Vitor Amaral de Oliveira *
1.
A juntar aos muitos mistérios da curta vida de D. Sebastião, um dos não menos significativos são as palavras que se lhe atribuem, em comparação com as que efectivamente escreveu. O conjunto daria uma fornecida listagem, que pode resultar num bom complemento para justificar a sua personalidade, mas que não deixaria de ser uma aproximação virtual do já inefável retrato que a história se tem esforçado por fazer, comprovada pelas centenas de escritos sobre o rei na tentativa de o apanhar em flagrante de vida e de morte.
Na realidade, apôs a assinatura em dezenas de documentos oficiais, a que obrigava a qualidade de rei, já que o seu reinado foi um dos que mais leis, provisões e regimentos publicou. Tudo isso é do domínio do formalismo governativo, sem interesse para o que se propõe aqui. Não são muitas as possibilidades que temos de o apanhar em acto de escrita. Mas de sua própria mão, como referem os cronistas, pelo menos em cinco momentos, podemos surpreendê-lo a manifestar a sua opinião, sem relato de terceiros e que ajudam a compreender o seu carácter. Ainda criança, em idade pupilar, expressão de Duarte Nunes de Leão, conta José Pereira Baião, em 1737, retomando de Jerónimo de Mendonça na Jornada de África (1607) que, para treinar a escrita, escreveu: Em sendo grande quero ir conquistar a África, o que lhe valeu uma reprimenda do Pe. Luís Gonçalves da Câmara (J. de Mendonça) ou de D. Miguel de Meneses (Baião), ambos presentes na câmara do rei naquele momento. Em outra altura, ainda menino, a D. Maria de Meneses. no dia em que esta fazia a profissão para freira no convento da Madre de Deus, lhe disse que pedisse a Deus que o fizesse seu capitão (Jerónimo de Mendonça), o que corresponde ao que por sua mão escreveu antes de tomar governo, com catorze anos, em uma Memória, em trinta e sete pontos, que representam o que se poderia chamar hoje de programa de governo, onde expressa o seu pio e santo zelo (José Pereira Baião): Trabalharei muito por dilatar a Fé de Cristo e que se convertam todos os infiéis. E, ao mesmo tempo, compromete-se com os seus súbditos para uma boa governação. Mais tarde, agastado pela insistência com que queriam impor-lhe o casamento com Margarida de Valois, entrega a Martim Gonçalves da Câmara, Escrivão da Puridade, para a ler no Conselho de Estado que se ia realizar a propósito do assunto, uma resposta escrita negativa e firme, que Diogo Barbosa Machado reproduz (1737): Pelo reino porei a vida muitas vezes, e pela honra e pela fé porei honra e vida e tudo. E pelo proveito do reino e meu não porei a honra do reino e minha, pois este foi o caminho dos reis que a ganharam. Hoje, Domingo 18 de Setembro de 1569. A última vez em que lemos um escrito da sua mão, é o longo e complicado texto da Relação da primeira jornada que fez a África no ano de 1574. Depois de muitas considerações técnicas sobre marinharia e táctica de batalha, deixa nas últimas linhas uma expressão de sensibilidade e de alguma serenidade na agitação do seu fervor guerreiro e desinquieto:
Pondo-me a cavalo fui ao Mosteiro do Cabo de S. Vicente, que está na ponta da terra do Cabo, tão estranho, fermoso e grave, como realçado, entendido, e celebrado dos mortos vivos que foram, e mais aprovado, engrandecido, e lembrado de ser ignorado dos vivos mortos, que de serem indignos dele, o não hão podido entender, nem compreender, onde estive nove, ou dez dias só com dois Oficiais meus, vendo a vista das manhãs e tardes, dias, e noites, e o muito que se nelas viam daquele grande porto, e sítio, vendo nascer o Sol no Oriente do Horizonte no mar, e seu ocaso no Ocidente por o horizonte no mesmo mar, que é estranha vista, e rara, donde se vêem duas costas, e dois mares, demandado este Cabo de todos os navios que navegam de Levante a Ponente.
Pelas crónicas sabemos igualmente a sua ligação a S. Sebastião, de quem tomou o nome e o desejo que manifestou ao Papa S. Pio V que lhe enviasse uma seta do mártir. Por morte daquele, só o seu sucessor, Gregório XIII, concretizou a oferta, que chegou a Lisboa a 6 de Fevereiro de 1574. Este acto de extrema deferência papal proporcionou-lhe o ensejo de reformar as três Ordens Militares e de criar uma nova: Ordenei para esta nova Ordem, que tenho assentado que se chame a Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e divisa de S. Sebastião, pela Seta que com a mesma cruz ao pé dela trago. (BN: cod. 887, fl. 158r-158v.), que se extinguiu com a sua morte. A notícia da chegada da relíquia foi recebida em Almeirim, onde então residia a corte, e Camões, partilhando da euforia, deixou mencionado este acontecimento em uma das suas oitavas:
Tomai também a seta veneranda
que a vós o sucessor de Pedro manda.


A única indicação que existe da instituição da ordem acha-se na igreja de S. Vicente de Fora, onde pelos frisos há frechas cruzadas, postas em aspa. O templo é obra filipina por excelência, no desejo logo manifestado por Filipe II de substituir a igreja meio construída no Terreiro do Paço, em invocação a S. Sebastião, por um templo conventual que responderia às obras ordenadas nos paços da Ribeira. E que, Rei de uma nova dinastia estrangeira, ele quis sobrepor às casas fundadas logo após a reconquista cristã, sempre dedicado a S. Vicente, patrono da cidade, juntando-se-lhe agora a invocação do rei morto em Alcácer Quibir, a quem ele, Filipe, devia a coroa herdada – o sistema dos símbolos reais organiza-se numa necessária coerência política (José-Augusto França, 2008). Também aparece em algumas moedas, nomeadamente na moeda de 1000 Reais, vulgarmente conhecida como S. Vicente. Está também certificado que usou na cunhagem de moedas de circulação, duas inscrições latinas: In hoc signo vinces, divisa não exclusiva sua, usada pelo avô e comum em anverso de moedas de diferentes reinados, nomeadamente no Engenhoso que revolucionou a nova técnica de fabrico contra falsificações, cunhado a partir de 1562, e Zelator fidei usque ad mortem, inscrita no S. Vicente que já vinha de D. João III e passou a ser cunhado com o nome de D. Sebastião, a partir de 4 de Fevereiro de 1558.


No manuscrito do Livro das escrituras da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo mandado fazer por D. Sebastião ao Dr. Pedro Álvares Seco do seu desembargo e cavaleiro professo da Ordem de Cristo (1560-1568) a capa tem representadas duas setas de ponta para baixo ladeando o brasão de armas de Portugal, e na bordadura a inscrição latina que lhes faz referência: Sagitæ tuæ acutæ populi sub te cadent in corda inimicorum regis (As tuas setas pontiagudas, nos povos sob o teu domínio, caem no coração dos inimigos do rei).


