiriam neste processo, de modo a protegê-las do mais variado tipo de complicações relacionadas com o seu sistema reprodutor.
Em finais do século XVII e na primeira metade do século XVIII, comparativamente a outros locais europeus, focados no desenvolvimento científico que se deu nesta época, com avanços importantes na Astronomia, nas Ciências Naturais, na Física e, consequentemente, na Medicina, em Portugal, a evolução da terapêutica apresentava alguma estagnação e alguma resistência à adoção de medicamentos químicos[13]. São vários os fatores que explicam esta questão, como o monopólio dos preceitos da Igreja existente em todas as esferas da sociedade, a formação inadequada e limitada dos boticários e droguistas e a predominância das práticas tradicionais no que diz respeito à Farmácia e à Medicina, a insuficiência das estruturas das boticas e o parco investimento em equipamentos[14].
Contudo, vários boticários, droguistas e médicos sublinharam o valor da Química na preparação de medicamentos, criando assim um campo farmacêutico no reino que era simultaneamente galénico e químico. Uma leitura mais extensiva destes dez documentos, revela tanto uma forte influência da tradição galénica como um surgimento irreversível de fórmulas químicas. Além da menção específica a Galeno nas referências 1) e 13), uma análise mais precisa dos títulos completos das obras Polyanthea medicinal…, Pharmacopea lusitana…, Pharmacopea ulyssiponense… e Pharmacopea tubalense… revela esta simultaneidade, ainda que, coincidentemente, nas passagens que decidimos estudar e apresentar não tenha surgido nenhuma menção aos quatro humores nem a substâncias químicas.
Tanto a Farmácia como a Medicina eram culturalmente híbridas, misturando saberes eruditos e populares, fé e superstição, crenças mágico-religiosas, uma profunda imbuição do Cristianismo em todos os domínios da vida pública e privada, desde o nascimento até à morte, saberes nativos de várias regiões coloniais portuguesas e conhecimentos tanto da Antiguidade Clássica como das descobertas mais recentes no campo da Química[15]. Uma das manifestações das crenças mágico-religiosas era o uso de amuletos[16], como atestado nas referências 3), 4), 7), 9), 15), 26), 27), 38) e 47).
3. Notas Finais
A nossa pesquisa não foi exaustiva e esta investigação não esgota este tema. Estamos certos de que outras obras das mesmas tipologias, impressas ou manuscritas – livros de botica, farmacopeias e tratados de medicina –, que (ainda) nos são desconhecidos, certamente conterão receitas e indicações curativas semelhantes relevantes para o estudo deste tema, bem como alargar e aprofundar este campo de estudo. Além disso, seria pertinente realizar uma comparação sistemática com fontes estrangeiras coevas, a fim de determinar até que ponto estas práticas se enquadravam numa tradição europeia mais ampla ou possuíam características especificamente portuguesas.
Assim, as 48 referências a remédios analisadas, localizadas em dez documentos portugueses datados dos séculos XVII e XVIII, constituem apenas uma primeira amostra do interesse e significado do potencial do estudo da interligação entre o corpo do lobo e a saúde humana, sendo esta uma das várias interações possíveis entre as duas espécies em Portugal na época moderna. Cremos que o estudo apresentado permitiu compreender, de forma sistemática e fundamentada, como as partes do corpo do lobo foram utilizadas para preparar remédios em Portugal durante os séculos XVII e XVIII, evidenciando o modo como este animal, para além da sua dimensão biológica, assumia um destacado papel cultural, simbólico e terapêutico na sociedade portuguesa do Antigo Regime.
A inclusão do lobo como fonte de substâncias com propriedades curativas nos compêndios terapêuticos não foi um fenómeno isolado, mas antes parte integrante de uma tradição mais ampla de uso medicinal de produtos de origem animal, vegetal e mineral. Desde a Antiguidade Clássica, a medicina galénica e hipocrática estabelecera uma relação entre o corpo humano e o mundo natural, concebendo a saúde como o resultado de equilíbrios e correspondências entre ambos. Dentro deste paradigma, era natural que os animais fossem incorporados nas práticas curativas.
A natureza das referências analisadas possibilita que afirmemos que a utilização das partes do corpo do lobo era variada, abrangendo órgãos internos, tecidos e secreções, com aplicações terapêuticas que iam desde o tratamento da epilepsia até às cólicas, passando por doenças do fígado, do aparelho respiratório e do sistema reprodutor. O fígado e o coração destacam-se como as partes mais frequentemente empregues.
Apesar de, na maioria dos casos, as fontes não fornecerem descrições pormenorizadas sobre os processos de transformação das partes do corpo do lobo, limitando-se a mencionar o seu uso ou a recomendar a forma sob a qual deveriam ser administradas, não deixámos de conseguir reunir informações relevantes sobre os métodos de preparação e conservação, sobretudo no caso do fígado e dos intestinos, graças às obras de D. Caetano de Santo António, Jean Vigier e Manuel Rodrigues Coelho, que indubitavelmente seguiram os preceitos de Nicolas Lémery.
A articulação entre o “lobo real” e o “lobo cultural” constitui, portanto, um dos eixos centrais para compreender a presença deste animal nas práticas médico-farmacêuticas portuguesas do período moderno. Enquanto o primeiro corresponde ao animal biológico, sujeito à observação e ao conhecimento empírico, o segundo representa uma construção simbólica, tendo sido o “lobo cultural” que dominou o imaginário e que determinou a sua incorporação na terapêutica.
A leitura cruzada dos documentos analisados revela a coexistência de múltiplas camadas de saber, uma interpenetração que reflete o carácter sincrético da cultura médica portuguesa dos séculos XVII e XVIII. Embora enraizadas na tradição galénica, a Farmácia e a Medicina não só começaram a independentizar-se como a assimilar influências externas e a adotar métodos de preparação química, conforme demonstram as obras de João Curvo Semedo, D. Caetano de Santo António, Jean Vigier e Manuel Rodrigues Coelho. Contudo, esta evolução não significou uma rutura com o passado, mas antes um processo gradual de adaptação e de fusão, no qual coexistiam, lado a lado, preceitos baseados na teoria dos quatro humores e preceitos químicos. Este hibridismo cultural conferia à farmacologia portuguesa do período uma identidade muito própria.
Esperamos igualmente ter contribuído para a valorização das fontes farmacêuticas e médicas enquanto testemunhos privilegiados da cultura e das mentalidades existentes em Portugal, nos séculos XVII e XVIII. Através delas, é possível aceder não só às práticas de cura e aos conhecimentos técnicos da época, mas também a algumas das conceções que moldavam a relação entre o ser humano e o mundo natural.
Em síntese, o presente artigo demonstra que o uso de partes do corpo do lobo como ingrediente medicinal em Portugal durante a esta época refletia um pouco da mentalidade médica vigente. A sua presença nas receitas e documentos estudados não só ilustra a complexidade das conceções médico-farmacêuticas portuguesas do Antigo Regime, como também oferece uma vista desafogada para a compreensão do modo como o ser humano, perante o mistério da doença, procurou respostas no mundo natural, reinterpretando-o segundo a lógica do seu tempo.

* Doutoranda em História, na Faculdade de Letras da ULisboa, sob a orientação da Prof.ª Doutora Isabel Drumond Braga. Email: andreia.c.f.louro@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1884-8347
[1] Maria João Cabral (coord.); Júlia Almeida et al. (eds.), Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal: Peixes Dulciaquícolas e Migradores, Anfíbios, Répteis, Aves e Mamíferos, Lisboa: Instituto da Conservação da Natureza, 2.ª edição, 2005, pp. 517-518.
[2] João Luís Cardoso, Contribuição para o Conhecimento dos Grandes Mamíferos do Plistocénico Superior de Portugal, Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras, 1993, pp. 293-311.
[3] Francisco Álvares et al., Plano de Ação para a Conservação do Lobo‐Ibérico em Portugal. Situação de Referência, Lisboa e Porto: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto e Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa, 2015, p. 4.
[4] João Rui Pita e Ana Leonor Pereira, “A Arte Farmacêutica no Século XVIII, a Farmácia Conventual e o Inventário da Botica do Convento de Nossa Senhora do Carmo (Aveiro)”, in Ágora. Estudos Clássicos em Debate, Vol. 14, n.º 1, Aveiro, 2012, pp. 227-268 (pp. 229 e 244-245).
[5] Dulce Freire, Receitas e Remédios de Francisco Borges Henriques, Inícios do Século XVIII, Vila das Aves: Ficta Editora, 2020, p. 21.
[6] Leonardo Gonçalves Gomes, “Animais que Curam: Circulação de Saberes e Medicamentos de Origem Animal no Reino Português”, in Marieta de Moraes Ferreira (org.), Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo: Associação Nacional de História, 2011. Em linha: https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548856589_0be6d10fe6c958a5e2894e90879e5adb.pdf. Consultado em 31 de outubro de 2025. Leonardo Gonçalves Gomes, A Farmacopeia Tubalense de 1735 e a Construção de um Modelo para a Farmácia Portuguesa Setecentista, dissertação de mestrado em História Social apresentada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012, pp. 111-113.
[7] João Rui Pita, Um Livro com 200 Anos: a Farmacopeia Portuguesa (Edição Oficial). A Publicação da Primeira Farmacopeia Oficial: Pharmacopeia Geral (1794), Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1999, pp. 49-51.
[8] Apesar de não nos alongarmos sobre esta obra neste nosso artigo, não podemos deixar de sublinhar a sua importância no que diz respeito à regulamentação da saúde pública em Portugal e à regulação da prática farmacêutica, estabelecendo padrões para esta prática profissional e para o seu ensino, além de ser vista como um passo importante na emancipação da Farmácia em relação à Medicina. As reformas pombalinas na Universidade de Coimbra foram fundamentais para impulsionar a criação de uma farmacopeia oficial, já que os novos Estatutos, datados de 1772, previam a elaboração de uma obra que promovesse a atualização, normalização e uniformização do ensino farmacêutico, espelhando a preocupação para com a qualidade dos medicamentos e a saúde pública próprias as correntes de pensamento do Iluminismo médico. João Rui Pita, Um Livro com 200 Anos…, pp. 61 e 65-66.
[9] Braga, Arquivo Distrital de Braga (ADB), Ms. n.º 142, caderno II apud Anabela Leal de Barros, Remédios Vários e Receitas Aprovadas. Segredos Vários, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, Série Diaita: Scripta & Realia. Estudos Monográficos, 2016.
[10] Anabela Leal de Barros, Remédios…, pp. 69-78: ainda que o autor seja desconhecido, a autora apresenta vários dados e indícios que permitem identificá-lo, pelo menos, como tendo sido frade ou prelado.
[11] Anabela Leal de Barros, Remédios…, p. 18.
[12] Texto original: “Pª as Almoreimas q’ saie’ fora. Elmasi, que he hu’ mineral; e’ seu lugar tem suas veses a Caparosa misturada com trementina, a maneira de emprasto, auendo se primeiro lauado com agoa morna. Hua onsa de Cardinilho, meia de pedra hume, ferua e’ hua canada de agoa atte minguar a metade. Cascas de Ouos queimados e lauados 1º, depois de torradas feitas em poo poluerisallas. Asso moido, e preparado misturado com gordura de lobo, e feito mechas de algodaõ, e aplicallas Antimonio hua onsa, olio rosado, e farinha de fauas, o q’ bastar a formar vnguento, as cura, e sem dor. Hua berengella piccada, e fritta e’ oleo de alcaparras, atte ficcar mui secca, e logo misture’lhe hua onsa de cera virge’, e hu’ pouco de cardinilho. Galeno. Hemorroidas sananti antiquas, si vna earu’ seruetr’, periculu’ est, aquam inter cute’, et tabem superuenire. quando se der na arteria o remedio vnico, he tomar hua torcidinha de algodaõ, molhada, e embrulhada be’ e’ caparosa, e metella na arteria, e logo sara infalliuelte, e naõ ha outro remedio. melhor”. Braga, ADB, Ms. n.º 142, caderno II apud Anabela Leal de Barros, Remédios…, pp. 348-349.