2.
No entanto, tem sido atribuída a D. Sebastião uma divisa e uma imagética de sete estrelas, lua em Crescente sobre mar calmo e peixe conchavado, e palavras um tanto enigmáticas que alguns traduzem com as ideias do favorecimento dos excelsos e serenos. É uma empresa um tanto sinergética, nos seus dois substantivos bastante adjectivados, ligados por um verbo intransitivo e, sobretudo, muito energética.
3.
Emblema, empresa ou divisa é a associação de uma imagem com uma legenda, que representa uma ideia ou um conceito que defina o seu possuidor. De grande voga nos séculos XVI e XVII, designaram-se emblemas, cada um dos conjuntos constituídos por uma imagem enigmática acompanhada por uma frase que ajudava a decifrar um sentido oculto moral, explicado por um texto em verso ou em prosa e que alguns autores usaram também com objectivos didácticos, de entretenimento ou até de deleite visual, o que originou centenas de publicações por toda a Europa.[1] Em Portugal são conhecidas as divisas que D. Filipa de Lencastre introduziu na corte e que alguns representantes da dinastia de Avis adoptaram. As mais conhecidas são a do rei D. João I, Pour bien, ou Por Bem, como está exarada na Sala da Pegas do Palácio da Vila de Sintra, a do Infante D. Henrique, Talant de bien faire, ou de D. João II, Pela Lei e Pela Grei, que embelezam os respectivos túmulos no Mosteiro da Batalha.
Ora, percorrendo os textos manuscritos e as crónicas publicadas relativas a D. Sebastião, desde Miguel Pereira (1584) até 1677, em português, francês, espanhol e italiano, sabemo-lo a manifestar os seus desígnios religiosos e guerreiros, mas nada de plasmar isso em empresa que o explicasse, nunca descortinamos qualquer letra de divisa que o rei Desejado tenha definido, escolhido ou usado, mesmo quando viria a propósito, o que levanta sérias dúvidas sobre a autenticidade da atribuição.
4.
No entanto, no estrangeiro não faltam exemplos de vários autores que associam D. Sebastião a uma empresa específica. Em 1656, o capuchinho Marcelino de Pisa publicava a Moralis Encyclopædia. Na ordem por que o conhecemos hoje, cita o possível símbolo do rei português, a propósito da moralidade que queria introduzir:
Veja-se Agostinho. A carne humana, com a qual estava sujeito ao pecado, quando morreu, foi unida à carne limpa daquele, incorporada, feita uma só com ele, vive do seu espírito, como o corpo do seu próprio espírito. Aquele que não é do corpo de Cristo não vive do espírito de Cristo. Tu tens um corpo, um Espírito e um Símbolo que melhor se adapta à constelação da Spica Virgo e à aura de Favónio. Tempos atrás, Sebastião, rei da Lusitânia, quando estava prestes a travar a guerra contra os Mouros, utilizou este símbolo no seu brasão: CELSA SERENA FAVENT. Sente-te mais animado com este Símbolo, ao aproximar-te do altar. Aí está a estrela Spica Virgo, bem vermelha e cintilante. Vai em paz com esta luz que brilha para ti, diz Favónio: CELSA SERENA FAVENT, mas lembra-te que o Sagrado só é dado aos Santos, e negado às origens, daí a frase: Pão vivo torna-se divino para os sãos, para os maus é mortal, ele que para os outros é vital.[2]
Esta explicação justificaria a atribuição deste lema a D. Sebastião, pois o autor afirma que o rei utilizou o Símbolo no brasão. Mas depressa se descobre a origem da informação, pois Marcelino de Pisa anota à margem: Ex Symbolis Typotius. Deste modo, por esta marginália retrocedemos a onde tudo começou, e chegamos a Sadeler/Typot nos Symbola Divina et Humana, de 1600/1601, como se verá.
Em 1601 em plena euforia dos Emblema, Symbola, Sylloge, Iconologia, Vrais Portraits, (que o nosso Pedro de Mariz, em 1594, também seguiu, ao publicar os mais verdadeiros retratos que se puderam achar) moda que alastrou e originou centenas de publicações nos séculos XVI e XVII, na esteira de Andrea Alciato e Cesare Ripa, os inauguradores do género, Egídio Sadeler (c. 1570-1629), pintor e gravurista flamengo,publicava em 1600, em Praga, onde vivia, Symbola divina et humana pontificum, imperatorum, regum (pp. [113]-[115]). É o primeiro aparecimento da atribuída empresa a D. Sebastião, juntamente com outros reis. Ainda incompleta, pois esta edição apresentava somente as gravuras e a inscriptio, sem comentário, não cumprindo o cânone do conjunto, usualmente tripartido em lema (inscriptio), imagem (pictura) e comentário (subscriptio) na sua estrutura formal. Só no ano seguinte seriam as imagens completadas com uma breve e fácil isagoge pelo humanista flamengo Jacob Typot ou Jacques Typoets (1540-1601), em três volumes, novamente editadas em Praga. No Prólogo ao leitor, ao apresentar a obra, Sadeler/Typot traçavam as linhas que guiam a leitura dos emblemas:
Usai e desfrutai [estas imagens], não as contempleis apenas. Pois, se reflectirdes um pouco mais profundamente, vereis que não são tanto os olhos que se alimentam, mas sim o espírito, como acontece com aqueles grandes homens que, por sua brilhante concisão, superam grandezas mais imponentes. Eles cativam o espírito completamente, mas, tendo dissipado as trevas do erro, imbuem-no de verdadeira piedade e virtude comum. É por isso que não vos recomendo aqueles que, à primeira vista, vos sorriem e que, com um simples olhar, conquistam a alma com amor sincero, pois não podem, por sua própria natureza, agradar a espíritos honestos.[3]
Nestas palavras não andam longe do que dizia Alciato, nos Emblematum libellus, em 1534:
Nos meus momentos de ócio, forjei estes emblemas, símbolos criados pela ilustre mão dos artífices, para que qualquer um possa pregá-los nas vestes como acessórios e nos chapéus como insígnias, e assim escrever com signos mudos [4]
Emblemata cudimos (cudere, forjar, cunhar) é a expressão de Alciato para explicar a génese da feitura dos Emblemas criados pela ilustre mão dos artífices. Typot afirma que reúne e interpreta, qua ego contraxi (contrahere, reunir, assumir), a partir das gravuras abertas por Sadeler. Estes dois verbos sustentam a base em que se funda a glosa ou descriptio que acompanha o Emblema ou, no caso que nos interessa, a Empresa. Se a isso juntarmos a inspiração, quase sempre retirada dos antigos, da poesia clássica, da mitologia ou de acontecimentos políticos contemporâneos da pessoa visada, facilmente se conclui que ambos, Emblemas e Empresas, são fruto da imaginação dos autores, com fins de criação de signos mudos (Alciato), ou para imbuir a verdadeira piedade, ou fazer florescer a virtude (Typot).
Mas não é preciso deduzir ou elucubrar sobre a origem destas colectâneas de empresas. O próprio Sadeler se encarrega de dar a explicação, dirigindo-se ao leitor:
Não me enganou o meu julgamento sobre a vossa opinião. Assim, os Símbolos que interpretei e juntei num livro, com tanto zelo e cuidado, são variados. Mas como haverá muitos que, ao olhá-los, desejem saber o que vêem, e nem sempre têm acesso ao que procuram, reuni-os, não para servir o interesse de alguns, mas os interesses e desejos respeitáveis de todos. Porque lhes acrescentei a isagoge, para que possais sempre tê-los junto com os mistérios do Mistagogo, e ao mesmo tempo entendais que a vossa benevolência é mais importante para mim do que o proveito que eu possa ter.[5]
Assim, Sadeler/Typot, em 1600 e 1601, fazem a Hierographia Regum Portugalliae a onze reis das primeira e segunda dinastias. Na obra Symbola divina et humana pontificum, imperatorum, regum, atribuem lemas aos quatro últimos reis da primeira (D. Afonso III, D. Afonso IV, D. Pedro e D. Fernando) e a todos os reis da segunda, à excepção de D. Afonso V, e “descobrem” um rei na pessoa do Navegador, guindando o Infante a Rei D. Henrique I, rei de Portugal que começou a navegar pelas costas de África. Ora, para construir o conjunto dos onze reis a quem atribuem empresas, bastaria, relativamente aos monarcas da segunda dinastia, conhecer as divisas inscritas nos respectivos túmulos na Batalha e sobre eles dissertar sem invenção. Mas não foi esse o caso. Typot, sempre baseado na antiguidade clássica, e, na verdade, em alguns factos do tempo dos reis a quem atribui os lemas descritos nas imagens de Sadeler, faz uma interpretação espúria, em isagoge breve, sim, mas de compreensão nada fácil, ao contrário do que preconizava. Acertou unicamente na de D. João III, In hoc signo vinces, aliás, repetida por vários monarcas. São, pois, as seguintes, as empresas atribuídas – ou inventadas – aos onze reis e ao Infante D. Henrique, por Sadeler/Typot, não incluindo, por agora, a de D. Sebastião:

D. Afonso IV, VELUM VENTIS (Vela do vento)


D. Fernando, CUR NON UTRUMQUE (Porque não ambos)


D. Manuel, PRIMUS CIRCUM DEDISTI ME (Tu me deste a primeira circum-navegação)[6]


Henrique I [Infante D. Henrique], PERRENNITAS LAUDIS (Persistência de louvar)


D. João III, IN HOC SIGNO VINCES (Por este sinal vencerás)



Por esta primeira abordagem se verifica já a fecunda e fértil imaginação dos autores. Das imagens se infere como, a partir de um pequeno pormenor na história da personagem, se construiu uma representação exuberante de sentido, que a descrição muitas vezes transcende. Pelo Lema e a Pictura aqui mostradas se percebe como estas vastas colecções de emblemas e símbolos não têm como objectivo uma verdade histórica, mas um sentido moral, uma preocupação didáctica, muitas vezes a repetição das virtudes elogiadas. A descriptio, que serve como declaração do significado, ou argumento, usa várias fontes clássicas, mitologia, por vezes eventos políticos, como no caso de D. Sebastião a relação do significado do desenho com a morte na batalha contra o rei de Fez, como é assim designado o oponente contra o qual o rei combatia, tomando a parte pelo todo. Não cabe aqui citar todas as descrições de Jacob Typot repetidas por todos os autores subsequentes. De modo geral, sempre que há representação de animais, é Plínio, o Velho, a fonte de inspiração na sua Historia Naturalis, vasto compêndio das ciências antigas distribuído em trinta e sete volumes:
O menor caranguejo de todos é conhecido como pinnotheres, e, portanto, está particularmente exposto ao perigo. A sua astúcia, no entanto, é evidenciada por se esconder na concha da ostra; e à medida que cresce, move-se para as de tamanho maior. (Livro IX, cap. XLII).
É o caso de D. Sebastião e da sua “Empresa” na qual nos centraremos. Por isso, se cita a descriptio que acompanha a imagem:


Pina é do género Pinna das Conchas de Plínio, ou melhor, de Aristóteles, de quem aquele quase copia a descrição. Nasce no lodo, sempre coberto, e nunca sem companhia. É um camarão pequeno, chamado Caranguejo por Plínio. Mas vejo a Concha: e apresentada desta forma diferente e, por assim dizer, deformada. Pois é verdade que se o caranguejo aqui, ou o camarão, é assim chamado por Cícero, e não só por Plínio, por uma questão de comida, entra em companhia, com a Concha, como se vê, parecendo um leque. E Sebastião, Rei de Portugal, não por necessidade de comida, mas por alguma outra causa, quis fazer um tratado com o rei de Fez. Isto conjecturo eu a partir de Hierógliptos, através dos quais revi estes dois comentários antigos. Como não me engana a mim nem a ninguém, sigo a opinião de Aristóteles, tal como os príncipes e estados da liga, para aproveitarem as suas vantagens. Mas nem sempre enganamos os outros, como quando obtemos prazer ou vantagem nos conselhos. Muitas vezes enganamo-nos a nós próprios. Daí o resultado trágico da guerra. Vê-se Septentrião. Ninguém ignora que as conchas são cheias e esvaziadas pela lua. Se o jovem rei tivesse sabido, a causa do bom presságio teria sido a lua cheia. Por isso, quando quis aumentar o seu poder e alargar o império, perdeu a vida e o reino. Vejo que a Lua crescente também é causa de bom presságio. Mas nem ela estava tão serena e altiva para favorecer os conselhos, quanto as forças do cometa reluzente eram opostas.[7]
Salomon Neugebauer (1574-1625?), autor prussiano, foi reitor do Gymnasium calvinista polaco de Kock, e guia e preceptor dos filhos de seu mentor Andrés Firlej, dono dessa escola. Apaixonado por Geografia e História, realizou uma viagem pela Europa com os seus pupilos. Em 1619, fruto desse entusiasmo pela historiografia, mas também em momento em que está a germinar o futuro império prussiano, publica em Frankfurt o livro de emblemas Selectorum Symbolorum Heroicorum Centuria Gemina Enotata Atque enodata. É um livro ilustrado, com imagens e para fins didácticos, que exercia uma óptima força de propaganda para incutir valores na escola, morais e humanos, e servia igualmente para decantar a visão histórica de uma cultura e de um povo.[8]
Neugebauer recupera apenas sete dos emblemas atribuídos a reis portugueses, deixa de fora os reis da primeira dinastia desenhados e descritos por Sadeler/Typot. Insiste na atribuição ao “rei” Infante D. Henrique, que, como os autores anteriores, apoda de Henrique I, conservando o mesmo lema e desenho. No entanto, comprovando a forma aleatória como eram escolhidas e atribuídas, nesta publicação de Neugebauer as empresas de D. João I e de D. João II são completamente diferentes das de Sadeler:




De D. Sebastião conserva a mesma forma, embora com novo traço. Perturbado pelo aparente erro do verbo faveo, intransitivo, corrige a primeira palavra do lema para o dativo, Serenis. E também melhora a descriptio, tornando-a mais clara e legível:
Ergue-se uma concha sobre o mar, e abaixo um peixe inteiro. Sobre a concha, uma lua com estrelas sob uma inscrição simbólica: SERENIS CELSA FAVENT. É prova de feliz presságio, pois a Lua em crescente parece prever o aumento do reino do jovem rei, que, embora desejasse alargar o império, perdeu a vida e o reino.Daqui pode ter surgido um símbolo, retirado da História Natural, segundo diz um escritor reputado sobre a concha: a companhia do céu é maior do que a do mar, pois nublado traz o escuro, ou, pela claridade da manhã, a serenidade: assim, por Deus se alegram os céus, para que o sol fique vermelho e luminoso, ou pereçam, como o corpo humano.[9]
A gravura inserta em Neugebauer parece seguir o original de Sadeler, embora se lhe reconheça outro traço. Repete até o mesmo erro que é a representação da Lua em minguante, enquanto o texto da glosa refere em ambos a lua em crescente, para além da correcção de Serenis, já referida anteriormente. Uma coisa o autor prussiano aproveitou e reproduziu da anterior: a legenda da gravura que indica o destinatário: Sebastianus Posthumus, Rex Portugalliæ, que em Sadeler/Typot, é confirmada com a informação: Sebastião póstumo, Rei de Portugal, morto em África pelo rei de Fez.