[13] Texto original: “Emprasto Exc<e↑>lente e aᵽuado pª quebraduras frescas. Tome’ macans de acipreste, olhas de murta, cascas de caracois, e de briguigoins, hua onsa de cada cosa. de bolo armenio duas onsas, de sangue de dragaõ e […] mastico en carme <.i. hua maõ cheia←> de cada hu’ 2 onsas, e meia. de resina e cera noua tres onsas de cada hum, de trementina a cantide que bastar pª faser emprasto feito elle se ponha sobre hua pelle de lobo do tamanho da quebradura, e se aperte bem com a funda, ou ligadura, e esteia 15 dias na cama com os pe’s mais altos q’ a cabessa, mudandolhe o emprasto de dous e’ dous dias, se for a quebradura fresca, e o doente naõ mto velho sarara infalliuelte”. Braga, ADB, Ms. n.º 142, caderno II apud Anabela Leal de Barros, Remédios…, p. 367.
[14] Gonçalo Rodrigues Cabreira, Compendio de Muitos e Varios Remedios de Cirugia e Outras Cousas Curiosas. Recopilados do Thesouro de Pobres e Outros Autores… E nesta Quarta Impressaõ… Acrescentado hum Tratado de Perseverar o Mal de Peste, Lisboa: António Alvarez, 4.ª edição, 1635.
[15] Texto original: “Outro. Para bellidas dos olhos. […] Tomem os olhos do lobo, e tragãonos ao pescoço, e sararão”. Gonçalo Rodrigues Cabreira, Compendio…, fl. 5v.
[16] Texto original: “[Cap. II. Remedios pera gotta coral] Outro. Se trouxerem hũa correa de pele de Lobo, apertada ao longo de si, nunca serão assombrados deste mal. Outro. Tomẽ o coração do Lobo, e partido pelo meo dẽ ao doẽte ametade a comer, e ametade a beber moido cõ vinho, e nunca mais lhe vira este mal”. Gonçalo Rodrigues Cabreira, Compendio…, fl. 11v.
[17] Foi um médico português que nasceu em Castelo de Vide e estudou filosofia em Évora e medicina em Coimbra. Foi médico de D. Teodósio (1568-1630), II duque de Bragança e, em 1640, foi para Lisboa, onde se tornou médico dos reis D. João IV (1604-1656, filho do anterior e inaugurador, nesse ano, da quarta dinastia portuguesa) e de D. Afonso VI (1643-1683). Faleceu em Lisboa, deixando toda uma obra de teor médico e farmacologia que teve um grande impacto na sua época.
[18] Francisco Morato Roma, Luz da Medicina, Pratica Racional, e Methodica, Guia de Infermeyros, Directorio d Principiantes e Summario de Remedios para Poder Acodir, Coimbra: Oficina de Francisco de Oliveyra, 8.ª edição, 1753.
[19] Texto original: “[Capitulo II. Da fraqueza do Figado, a que os Authores chamaõ fluxo Hepatico.] O figado de lobo lavado com vinho, ou agoa ardente, e posto a seccar, depois de secco feito em pó, e misturado com o mantimento, he muito louvado para este achaque, podemse tomar estes pós com açucar rozado, pulverizando, e misturando com pós de canella”. Francisco Morato Roma, Luz da Medicina…, p. 226.
[20] Texto original: “Outro remedio para bellidas dos olhos. […] Outro. Tomem os olhos do lobo, e tragaõ-nos ao pescoço, e sararàõ”. Francisco Morato Roma, Luz da medicina…, p. 363.
[21] Texto original: “[Capitulo XI. Remedios para gota coral.] Outro. Se trouxerem huma correa de pelle de lobo apertada ao longo de si, nunca seràõ assombrados deste mal. Outro. Tomem o coraçaõ do lobo, e partido pelo meio, dem ao doente ametade a comer, e ametade a beber moido com vinho, e nunca mais lhe virà este mal.” Francisco Morato Roma, Luz da medicina…, p. 370.
[22] José Francisco Meirinhos, “O Tesouro dos Pobres de Pedro Hispano, entre o Século XIII e a Edição de Scribonius em 1576”, in Câmara Municipal do Porto, Biblioteca Pública Municipal do Porto, Universidade de Aveiro e Centro de Línguas e Culturas (org.), Humanismo, Diáspora e Ciência (Séculos XVI e XVII): Estudos, Catálogo, Exposição, Porto e Aveiro: Biblioteca Pública Municipal do Porto e Universidade de Aveiro, 2013, pp. 327-349.
[23] João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal, Noticias Galenicas e Chymicas Repartidas en Tres Tratados, Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 3.ª edição, 1716.
[24] João Curvo Semedo foi médico, cavaleiro da Ordem de Cristo e familiar do Santo Ofício. Nasceu em Monforte e mudou-se para Lisboa por volta de 1647. Cerca de vinte anos mais tarde, iniciou o curso de Medicina na Universidade de Coimbra. Muitos dos seus parentes mais próximos era personalidades religiosas e médico-farmacêuticas importantes da sociedade lisboeta daquela época. Curvo Semedo atendeu pacientes dos mais variados grupos sociais, tendo sido igualmente médico da Misericórdia e da Casa Real. Foi autor de onze obras de teor médico e farmacêutico, através das quais é possível percecionar o seu percurso profissional e o seu papel no que diz respeito à modernização da Medicina em Portugal. Foi pioneiro na defesa e utilização de medicamentos químicos e grandemente influenciado pelo alquimista e físico suíço Paracelso (1493–1541) e pelo químico francês Nicolas Lémery (1645-1715). A sua terapêutica também apresentava uma forte componente religiosa, uma vez que as enfermidades eram encaradas com um desejo ou punição divina, da mesma maneira que os processos de cura estavam imbuídos de uma forte componente espiritual. Os remédios de segredo criados por João Curvo Semedo também desempenharam um papel marcante na sua trajetória profissional e que prestígio que foi granjeando ao longo da sua carreira. Alguns deles eram tão bem reputados que não só obtiveram sucesso internacional, como foram alvo de falsificações, muitas vezes denunciadas pelo seu próprio criador. Vários destes remédios continuaram a ser produzidos, vendidos e consumidos até finais do século XVIII, apesar da contestação de vários boticários, que os consideravam inócuos e ultrapassados. O legado de João Curvo Semedo está intrinsecamente associado à divulgação de medicamentos químicos em Portugal, tendo influenciado muitas figuras do mundo da Medicina e da Farmacologia durante a primeira metade de Setecentos. Wellington Silva Filho, “Semedo, João Curvo”, Dicionário Biográfico de Cientistas, Engenheiros e Médicos em Portugal. Em linha: https://doi.org/10.58277/GRLJ2435. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[25] Texto original: “[Capitulo IX. Para a Gotta Coral…] O quarto remedio he o seguinte. Tomem de flor de alecrim huma onça, de figado de Lobo secco duas onças, de semente de píonia macho (que he a negra) meya onça, de âmbar griz doze grãos, de castorco hum escropulo, de triaga magna meya onça, de tudo se faça electuario com xarope de hyssopo, do qual tomem todos os dias (depois de bem purgados) oytava & meya, & de oyto em oyto dias purgue com infusaõ de sene, & agarico, a que ajuntem huma oytava de cremores de Tartaro verdadeyramente preparados. Digo verdadeyramente preparados; porque diz Riverio 17. que os falsificaõ, & por isso encomenda muyto aos Boticarios que os preparem com suas mãos, ou feitos de outra maõ, se os comprarem, saybaõ primeyro se quem os preparou he pessoa verdadeyra, & temente a Deos. Eu faço tambem a mesma recomendação, por ser este negocio de tanta importancia, assim para a saude dos doentes, como para o credito dos Medicos, pois importará pouco que o Medico seja doutissimo, nem que o enfermo seja obidientissimo, se o remedio for adulterino, ou mal preparado”. João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 66. Nas pp. 67, 810 e 824 da mesma obra, Curvo Semedo menciona que o fígado e a pele de lobo são remédios igualmente eficazes para esta doença: referências 14 e 15 (texto original: “[Capitulo IX. Para a Gotta Coral…] A mesma virtude tem o pò do figado do Lobo dado em agua de Ruta Capraria, ou de Cardo Santo. Da pelle do Lobo que fica sobre o espinhaço, se faz hum cinto, que trazido junto da carne, preserva da Gotta Coral, como afirma a experiencia”), 19 e 20 (Texto original: “Figado de lobo, & a sua pelle he remedio experimentado para a Gotta Coral, ibid. cap. 9. n. 29, p. 67”) e 21 e 22 (texto original: “Lobo. O seu figado, & a pelle he remedio experimentado para a Gotta Coral, Trat. 2. cap. 9. num. 29. pag. 67”).
[26] Texto original: “[Capitulo XXXXIII. Para o Garrotilho…] Tambem consta de grandes observaçoens, que os que beberem pela aspera Arteria, ou guèla de hum lobo, naõ cahiraó nunca em Garrotilhos, ou se os tiverem, se livraràõ delles com facilidade”. João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 238. Rafael Bluteau, Vocabulário Portuguez e Latino, Vol. IV, Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1713, p. 35: “Garrotilho. Certa enfermidade de sangue, que acode á garganta, & impede a respiração, como se dessem garrote ao doente”.
[27] João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, pp. 316-317 (referência 12 – texto original: “[Capitulo LVI. Para a dor de Colica intestinal…] Tambem saõ muy proveytosas as seguintes. […] Muytos dão por grande segredo huma oytava de pòs de esterco de ratos, desfeyto em duas onças de agua de flor de laranja, ou de vinho. Mayor effeyto fazem duas oytavas de esterco de lobo. […]”), p. 322 (referência 13 – texto original: ““[Capitulo LVI. Para a dor de Colica intestinal…] […] O esterco do Lobo, ou o seu intestino recto feyto em pò, dando qualquer destas cousas ao doente em quantidade de huma oytava, tem efficaz virtude contra as ditas dores, como certificaõ Galeno, 13, Gordonio, 16. Riverio, & outros muytos.”), p. 325 (referência 18 – texto original: “Huma colher de cinza de cotovia, queimada com sua penna, & dada em caldo, cura as dores de colica, como diz Escrodero, 26, & Dioscorides; 27. & tem igual virtude que o esterco de lobo para esta doença.”) e p. 824 (referências 23 e 24 – texto original: “Lobo. […] O seu esterco, ou intestino recto feyto em pó he grande remedio para a cólica flatulenta, ibid. cap. 56. num. 5. p. 316. & n. 24. p. 321”).
[28] Texto original: “[Capitulo LXXVI. Para a Hydropesia Anasarca…] A alguns Hydropicos (depois de bem preparados) aproveytou muyto o uso das seguintes pirolas. Tomem de espicanardo huma oytava, de figado de lobo duas oytavas, tudo se pize, & se misture com xarope de losna, ou de chicória, & fação vinte pirolas, de que daraõ cinco cada dia”. João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 415. A hidropisia é a acumulação anormal de fluido numa ou em várias partes do corpo humano. Quando a doença ocorre no corpo todo, dá-se-lhe o nome de anasarca.