Estes dois autores têm como objectivo a “empresa” ou como indicam nos respectivos títulos, o Symbolo que acompanha cada personagem que descrevem, mas ambos, pela legenda da gravura, indicam que ela é dirigida a D. Sebastião póstumo. Para os outros é assumida a morte, como é evidente, mas para este rei em particular, tiveram a necessidade de acrescentar o adjectivo, pois é ao facto histórico ligado ao rei e à sua repercussão europeia, que a empresa é dirigida. Na verdade, não tinha decorrido muito tempo desde o infausto acontecimento, de que ambos os autores estavam mais bem informados do que para a historiografia dos outros reis.
5.
Mas em Portugal, é a partir de 1680, no volume III da Europa Portuguesa, que há conhecimento da enigmática frase atribuída a D. Sebastião. Pedro de Faria e Sousa empreendeu a reedição do livro de seu pai, o erudito polígrafo Manuel de Faria e Sousa, que apelidava Camões ternamente, com um misto de reverência e de convivência exegética, mi poeta. Chamou-lhe abusivamente Segunda edición, quando, na realidade, se trata de uma edição, correta, ilustrada y añadida en tantos lugares y con tales ventajas, que es labor nueva. Na verdade, a primeira edição, em 1628, ainda em vida do autor, com o modesto título de Epitome de las historias portuguesas, e publicada em Madrid, conhecera duas edições póstumas em 1674 e 1677, em dois volumes, e surgia agora em três volumes, em aparato de in-folio com datas de 1678 a 1680, com o título mais soante de Europa Portuguesa, ornada de belas gravuras de Pedro Perret. Sob a gravura de D. Sebastião colocou a respectiva Empresa com as palavras CELSA SERENA FAVENT. Para a sua nova edição, Pedro de Faria e Sousa mandou acrescentar como complemento valorativo, as Empresas de apenas onze reis até D. Henrique, que fora buscar a Sadeler/Typot. A série da História portuguesa dos Faria e Sousa culminaria com as magníficas edições de Francisco Foppens e de Juan Bautista Verdussen, de Bruxelas e de Antuérpia, no mesmo ano de 1730. Com o retumbante título de Historia del Reyno de Portugal, acrescentadas com os últimos quatro reis até àquela data e muitos notas sobre a geografia e otras cosas curiosas del dicho reyno, em magníficos in-folios joaninos, mereceu bem a classificação de nueva edición. Com gravuras dos reis em corpo inteiro, agora abertas por Johannes Moll e François Harrewijn eram um bom cartão de visita para dar a conhecer Portugal, a sua História e igualmente a grandeza do reinado de D. João V. Mas perdeu novamente a inclusão das empresas da edição anterior, que o original e as reedições de Manuel de Faria e Sousa também não referiam, ausência que se repetiria nas sete obras seguintes que incluem o reinado de D. Sebastião, até 1785. Apenas uma excepção: António Caetano de Sousa publicava em 1735-1749 a monumental História Genealógica da Casa Real Portuguesa e insere as empresas de onze reis, que reproduz da edição de Pedro de Faria e Sousa, embora refazendo, pela pena de Debrie, algumas das imagens que acompanham o lema. É, pois, por estes dois autores, mais declaradamente o primeiro, que se conhece em Portugal a empresa atribuída a D. Sebastião, assim definida: Por Empresa unas estrellas con la letra CELSA SERENA FAVENT. O lema surge por cima de oito estrelas, colocadas em duas fieiras de quatro.[10]
Esta frase jamais foi traduzida, sendo aceite tal qual por todos os que a referem e se contentam em reproduzi-la. Ora, a origem dela não pode provir do rei, pelo facto empírico que já apontei de ser citada e atribuída a D. Sebastião, por dois autores portugueses apenas, durante um período de cem anos, entre 1578 e 1680. E como vimos atrás, há rasto da putativa Empresa desde 1601, em obras a que Pedro de Faria e Sousa recorreu para mostrar algo que nunca nenhuma obra portuguesa histórica referira a propósito de D. Sebastião.
6.
Daqui se parte para outro mistério que tentaremos desvendar: a existência de uma medalha de 46 milímetros de diâmetro e 4 milímetros de espessura, n.º Inv. PDVV8109, n.º de ordem 5, colecção D. Luís, assim designada: Medalha dedicada ao rei D. Sebasteão, em bronze, datada de 1570. E, por indicação expressa do próprio Palácio, nada mais consta na ficha de inventário.
É, por isso, um pouco mais difícil rastrear o percurso da medalha até ao Palácio Ducal de Vila Viçosa, onde se encontra, do que descobrir-lhe a origem. Em 1620, Johann Jacob Luck (1574-1653), apaixonado numismata e genealogista, dono de uma colecção notável de vários milhares de medalhas e moedas, publica Sylloge numismatum elegantiorum quæ diversi Imp. Reg. Prin. Comit. Respubblicæ diversas ob causas ab anno 1500 ad annum usque 1600. E é nesta obra que, pela primeira vez, aparece esta imagem e lema ao lado de outra gravura de igual tamanho que representa D. Sebastião, delineado pelo gravador e pintor em miniatura alemão Friedrich Brentel (1580-1651).[11] A gravura do rei no anverso é acompanhada pela inscrição em dupla linha SEBASTIANVS D. G. REX PORTUGALLIÆ ARABIÆ INDIÆ ET AFRICÆ ANNO ÆTATIS XVI. E, notando o erro, na imagem da direita, coloca a lua na posição certa de quarto crescente, de acordo com o texto dos anteriores autores, e, do mesmo modo, o peixe e a concha aparecem na posição inversa.[12]