[29] Texto original: “[Capitulo LXXXX. Para os Accidentes Uterinos…] A carne do lobo secca no forno, feyta em pò, & dada por vinte dias, naõ sò tira os accidentes Uterinos actuaes; mas preserva delles toda a vida. Não falta Author grave que diz, que a carne ha de ser do coração”. João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 490. Apesar da nossa pesquisa, não encontrámos qualquer definição para o que seriam “acidentes uterinos”, pelo que assumimos que se tratasse de qualquer problema de saúde com origem no útero. Não sabemos se isto incluiria abortos espontâneos ou partos prematuros, já que o autor, na mesma obra, adiante, refere pele de lobo para “impedir os móvitos” (p. 490, referência 26). Na mesma obra, volta a sublinhar a importância da carne de lobo para os acidentes uterinos, na p. 824 – referência 25, texto original: “O pò da carne do lobo não só cura os accidentes uterinos actuaes, mas preserva delles por toda a vida, ibid. cap. 90. n. 14. p. 490.”.
[30] Texto original: “Uma esmeralda fina Oriental trazida ao pescoço, de sorte que toque no ventre, tem virtude de impedir os movitos […] & naõ falta quem afirme que a pelle do lobo tem a mesma virtude”. João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 536. Na p. 824, há outra menção da ligação entre a pele de lobo e os móvitos (referência 27) – texto original: “Lobo. […] A sua pelle tem virtude occulta para impedir os movitos, ibid. cap. 101. n. 20. p. 535”.
[31] Texto original: “Porque ninguem disse atè agora, que o pò do coraçaõ de lobo era remedio efficaz para os fátuos, havemos de fazer escarneo dos que hoje o dizem?”. João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 717.
[32] Texto original: “O pò do coração do lobo he remedio, efficaz para os fátuos, Trat. 3. cap. 1. num. 84. p. 717”. João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 824.
[33] Wellington Silva Filho, “Semedo, João Curvo”. Em linha: https://doi.org/10.58277/GRLJ2435. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[34] João Curvo Semedo, Observaçoens Medicas Doutrinaes de Cem Casos Gravissimos, que em Serviço da Patria, & das Nações Estranhas Escreve em Lingua Portugueza, & Latina, Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1707.
[35] Texto original: “[Observação LXXVII.] 7. Porèm se a dor de colica for intestinal, a que chamamos colica ordinaria, se a causa for fria, naõ há remedio mais excelente, que meter os pès em vinho fervido com alfazema quente, quanto se puder sofrer, & fomentar o ventre com óleo de alfazema, ou aplicar sobre o embigo huma cabeça de alhos assada bem quente, ou tomar meya oitava de pò de raiz de bicha, ou de calumba, ou de esterco de ratos, & melhor que tudo, huma oitava de pò de intestino de lobo, de que Pedro Pacheco (3.) diz milagres”. João Curvo Semedo, Observaçoens Medicas…, p. 457.
[36] Texto original: “Lobo. O pó do intestino, ou tripa deste animal, & o seu esterco tem maravilhosa virtude para curar as dores de colica, Obs. 77. pag. 457.”. João Curvo Semedo, Observaçoens Medicas…, p. 595.
[37] Wellington Silva Filho, “Semedo, João Curvo”. Em linha: https://doi.org/10.58277/GRLJ2435. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[38] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida Contra as Hostilidades da Morte, Lisboa: Oficina Ferreyrenciana, 1720.
[39] Wellington Silva Filho, “Semedo, João Curvo”. Em linha: https://doi.org/10.58277/GRLJ2435. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[40] Wellington Silva Filho, “Semedo, João Curvo”. Em linha: https://doi.org/10.58277/GRLJ2435. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[41] Texto original: “[Asthma se cura com os seguintes remedios.] Outro. […] Beber agua por hũa gola de lobo aproveytou a hũa asthamatica, chamada Maria Gonçalves, moradora na rua dos Fieis de Deos. Serve tambem para as faltas de respiração”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 57.
[42] Texto original: “[Diarrhea, se cura com os seguintes remedios.] O figado de lobo tomando huma colher delle pela manhãa he remedio excelente”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 206.
[43] Texto original: “[Disenteria, que sam camaras de sangue se curam com os remedios seguintes.] […] O figado do lobo posto de infuzam em vinagre fortíssimo por dous dias, & depois de secco no forno sobre uma telha, he remedio muyto recomendado por Authores gravíssimos”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 207.
[44] Texto original: “[Epilepsia, chamada gotta coral, se cura cõ os remedios seguintes.] O coração, ou figado do lobo he maravilhoso remedio para curar a gotta coral, por hũa virtude particular, & innata que tem para isto, & só este remedio tem mais virtude, que todos os vegetaveis juntos”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 227.
[45] Texto original: “[Os estercos de vários animais tem grandes virtudes.] O dos ratos feyto em pò, & dado em quantidade de huma oytava em tres onças de agua cosida com macella gallega, cura certissimamente as dores de colica. O esterco do lobo tem a mesma virtude”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 240.
[46] Texto original: “[Figado com dor, & inflammaçaõ.] Huma oytava de figado de lobo subtilmente polvorizado, & misturado com duas onças de vinho muyto brando, ou em agua quente, quando nam queyra o vinho, he remedio muyto experimentado para a fraqueza, & intemperanças do figado, & he muyto proveytozo para os hydropicos, para os que se vam emagrecendo muyto, & para as tosses”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 278.
[47] Texto original: “Gotta coral, & vagados [….] Dar aos que tem gotta coral, dous escropulos de pó de figado de lobo, he dos melhores remedios, que tem a Medicina para curar esta doença”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 333.
[48] Texto original: “Gotta coral, & vagados [….] Trazer ao longo da carne desde a nuca atè a rabadilha, huma tira da pelle, que cobre o lombo do lobo, he remedio, que cura os taes accidentes por virtude especifica, ou qualidade occulta”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 333.
[49] Texto original: “[Madre de que procedem accidentes uterinos, se curam bem com alguns dos remedios seguintes.] Aos accidentes uterinos chamão muytos Doutores Gotta coral da madre, Epylepsia ex útero […] & sendo isto assim, todos os remedios, que tiverem virtude especifica para curar a gotta coral da cabeça, pódem aproveytar para a gotta coral da madre, & do bofe, dareis pois em esta gotta coral da madre, o pó do figado do lobo em quantidade de oytava & meya misturado com tres onças de agua de sereyjas negras, ou de lírio convalium, & no cazo, que nas boticas não haja o figado de lobo, póde servir a agua de porco espim […]”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 403.
[50] Texto original: “Ventriculo taõ fraco, que gera muytos humores crus, se fortalece com os seguintes remedios. […] Poreis sobre o estâmago fraco, & falto de cozimento hum menino de dous ou tres mezes, ou hum cam, ou hum lobo nascido de quinze, ou vinte dias”. João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 666.
[51] D. Caetano de Santo António, Pharmacopea lusitana reformada. Methodo pratico de preparar os medicamentos na fórma galenica, & chimica, Lisboa: Mosteiro de São Vicente de Fora, 2.ª edição, 1711.
[52] D. Caetano de Santo António nasceu em Buarcos, na Figueira da Foz, em data até hoje desconhecida. Faleceu em 1730, ao que tudo indica no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Era cónego regrante de Santo Agostinho e foi boticário conventual, primeiro no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e, depois, no Mosteiro de São Vicente de Fora. Foi D. Caetano de Santo António quem traduziu a versão portuguesa da Farmacopeia Bateana de 1713, da autoria de George Bate (1608-1668), protomédico de Carlos II de Inglaterra (1630-r. 1660-1685). Leonardo Gonçalves Gomes, A Farmacopeia Tubalense…, p. 51.
[53] Texto original: “Pirolas pro colico morbo. Re Azebre bom impregnado cõ çumo de Rozas Persicas, & depois seco onças tres, Agarico bom onça hũa, & meya, Extracto de Rubarbo onça hũa. Figado de Lobo preparado oytavas seis. Simas de Losna onça meya, Diarrhodão Abbade, Sal de Losna, Nozes moscadas aná oytava hũa, & meya: com Xarope de Chicorea com Ruibarbo se faça massa. Ita Fredericus Hoffmanus lib. 2. cap. 83. de pilul. pag. mihi 149. Farse-há na fórma seguinte. O Azebre se pizará, & se lhe lançará em sima o que bastar de çumo de Rozas de Alexandria, & se porá a secar ao Sol, ou em cinzas quentes, & depois de seco se torne a pizar, & se lhe ajuntem mais çumo, & se faça o mesmo segunda, & terceyra vez, então se tomará delle a quãtidade, q̃ na receyta se pede, & se pizará sutil, & lhe lançaraõ a Losna, & Noz moscada em pó sutil, o Agarico se ralará, & o Figado de Lobo se farà em pô depois de preparado, & tanto q̃ tudo estiver misturado com o Diarrhodão, & Sal de Losna se fará massa com Xarope de Chicorea de Nicolao, & depois de bem malaxada se farâm madaleons, que se guardarâõ para o uso”. D. Caetano de Santo António, Pharmacopea Lusitana…, pp. 248-249. Ao longo da nossa pesquisa, não conseguimos encontrar uma definição específica sobre o que seria o “colico morbo”. A nossa principal crença é que seria “cólera morbo”, uma doença infeciosa causada pela bactéria Vibrio cholerae e cujos sintomas eram cólicas abdominais, diarreia e vómitos que provocavam uma desidratação aguda (“Cólera morbo”, Tesoro de los diccionarios históricos de la lengua española. Em linha: https://www.rae.es/tdhle/morbo. Consultado a 31 de outubro de 2025). O próprio autor não aborda esta doença mais nenhuma vez na sua obra, mas afirma, na p. 250, que “Servem as Pirolas pro colico morbo para purgar brandamente todos os humores, saõ muyto uteis em todas as colicas, principalmente nas que chamão Pictonicas”. Acreditamos que as “colicas pictonicas” seriam as “colica pictonum”, uma doença mortal cujos surtos eram muito frequentes e generalizados, existente na Europa desde a época romana até ao século XVIII. Os primeiros sintomas costumavam ser agitação, diarreia, dores de cabeça, fatiga, febre, insónias, letargia e perda de apetite. Nos estágios seguintes, caracterizava-se por obstipação completa e severa, normalmente associada à contração interna da região umbilical e a dores de cólica (Josef Eisinger, “Lead and Wine. Eberhard Gockel and the Colica Pictonum”, in Medical History, n.º 26, Cambridge, 1982, pp. 279-302).
[54] Jean Vigier, Pharmacopea Ulyssiponense, Galenica e Ghymica, Lisboa: Oficina de Pascoal da Sylva, 1716.