A legenda da gravura indica, mais uma vez, que se trata do rei de Portugal morto em África: Do Rei de Portugal que participou na infeliz expedição em África no ano de Cristo de 1578.
Parte das medalhas publicadas neste trabalho estavam na coleção de Luck, outras são reproduzidas da obra anterior Symbola divina et humana de Jacob Typot. Algumas delas parecem ser híbridas: o anverso é reproduzido corretamente, mas é pareado com um reverso que pertenceu a outra moeda ou medalha, ou às vezes nunca existiu.[13]
O lado esquerdo da gravura apresenta, pois, uma imagem do rei D. Sebastião, três quartos à direita, de gibão, gola alta, com ombros tufados, a mão esquerda aberta sobre o peito, a direita, apoiada sobre uma mesa, segura um par de luvas. Na mesma mesa, um livro fechado (Breviário ou Missal) e junto deste, muito próximo uma esfera armilar com base e pé. Por esta representação se depreende a origem da inspiração: a imagem impressa por Hieronymus Cock, em 1561, e muito provavelmente da autoria de Frans Huys, do rei menino com sete anos. A bordadura oval inclui a mesma descrição que envolve a figura de D. Sebastião no desenho de Friedrich Brentel, publicado por Luck. A diferença notória é a data, que em Cock está explícita, 1561, e em Luck é substituída pela expressão ANNOS ÆTATIS XVI, mostrando por isso um D. Sebastião com mais nove anos. O que nos leva à representação da personagem, sob dois aspectos, formal, um, outro, de conteúdo. Enquanto na gravura de Cock o rei está representado a três quartos à esquerda com a mão direita sobre o peito, em Luck está ao contrário. Os adereços repetem-se. Mas a figura do rei também é diferente, tentando aparentar uma personagem mais velha. Ora a alteração da data na idade quer significar isso mesmo, fazendo-o mais próximo da fatal batalha, que expressamente se explicita na legenda, e em momento em que historicamente já se pensava na possível ajuda de D. Sebastião para participar na luta contra o Turco, justificando assim o motivo da “empresa”. Aliás, o texto que acompanha o desenho, para além da descriptio rápida, explicando a concha e o caranguejo e a relação céu e mar, é uma descrição sucinta do desenrolar da batalha e da morte do rei vencido pelo rei de Fez. Todo o conjunto se inclui numa intenção de organização das moedas e medalhas da colecção de Luck, que tem como etiqueta Numi Castrenses (medalhas de Militária, como agora se designaria). E o que sugere a sua representação em duas faces é que se trata efetivamente do desenho para uma medalha. E é igualmente a única referência a reis portugueses, isolada do conjunto reunido pelos autores anteriores. Em todas as referências é sempre anotada a sua raridade, que deve ser inegável. E podemos deduzir o seu percurso até chegar ao conhecimento do rei D. Luís que a adquiriu. Devido à quantidade de ilustrações, os custos da impressão da obra – sumptibus ipsis authoris, como figura no frontispício – foram tão altos que Luck se endividou e teve que vender a sua coleção de numismática em 1628. Foi comprada por Catarina da Suécia, e parte dela – após uma série de vicissitudes pouco claras – pode estar agora no Cabinet des Médailles em Paris. Algumas terão certamente ido parar às mãos de colecionadores particulares por diversos meios. Conjecturalmente se, mais tarde, já no século XIX, esta medalha em particular apareceu à venda, é muito provável que o rei português não tenha deixado fugir a oportunidade de adquirir uma rara peça que se referia expressamente a um rei de Portugal e assim enriquecer a sua vasta colecção de moedas e medalhas. A montante, é mais fácil admitir que não foi difícil a Johann Jacob Luck propor a Friedrich Brentel (1580-1651) que completasse a imagem da atribuída empresa de Sadeler/Typot a D. Sebastião com a efígie do mesmo rei. Frans Huys, outro gravador importante, era certamente conhecido, já que trabalhava em Antuérpia com Hieronymus Cock (1510-1570), proeminente divulgador da gravura da Alta Renascença, sobretudo italiana, pintor e gravador a água forte, célebre e muito conhecido nos meios da gravura na Europa, como editor e distribuidor dos trabalhos dos Mestres da gravura. E não foi, pois, difícil encontrar uma fonte de inspiração, já que o único retrato do natural aberto em gravura é o de Frans Huys, impresso por Cock. A imagem é bem diferente. Para além da indicação do rei ter dezasseis anos, e, portanto, figurar-se mais velho, a sua representação perdeu a elegância do traço de Huys, mostra um D. Sebastião papudo, com cabelo mais tufado, um pouco por cima das orelhas e um fácies que perdeu a gravidade notada em todos os retratos feitos em vida do rei. Além disso, Brentel não denota a finura do entalhe de Cock.


Não é arriscado provar como em 1620, talvez um pouco antes, Johann Jacob Luck chegou até Brentel e como este chegou até Hieronymus Cock. Friedrich Brentel era alemão, da Baviera, mas em 1601 mudou-se para Estrasburgo, onde viveria até ao fim da vida. Certamente se deslocou a Antuérpia, embora nesse mesmo ano de 1601, tivesse fechado a editora Aux Quatre Vents, que depois da morte de Cock, em 1570, a sua viúva manteve até morrer, e onde o gravador e editor se tornara famoso. Brentel teve certamente contacto se não ainda com a editora, pelo menos com a obra que aí se produziu. E chegar até à delineação de D. Sebastião também é facilmente explicável. Com Hieronymus Cock trabalharam grandes mestres da gravura, nomeadamente Frans Huys, já referido, que gravou Carlos V, duas vezes, Catarina de Áustria, D. Carlos e cinco vezes Filipe II. E terá gravado D. Sebastião com sete anos, em 1561, mas, tendo falecido no ano seguinte, é provável que o retrato incompleto tenha sido acabado por Cock. O Rijks Museum a ele o atribui e pelas assinaturas se pode provar a autoria de Huys, pois pelo menos as que dizem respeito às cortes ibéricas mostram sempre as assinaturas F. H. / COCK EXCV ou EXCVDEBAT, e na gravura de D. Sebastião apenas COCK EX, talvez por ter sido publicada depois da morte de Huys. O interesse de Cock pela Península Ibérica não é inédito. Um dos gravadores que trabalharam na sua editora foi Cornelis Galle (1576-1650), o mesmo que abriu as gravuras dos reis de Portugal na obra do Pe. António Vasconcelos, Anacephaleoses, id est, Summa Capita Actorum Regum Lusitaniæ, editada em Antuérpia em 1621.[14] Assim se fecha o círculo de uma criativa empresa de D. Sebastião, de Sadeler/Typot (1602), transformada agora em reverso de medalha (1620) com o anverso reproduzindo o rei, adulterado de uma imagem do natural, de Frans Huys (1561).
Embora ainda sem prova evidente, não é arrojado atribuir a medalha de bronze que se conhece da colecção D. Luís e que esteve exposta na XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, em Lisboa, em 1983,[15] não a autoria, mas a encomenda do próprio Luck, única medalha de rei português que faltaria na sua colecção e que, além disso, era relativa a um acontecimento importante na história da Europa. D. António, protagonista de outro facto relevante, surge apenas como retrato, pois lhe falta o reverso de medalha deixado em branco. Legenda que acompanha a imagem: António, rei eleito da Lusitânia: empreendeu a infeliz expedição contra Filipe da Hispania, Rei de Portugal, no ano de Cristo de 1582 (p. 287).