[55] Jean Vigier era natural de Espondeilhan, uma localidade francesa próxima de Béziers e Montpellier. Formou-se em França, em Boticária, e veio para Lisboa algures entre 1677 e 1682, onde começou por exercer o seu ofício juntamente com o seu tio, Pedro Donadieu, boticário da rainha D. Maria Francisca de Sabóia (1646-r. 1666-1683) e com reputação já estabelecida na cidade. Casou-se duas vezes: primeiro, com Maria dos Santos, com quem teve sete filhos e, mais tarde, com D. Francisca Teresa de Jesus, com quem teve outros três. Ao longo da sua carreira, Jean Vigier atingiu uma hierarquia socioprofissional e uma projeção e reputação diretamente relacionadas com o facto de ter sido uma figura fundamental no que diz respeito à introdução e consolidação da produção e venda de medicamentos químicos em Portugal. A ausência da concorrência de boticários e droguistas com as mesmas habilidades e mentalidade relativamente a esta área do conhecimento garantiram-lhe sucesso profissional e económico. As suas principais obras refletem tanto o cruzamento entre o admirável mundo novo dos compostos químicos e a divulgação de conhecimentos e práticas destinados ao reconhecimento, classificação e utilização de espécies de origem vegetal, como a influência do químico francês Nicolas Lémery (1645-1715), nomeadamente das obras Curso de Química (1675) e Farmacopeia Universal (1679). Wellington Silva Filho, “Vigier, João”, Dicionário Biográfico de Cientistas, Engenheiros e Médicos em Portugal. Em linha: https://doi.org/10.58277/DBDI3654. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[56] Texto original: “O intestino de lobo, & figado […] serve para cólica ventosa”. Jean Vigier, Pharmacopea Ulyssiponense…, p. 80.
[57] Jean Vigier, Pharmacopea Ulyssiponense…, p. 80. Não atribuímos nenhuma referência numérica a esta menção, porque o texto não é claro sobre as secundinas são ou não de loba. Este excerto está incluído num capítulo sobre a preparação dos pulmões da raposa e do fígado e dos intestinos do lobo, mas não se percebe ao certo sobre de que animal deveriam provir as secundinas. Poderiam ser da raposa, do lobo ou de ambos.
[58] Nasceu em Setúbal. Após ter estudado como aprendiz de boticário, recebeu a sua licença para exercer este ofício em 1707, em Lisboa, estabelecendo-se na Correaria, junto ao Convento dos Carmelitas Descalços. Leonardo Gonçalves Gomes, A Farmacopeia Tubalense…, p. 65.
[59] Manuel Rodrigues Coelho, Pharmacopea Tubalense Chimico-Galenica, Lisboa: Oficina de Antonio de Sousa da Sylva, 1735.
[60] Manuel Rodrigues Coelho, Pharmacopea Tubalense…, p. 331. Não vamos citar aqui o respetivo excerto de texto, como fizemos nas notas de rodapé anteriores, porque iremos citá-lo e analisá-lo na íntegra adiante, no corpo de texto.
[61] Leonardo Gonçalves Gomes, A Farmacopeia Tubalense…, p. 101.
[62] Porto, Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP), Ms. n.º 394 apud Eugénio Francisco dos Santos, “O Homem Português Perante a Doença no Século XVIII: Atitudes e Receituário”, in Revista da Faculdade de Letras, Vol. 1, n.º 1, Porto, 1984, pp. 187-201.
[63] Texto original: “Virtudes das tripas do lobo e do focinho delle […] As tripas do lobo hao de ser femea; serve para os homens e se tras amarrada na cintura sobre a carne e serve para Almorreymas e quando ellas apertão se coze hũa pequena da tripa e se dá a beber. Os focinhos do lobo servem para os homens que tem asma, dependurados ao pescoço, o focinho de lobo he para asma para as mulheres.”. Porto, BPMP, Ms. n.º 394 apud Eugénio Francisco dos Santos, “O Homem Português…”, p. 197.
[64] Texto original: “Para fazer parir logo. Carne de lobo tostada em hũa panella bem tapada ao fogo e depoys pizada e dada a quantidade de hum didal depois bebida em agoa ou vinho”. Porto, BPMP, Ms. n.º 394 apud Eugénio Francisco dos Santos, “O Homem Português…”, p. 198.
[65] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 666.
[66] Rafael Bluteau, Vocabulario Portuguez e Latino, Vol. IV, 1713, p. 148: “Focinho, ou Fucinho. A parte da cabeça dos animaes, que consta do nariz, & da bocca”.
[67] Francisco Álvares, José Domingues, Pablo Sierra e Pedro Primavera, “Cultural Dimension of Wolves in the Iberian Peninsula: Implications of Ethnozoology in Conservation Biology”, in Innovation: The European Journal of Social Science Research, Vol. 24, n.º 3, Londres, 2011, pp. 313-331. Este artigo tem um subcapítulo intitulado “The wolf as a creature with a healing power” (pp. 323-325), mas cuja cronologia se reporta quase maioritariamente ao século XX. No que concerne à “gola do lobo”, estes quatro investigadores registaram que, nos anos anteriores à publicação deste artigo, nalgumas regiões do norte de Portugal, ainda se utilizava uma parte de traqueia mumificada de um lobo morto para curar uma doença infeciosa conhecida nessa zona como “lobagueira”, e que afeta os porcos domésticos, deixando-os apáticos e anoréticos, esperando-os depois uma morte em agonia. Tradicionalmente, acredita-se que a origem desta doença é a “respiração nociva do lobo” que permanece no ar dos locais por onde os lobos passam, ou que deriva dos seus excrementos. A única maneira de curar esta doença, crê-se, é deitar água através da “gola do lobo” e dá-la de beber aos porcos doentes. Considerando a importância do porco na dieta e na economia rurais, a “gola de lobo” é considerada um bem muito precioso e guardada com muito cuidado, de modo a ficar protegida da luz solar e da humidade. Álvares, Domingues, Sierra e Primavera assinalaram o facto de as “golas de lobo” serem passadas de geração em geração, e algumas das que observaram nas suas pesquisas de campo eram usadas há mais de 100 anos.
[68] Gonçalo Rodrigues Cabreira, Compendio…, fl. 11v e Francisco Morato Roma, Luz da Medicina…, p. 370.
[69] João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 67.
[70] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 333.
[71] Wellington Silva Filho, “Semedo, João Curvo”. Em linha: https://doi.org/10.58277/GRLJ2435. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[72] João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 490.
[73] Porto, BPMP, Ms. n.º 394 apud Eugénio Francisco dos Santos, “O Homem Português…”, p. 198.
[74] João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, pp. 316-317.
[75] João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 325.
[76] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 240.
[77] João Curvo Semedo, Observaçoens Medicas…, p. 595.
[78] João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, p. 824.
[79] João Curvo Semedo, Observaçoens Medicas…, p. 457.
[80] João Curvo Semedo, Polyanthea Medicinal…, pp. 810 e 824.
[81] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 206.
[82] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 207.
[83] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 227.
[84] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 278.
[85] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 333.
[86] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 403.
[87] D. Caetano de Santo António, Pharmacopea Lusitana…, pp. 248-249.
[88] D. Caetano de Santo António, Pharmacopea Lusitana…, p. 249.
[89] Jean Vigier, Pharmacopea Ulyssiponense…, p. 80.
[90] Manuel Rodrigues Coelho, Pharmacopea Tubalense…, pp. 14-15. Não atribuímos uma referência numérica a esta menção pelo facto de não haver nenhuma menção ao potencial curativo de uma parte do corpo do lobo relativamente a um problema de saúde humana.
[91] Manuel Rodrigues Coelho, Pharmacopea Tubalense…, p. 35. Não atribuímos uma referência numérica a esta menção pelo mesmo motivo referido na nota anterior.
[92] Manuel Rodrigues Coelho, Pharmacopea Tubalense…, p. 331. Não atribuímos uma referência numérica a esta menção pelo mesmo motivo referido na nota anterior.
[93] D. Caetano de Santo António, Pharmacopea Lusitana…, p. 249.
[94] Nicolas Lémery, Pharmacopée universelle, contenant toutes les compositions de pharmacie qui sont en usage dans la médecine, tant en France que par toute l’Europe, Haia: em casa de P. Gosse et J. Neaulme, 4.ª edição, 1729, pp. 92-93.
[95] João Rui Pita e Ana Leonor Pereira, “A Arte Farmacêutica no Século XVIII…”, pp. 233-234.
[96] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 227.
[97] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 333.
[98] Jacques Jouanna, Greek Medicine from Hippocrates to Galen, Leiden: Brill, Coleção Studies in Ancient Medicine, vol. 40, 2012, pp. 337-338.
[99] Leonardo Gonçalves Gomes, “Animais que Curam…”, p. 11.
[100] De acordo com a definição proposta por Rafael Bluteau, popularmente, acreditava-se que a epilepsia era uma doença com origem no coração: “Gota corál. Assim chama o vulgo, o q̃ os Medicos chamaõ Epilepsia, por que imagina o vulgo, que a gota coral, he huma gota, que cahe sobre o coraçaõ. He uma convulsaõ de todo o corpo, e hũ recolhimento, ou attracçaõ dos nervos, com lesaõ do entendimento, & dos sentidos, que faz com que o doente caha de repente. Procede este acidente da abundancia dos humores phlematicos corruptos, que enchendo subitamente os ventrículos anteriores do cérebro, & recolhẽdose o cerebro para expulsalos, attrahe para si os nervos, & os musculos, & ficando o doente sem movimento, parece morto”. Rafael Bluteau, Vocabulario Portuguez e Latino, Vol. IV, 1713, p. 101.
[101] Vítor Dias da Costa, A Epilepsia. Contextualização Histórica, dissertação de mestrado integrado em Medicina apresentada à Universidade do Porto, Porto: Faculdade de Medicina da Universidade de Porto, 2014, p. 9.
[102] Rūta Mameniškienė, Kristijonas Puteikis e Jaime Carrizosa-Moog, “Saints, Demons, and Faith – A Review of the Historical Interaction Between Christianity and Epilepsy”, Epilepsy & Behavior, Vol. 135, Amesterdão, 2022. Em linha: https://doi.org/10.1016/j.yebeh.2022.108870. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[103] João Curvo Semedo, Atalaya da Vida…, p. 240.
[104] P. N. Singer, Matteo Martelli, and Lucia Raggetti, “Pharmacology: Texts, Theories, and Practice” in P. N. Singer e Ralph M. Rosen (eds.), The Oxford Handbook of Galen, Oxford: Oxford University Press, 2024, pp. 296-322 (pp. 303-304).
[105] Gerrit Bos, The Medical Works of Moses Maimonides: New English Translations Based on the Critical Editions of the Arabic Manuscripts, Leiden: Brill, 2021, p. 385.
[106] Kathleen Walker-Meikle, “Animals: Their Use and Meaning in Medieval Medicine”, in I. McCleery (ed.), A Cultural History of Medicine: Middle Ages (800-1450). Volume 2, Londres e Nova Iorque: Bloomsbury Academic, 2021. Em linha: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK576016/. Consultado em 31 de outubro de 2025.
[107] E. del Barrio Sanz, I. García Arribas, A. M. Moure Casas, L. A. Hernández Miguel, M. L. Arribas Hernáez (tradução e notas), Plinio, El Viejo. História Natural. Libros VII-XI. Volume 3, A. M. Moure Casas (org), Madrid: Editorial Gredos, 2003, p. 154, nota 153.
[108] Leonardo Gonçalves Gomes, “Animais que Curam…”, p. 2.
[109] João Rui Pita e Ana Leonor Pereira, “A Arte Farmacêutica no Século XVIII…”, P. 236
[110] Leonardo Gonçalves Gomes, A Farmacopeia Tubalense…, p. 110 e Eugénio Francisco dos Santos, “O Homem Português…”, p. 188.
[111] Leonardo Gonçalves Gomes, A Farmacopeia Tubalense…, p. 92.