A medalha, em bronze, de 46mm de diâmetro, recupera a gravura de Sadeler, mas repõe a posição lógica do desenho, com a Lua em quarto crescente, mostrando, pois, o desenho ao contrário. A imagem do rei pretende ser a que surge no desenho inserto na Silloge numismatum, de 1620. No entanto, é uma gravação tosca e imperfeita. Os apontamentos do guarda-roupa são idênticos, os adereços igualmente, mas o traço é rude.
O que mais destoa é a cara do rei. Repete o cabelo tufado, agora nitidamente por cima das orelhas, a posição deixa de ser à esquerda, como em Frans Huys, nem à direita como no desenho encomendado por Luck, mas situa-se agora de frente, com uma cara larga, com graves defeitos de moldagem na boca e no nariz, a mão esquerda disforme de comprimento sobre o peito, os braços mal delineados e uma evidência notória dos ombros tufados, quase como dragonas. No reverso, para além da concha em grande plano, motivo principal da invenção de Sadeler, tudo o resto é difuso e de difícil leitura. Porventura o mais importante, as estrelas, motivo que mais impressiona autores modernos que atribuem a este desenho o desejo expresso do rei, têm defeito grave na gravação e são quase imperceptíveis. Comparando com medalhas da mesma época (século XVII) da colecção do Museu Casa da Moeda e com outras mostradas da XVII Exposição, executadas por artistas italianos identificados no Catálogo, e mesmo a preto e branco é notória a falta de qualidade do traço e da gravação. O que nos leva a supor ter sido a de D. Sebastião aberta por algum artista menor, ou de menos à vontade na gravação de medalhas.
O último conjunto até ao século XVII, que inclui D. Sebastião, mas também D. António é da autoria de Giovanni Palazzi (1643-1712), na obra Aquila Austriaca, de 1679. A imagem baseia-se em Johann Jacob Luck, mas o texto para explicar a concha é de Typot, citado em margem. Mesmo assim, o desenho do rei apresenta diferenças: igualmente à direita, mas com um aspecto mais próximo de Frans Huys de 1561 e de traço mais perfeito. Pode considerar-se, no entanto, outra versão deste mesmo anverso da medalha, que Palazzi não menciona como tal, limitando-se ao que lhe interessava, a justificação histórica:
Sebastião concebeu a melhor esperança de que podia não apenas devolver a perdida Fez ao reino, mas que ele próprio podia aumentar as suas possessões, com aquele tratado, como fica evidente nas medalhas que se seguem. Tem igualmente uma concha, de modo que quando a Lua cresce aumenta, e quando mingua diminui: fica com uma cor castanha com o céu nublado e brilha com a claridade da manhã. Assim, como testemunha Plínio, ele tinha uma relação maior com o Céu do que com o mar. Muitos ficaram perturbados com a nobre morte de Sebastião.[16]

Depois de uma segunda edição em 1666 dos Symbola divina et humana de Sadeler/Typot que reproduz o mesmo desenho, mas com realização gráfica diferente, e desta Aquila Austriaca de Palazzi, só no século XX voltam a aparecer impressas as duas faces da medalha, tal como Johann Jacob Luck as encomendou a Friedrich Brentel. Em 1861, por Manuel Bernardo Lopes Fernandes,[17] que repete o erro de Pedro de Faria e Sousa, que por sua vez, acredita em Sadeler/Typot e que, curiosamente, diz que D. Sebastião segura na mão direita uma bolsa, quando na realidade se trata de luvas. Quase um século depois, Henrique Lafuente Ferrari, em 1941, dá-a erroneamente como reprodução invertida da gravura de Frans Huys, impressa por Hieronymus Cock, de 1561, mas usa a litografia de Lopes Fernandes[18] E Annemarie Jordan volta a reproduzir a mesma imagem, agora a partir de Lafuente Ferrari, cuja obra cita, confunde a gravura impressa por Cock com a publicada por Johann Jacob Luck e aventa a hipótese inverosímil de ser de Francisco de Holanda, cópia perdida de um original de Cristóvão de Morais e de ser a gravura copiada da medalha, o que, na realidade, é exactamente o contrário.[19] Ernesto Soares, em 1950, chama medalha à gravura de Luck, mas não conheceu a medalha física.[20]




Há uma curiosa descrição num pequeno apontamento na revista O Ocidente (1884) também a dever em parte à imaginação de Sadeler/Typot. Sob o título Divisas adoptadas pelos Reis de Portugal, o autor, Silva Pereira, limita-se a copiar do Tomo IV da História Genealógica, onde Caetano de Sousa descreve os Selos tirados dos Diplomas originais, a descrição do primeiro Selo da lista e acrescenta-lhe o Timbre do rei referido, que transcreve da mesma História Genealógica, divulgando assim só meia verdade.[21]
7.
Outro mistério é o lema, que nesta “empresa” sempre surgiu, desde a sua invenção em 1601, até à reprodução de Palazzi, em 1679, em conjugação com a pictura e a subscriptio. Só a partir de Pedro de Faria e Sousa, em 1680, se destacou e passou a estar só, alterado para CELSA SERENA FAVENT e assim tem vindo a ser aceite como “empresa” de D. Sebastião. Do desenho de Sadeler, Faria e Sousa apenas aproveitou as estrelas, que deixaram de representar o Septentrião ou a Ursa Maior, em número de sete, mas sobreviveram unicamente como estrelas, informação que terá dado a Pedro Perret, e, talvez por motivo de preenchimento estético na gravura ou desconhecimento do próprio simbolismo, passaram a oito, alinhadas em duas colunas horizontais, a mesma disposição que Debrie adoptou na História Genealógica de António Caetano de Sousa, em 1737.
Desde então, o lema surge citado por diferentes autores que o utilizam para caracterizar D. Sebastião, na qualidade não de Desejado, mas de Encoberto, atribuindo esse devir já inscrito na personalidade do monarca reinante, que o teria levado a escolher tão impressiva frase e mandado cunhar medalha, havendo até data estipulada para comemorar esse momento da adopção da empresa, que teria sido em 1570. Citado, sim, mas nunca traduzido, aceite no original pelo argumento da subscriptio dos editores.
Se os outros lemas, mesmo parecendo aberrantes para os destinatários[22] são de tradução relativamente fácil, e, de certo modo até, passíveis de compreensão depois de lido o argumento, curiosamente a de D. Sebastião – CELSA SERENA FAVENT – pelo seu hermetismo e a composição dos três elementos do conjunto, dois nomes e o verbo latinos, terá gerado a dificuldade de tradução. A interpretação do seu sentido feita logo no argumento dos seus autores, centra-se mais na imagem do que na letra do lema, como se viu atrás. Nomeadamente em Typot, Neugebauer e Palazzi. A primeira tentativa para a sua interpretação precisa data de 1664, na obra do jesuíta alemão Jacob Masen (1606-1681), Speculum imaginum veritatis occultæ, exhibens symbola, emblemata, hieroglyphica, ænigmata: SERENA CELSA FAVENT, ou seja, crescer em prol de algo superior. Rei Sebastião, aquele peixinho representa os fiéis seguidores do Rei, que desfrutarão juntos do seu crescimento[23] E na glosa: Incrementum bonorum a Deo est (O aumento dos bens vem de Deus). Depois disso, sem nenhuma referência para tradução em Pedro de Faria e Sousa e em António Caetano de Sousa, a interpretação mais recente centra-se sobretudo na imagem, valorizando um significado de pendor esotérico, associando a concha (concepção) às águas e à lua, simbolizando o berço daquele que nasce segunda vez (ressuscitado). No caso vertente, o peixe (Cristo) ou Cristão (D. Sebastião) favorecido pelos Céus e por eles guiado ou predestinado.[24] O que, espantosamente, atribui ao rei português a premonição de que, apesar de ungido pelo Altíssimo (Celsa) no milagroso nascimento (Serena) – tópico já enunciado pelos contemporâneos por outros motivos mais óbvios – ele próprio, ao atribuir-se esta divisa, antevia a morte na batalha que ansiava travar e, morrendo, se transformaria em rei redivivo (favent), mas encoberto… Mas há outros exemplos de interpretação que, como vimos, se baseiam em algo que não se pode valorizar como dado historicamente comprovado. Luís de Almeida Braga (1886-1970), fundador da revista Alma Portuguesa (1913) onde cunhou a expressão Integralismo Lusitano, adoptou a letra da “empresa” como ex-libris, assumindo o seu significado associado a D. Sebastião.
Depois da apresentação das obras que mostram e explicam o Símbolo de D. Sebastião no conjunto de outros Reges Portugalliæ, é possível agora estabelecer o que é matéria espúria e mero motivo didáctico e que gerou um engano, mas, ao mesmo tempo, uma atribuição esotérica, mais ligada ao sebastianismo do que propriamente ao rei.
8.
Não é suficientemente probatório afirmar que a empresa atribuída a D. Sebastião, aparecida e materializada trinta e um anos depois da data que lhe é dada como tendo sido criada, tenha estatuto de falsidade. A posteridade da publicação da imagem confirmaria até a anterioridade do facto da sua existência. Outro tanto não se pode aceitar que uma criação expressa do rei, conhecendo-se a sua personalidade voluntariosa, tenha sido obnubilada e nunca tenha tido qualquer citação pelos vários cronistas que se abeiraram da história do reinado de D. Sebastião. Até porque, como já vimos, ela está figurada tendo como objectivo a fervorosa motivação que o guiou nos últimos anos de reinado. Além disso, numa empresa escolhida expressamente pelo rei, teria de constar, pelo menos, uma seta, que, essa sim, está intimamente ligada à sua devoção e desejo expresso de a ter como relíquia.
A própria finalidade das colectâneas de Símbolos explicitada pelos autores, afasta a credibilidade histórica, a não ser no programa também declarado por desenhadores e comentadores: o de divulgar e dar a conhecer a história a partir de imagens das mencionadas personagens, em clave laudatória, concomitantemente com a transmissão de conceitos morais e pedagógicos.
Relativamente aos reis portugueses é evidente, já que estão incluídos no conjunto monarcas da primeira dinastia, dos quais não consta historicamente nenhuma empresa ou divisa, a não ser, por exegese posterior, o divulgado In Hoc Signo Vinces, da mitografia do rei fundador e que alguns sucessores adoptaram. Dos monarcas da segunda dinastia, bastaria a Typot comentar a partir das divisas inscritas nos túmulos da Batalha e, no limite, até a de Alcobaça, no caso de D. Pedro I no túmulo de Inês de Castro (Até a fim do Mundo), se Sadeler delas tivesse tido conhecimento, e a partir daí criasse a sua própria pictura. Mas não foi esse o caso.
De D. Sebastião, à parte a sua ligação ao santo de onde retira o nome, que o levou a instituir a Ordem da Frecha, assim modernamente nomeada e abusivamente ressuscitada, não se conhece empresa ou divisa que definissem um seu desejo íntimo, elevado e hermético, para além do fulgor guerreiro que o caracterizava. Não deixa, por isso de ser motivo de perplexidade, que a usá-las, nenhum autor que escreveu a crónica do reinado, nada refira sobre tão importante dado cavaleiresco, complemento da heráldica clássica em linguagem encriptada, da parte de quem desejava ser cavaleiro de Cristo e é considerado pelos historiadores o último rei cavaleiro, pela sua actuação como monarca guerreiro. A isto se acrescenta a evidência de nada constar nos três autores fundamentais para a exegese do rei, a saber, Barbosa Machado no século XVIII, Queirós Veloso no século XX e Maria Augusta Lima Cruz no século XXI. Nem o “hagiógrafo” Antero de Figueiredo disso dá sinal, em 1924, data da primeira das nove edições de D. Sebastião, Rei de Portugal, mesmo que seja um lema poético e suficientemente misterioso para acrescentar à lista da beatificação.


9.
Assim, mesmo aceitando que os símbolos valem pela sua difusão, e neste particular se podem aproximar da definição de mito (cite-se, a propósito, o verso estafado de Pessoa: o mito é o nada que é tudo), é de descartar a ligação da divisa CELSA SERENA FAVENT ao rei D. Sebastião, ao mesmo tempo que qualquer análise esotérica sobre a “empresa” do Desejado/Encoberto é abusiva, sendo que muitas outras interpretações – mesmo a partir de textos históricos – continuam a ser possíveis, tal a riqueza e complexidade de um reinado e de um monarca que originou grossa cópia de textos e outras tantas interrogações.

[1] Para mais pormenores, veja-se Brenda Yasmin Degger, Historia Natural “Em busca da linguagem universal: Os Livros de Emblemas dos séculos XVI e XVII”. História e Cultura. Paraná: Universidade Federal do Paraná, Vol. 12, nº 2, Dez. 2023, pp. 85-103.
[2] Marcelino de Pisa, Moralis Encyclopædia id est Sententiarum omnium Chorus. Lyon: Laurent Anisson, 1656: Accipe Augustinum. Humana caro, qua erat peccato obnoxia, ides mortua, carni eins munda unita, incorporata, vnion cum illo effecta, vivit de spiritu eius, sicut corpus de suo spiritu; qui verò non est de corpore Christi, non vivit de spiritu Christi. Habes et corpus, et Spiritum et Symbolum quod maximè quadrat constellationi Spicæ Virginis, et aura Favoniae. Aevo superiore Sebastianus rex lusitaniæ, bellum illaturus Mauris, inussit hoc Symbolum labaro suo: scilicet pinxit stellas quasi coëuntes in vnum asterismum, seu imaginem cæleste haec autem stellæ plus solito radiantes, aliquod omen propitium indicabant, hoc titulo. CELSA SERENA FAVENT. Hoc Symbolo animequior esto, accedens ad altare. Illic est Spica Virginis sydus maximè rutilum et coruscum. Perge securus hoc sydere tibi illucente, aderit Favonius: nam CELSA SERENA FAVENTI sed memor esto Sancta dari Sanctis tantùm, et negari fontibus, unde hæc sit sententia: Panis vivus fit sanis divus, malis est lethalis, qui aliis est vitalis. (p. 246).
[3] Jacob Typot, Symbola divina & humana: – Utere fruere, non contemplare modo. Nam si paulo penitius introspexeris; videbis, non tam oculos, quam animum pasci, quod magnis illis viris propositum est: qui arguta brevitate, ingentia volumina superant. lta animum totum corripiunt, at fugatis errorum tenebris, vera pietate, solita virtute imbuunt. Igitur non commendo tibi, quæ prima facie arrident tibi : et per oculos mentem sincero amore subeunt, placere enim non possunt, non animis ingenuis suapte natura (Ad Lectorem).
[4] Alciato, 1534, p. 4 (Tradução de Filipa Araújo, “Verba significant, res significantur”: a receção dos Emblemata de Alciato na produção literária do Barroco em Portugal. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2014. Tese de Doutoramento.)
[5] Jacob Typot, Symbola divina & humana: – Non me fefellit meum, de sententia tua, judicium. Ita ubertim distrahuntur Symbola, quæ ego contraxi, et quasi in acervum, tanto studio atque sollicitudine coacervavi. Sed quod multisint, qui, que vident, scire cupiant; nec habeant, quem percundentur semper; inservitum est, non paucorum, sed omnium commodis atque honesto desiderio. Revocato enim sub incudem operi Isagogem adjunxi, sempre habeas, cum Mysteriis Mystagogum: et me simul intelligas, benevolentia studiosiorem esse, quam quæstus mei. (Candido Lectori, f. 3).
[6] Esta atribuição de Sadeler/Typot a D. Manuel é, pelo menos, abusiva, pois em 1522, o rei Carlos I de Espanha, outorgava a Sebastião Elcano o uso de um brasão de armas com a mesma divisa, em recompensa pela primeira viagem de circum-navegação.
[7] Jacques Typoets, Symbola divina & humana pontificum, imperatorum regum, Praga: Aegidius Sadeler excudit, Vol. 2, 1601.
Concharum generis Pinna est Plinio, imo Aristoteli, ex quo penè describit. Nascitur in limosis, subrecta semper: nec unquam sine Comite: quem alibi Pinnotherem, Plinio. Sed Concham video: et custodem ab hac forma differentem ac quasi deformem. Verùm enim verò si Cancer hîc, sive squilla, sic enim à Cicerone non tantum Plinio appellatur, cibi causa, societatem init, cum Concha, dapis. cujus partem auferat, aflectator. Et Sebastianus Rex Portugalliæ non cibi, sed aliqua caussa, fœdus icit cum Regulo Fessæ prófugo. Hoc ego conjicio ex Hieroglypto: cujus gratia, ista recencebam ex veterum commentariis. Cum nec me,nec ullum fallat, amicitiam ab Aristotele distingui; & Principes civitatesque in foedere, utilitatem sequi. Sed non semper alios fallimus, fi quando voluptatem aut utilitatem in concilium adhibemus. Multò sæpius ipsi nos. Hinc Tragicus ille exitus belli. Septentrionem vides. A Luna Conchas impleri, & exinaniri nemo ignorat. Quod si scisset Rex juvenis, boni ominis caussa plenam Lunam defcripsisset. Nunc dum crescere potentia,et proferre imperium vult, vitam cum regno amisit. Video enim, quod et boni ominis caussa crescentem Lunam exhibeat. Nec ita illa serena et celsa favebat consiliis; ut conatis lucidus Cometes adversabatur, p. 114.
[8] Para descobrir Neugebauer veja-se Cirilo García Román, “Las glosas de los Symbola Heroica de Salomon Neugebauer: I. Perfil biográfico y literário”. JANUS, 8 (2019), pp. 148-171. http://www.janusdigital.es/articulo.htm?id=125>
[9] Salomon Neugebauer, Selectorum Symbolorum Heroicorum Centuria Gemina Enotata Atque enodata. Frankfurt: M. Lukas Jennis, 1619: Concha marina erecta, in cuius infima parte piscis conclusus, supra concham vero Luna existit cum stellis adscripta gnoma symbolica: SERENIS CELSA FAVENT. Faustiominis argumentu est,quo cum luna augescente regni quoque aumentum videtur præsagire Rex iuvenis, qui dum proferre imperium vellet, vitam cum regno amisis. Symbolum inde forte natum, quod prodente illo naturalis hiftoriæ, scri- ptore acutissimo conchæ maior sit cœli societas, quam maris, inde nubilum trahi colorem, aut pro claritate matutina, serenum: a deo enim cœlo gaudent, ut Sole rubescant, candoremque; perdant, ut corpus humanum, pp. 149-150.
[10] Pedro de Faria e Sousa que aceitou os lemas de Sadeler/Typot, não ousou profanar os de D. Manuel e de D. João II e conservou o Spera in Deo, do primeiro e o Pela Lei e Pela Grei, do segundo, com as correspondentes imagens. Caetano de Sousa que repetiu Faria e Sousa, só salvou a divisa de D. João II, mas traduziu-a: Pro Lege Pro Grege, com o mesmo pelicano a alimentar as crias.
[11] No frontispício se diz expressamente F. B. sculpsit.
[12] Johann Jacob Luck, Sylloge numismatum elegantiorum quæ diversi Imp. Reg. Prin. Comit. Respubblicæ diversas ob causas ab anno 1500 ad annum usque 1600 cudi fecerunt, historica narratione illustrata, Argentinæ: typis Reppianis 1620, p. 270.
[13] Informação retirada do catálogo da Sokol Books (https://sokol.co.uk/stock/luck-johann-jacob/)
[14] Para informação sobre estes autores, veja-se obra de Michael Bryan, Dictionary of painters and engravers, biographical and critical. New edition, revised and enlarged, edited by Robert Edmund Graves, B. A. of the British Museum. Londres: George Bell and Sons, 1886.
[15] Os Descobrimentos portugueses e a Europa do Renascimento. Catálogo da XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura – Casa dos Bicos, Lisboa, 1983, p. 187.
[16] Giovanni Palazzi, Palazzi, Giovanni: Aquila Austriaca, subqua imperatores Austriaci ab Alberto II Honorifico usque ad Ferdinandum III e IV Occidentis imperatorem L. elogiis, hieroglyphicis, numismatibus. Pars II. Veneza: Andrea Poleto, 1679: Sebastianus conceperat, ut nó modò profugum Fessæ Regulum in regnum reduceret, sed et ipse hoc foedere res suas as augeret, ut ex nummis patet sequentibus. Est squilla seu cancri maritimi ingenium, ut cibi causa societatem ineat cum concha, dapis, cuius partem auferat, assectator. Habet itidem hoc concha, ut cum Luna crescente crescat,deficiente, imminuatur: fuscum contrahat colorem coelo nubilo: nitescat cum claritate matutina. Unde, teste Plinio, maior ei cum Coelo, quàm cum mari cognatio. Post generosam Sebastiani mortem, plurimi turbarunt, p 54.
[17] Manuel Bernardo Lopes Fernandes, Memória das medalhas e condecorações portuguesas e das estrangeiras com relação a Portugal. Lisboa: Tipografia da mesma Academia, 1861, estampa 4, descrição, p. 10.
[18] Henrique Lafuente Ferrari, Iconografia Lusitana. Madrid, 1947, nº 498, descrição, p. 143, Gravura XIX.
[19] Annemarie Jordan, Retrato de Corte em Portugal. O legado de António Moro. Lisboa: Quetzal, 1994 p. 170. V. igualmente Vitor Amaral de Oliveira, Imagens de D. Sebastião, Lisboa: Scribe, 2025, pp. 296-299.
[20] Ernesto Soares, Dicionário de Iconografia Portuguesa, Tomo III, Lisboa: I. A. C, 1950, p. 309, nº 2920-E
[21] Silva Pereira, “Divisas adoptadas pelos reis de Portugal”. O Ocidente (XVIII, 556). Lisboa, 1 Jun. 1884, p. 131: Os nossos reis, infantes e grandes senhores usaram de emblemas nas suas armas e nos seus selos como se vê no Tomo IV da História Genealógica da Casa Real, e em outros antigos cronistas lusitanos (refere-se evidentemente a Pedro de Faria e Sousa).
[22] Como exemplo, veja-se a atribuída a D. Henrique, o cardeal rei: Uber et Tuber (Fecundo e Fértil).
[23] Jacobus Masenius, Speculum imaginum veritatis occultæ, exhibens symbola, emblemata, hieroglyphica, ænigmata, Colónia: Kinchius, 1664: Concha piscis, dictus pinna, cum pisciculo Pinnothere indiviso comite, quem Concha alit. Luna in coelo cum stellis pauculis; sed accrescens, cum qua et Conchæ accrescent: Inscript, SERENA CELSA FAVENT, id est, crescam superis faventibus. Sebastianus Rex, pisciculus ille fidos Regis asseclas denotat, eius simul incremento fruituros, p. 504.
[24] Manuel Gandra, Hagiografia de D. Sebastião – de desejado a encoberto. 3ª ed. Mafra: ed. do autor e Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, 2004, p. 304.
* Investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (CECC) da Universidade Católica Portuguesa.
