Prémio Aboim Sande Lemos – Identidade Portuguesa *

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General Alexandre de Sousa Pinto **

Por força do regulamento do prémio Aboim Sande Lemos, como presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, fui, no corrente ano, o presidente do júri do Prémio.

Este Prémio foi instituído em 1987 pelo sócio Exmo. Senhor Coronel Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos, com um carácter perpétuo e anual, destinando-se a 33ggfgalardoar “pessoas singulares ou colectivas, cujas obras notáveis e originais, no âmbito das Ciências Humanas, Artes e Feitos Excepcionais ou das Ciências da Natureza, Técnicas e Tecnologias, em anos alternados, contribuam ou hajam contribuído, de forma significativa para o robustecimento da identidade da imagem cultural portuguesa e afirmação de Portugal como país livre e independente”.

O Prémio, desde então, com apenas duas excepções – 2005 e 2020 – tem sido anualmente atribuído verificando-se sinteticamente que o foi a trinta e uma pessoas singulares – 3 militares, 1 padre, 1 poeta, 1 arquitecto, 1 atleta, 1 actor, 4 músicos e 18 professores doutores – e a nove pessoas colectivas sendo um estrangeiro – o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.

No corrente ano, o juri do prémio relativo ao ano de 2026 a recair no âmbito das Artes e Feitos Excepcionais, decidiu por unanimidade atribuí-lo ao Exmo. Senhor Engenheiro Armando Gertrudes Martins, cuja vida é certamente conhecida de muitos de V.as Ex.as, mas que não posso deixar de sintetizar, referindo:
            – Nasceu em Penamacor a 22 de Março de 1949 é casado e pai de dois filhos;
            – Aos 14 anos vem estudar para Lisboa, licenciando-se em 1973 no Instituto Superior Técnico como Engenheiro Mecânico;
            – Face à paralisação da economia portuguesa que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, decidiu partir para o Brasil, onde se manteve durante cerca de seis anos, ali tendo colaborado numa prestigiada empresa de produção de equipamentos metálicos para as indústrias extrativa e cimenteira;
            – Os rendimentos familiares e os resultantes do seu próprio trabalho permitiram-lhe realizar os primeiros investimentos em imóveis que determinaram o seu lançamento como promotor imobiliário de que resultou o nascimento do Grupo Fibeira;
            – O Atrium Saldanha, centro comercial no centro de Lisboa, projectado pelos arquitectos João Paciência e Ricardo Bofill, que recebeu os prémios Valmor e o Municipal de Arquitectura em 2001, será, talvez, a obra mais emblemática da actividade imobiliária do Grupo Fibeira;
            – Paralelamente, a partir dos seus 18 anos, iniciou-se como colecionador de arte ao adquirir umas serigrafias a um amigo; aos 25 anos, na véspera do 25 de Abril de 1974, comprou a sua primeira obra original, uma pintura de Rogério Ribeiro, que se mantem hoje na sua coleção particular – uma das melhores colecções de arte de Portugal – que integra mais de 600 obras de arte contemporânea, que vão dos finais do século XIX, com obras no naturalismo, e se estende até ao final da década de 80 do século XX com as várias gerações do modernismo; reúne obras-primas e os principais artistas portugueses desses períodos, nomeadamente, José Malhoa, João Vaz, Almada Negreiros, Amadeu de Souza Cardoso, Falcão Trigoso,  Sousa Pinto, Eduardo Viana, Guilherme Santa-Rita, António Dacosta, D’Assumpção, Cruzeiro Seixas, Vieira da Silva,  José de Guimarães, Jorge Martins, Costa Pinheiro, Júlio Pomar, Pinto Coelho, Pedro Calapez, Noronha da Costa, Palolo, Lourdes Castro, Menez, Nikias Skapinakis, René Bértholo, Carlos Botelho, António Areal, Alfredo Keil, Julião Sarmento, Júlio Resende, João Hogan, Eduardo Nery, Nadir Afonso, Paula Rego, Cargaleiro ou Pedro Cabrita Reis entre muitos outros.
            – No campo da sua actividade imobiliária comprou o Palácio do Correio-Mor, em Loures, e, em 2007, o Palácio Ribeira Grande, na Rua da Junqueira em Lisboa e é este último que decide restaurar por forma inovadora, ali encontrando maneira de juntar um museu onde instalar grande parte da sua colecção e um hotel que seja motor de financiamento e de sustentação da autonomia do projecto. Nasce o MACAM, Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, instalado num excelente hotel de cinco estrelas em plena Lisboa.

Abro aqui um parenteses para lembrar que o Palácio Ribeira Grande tem a sua origem quando, na década de 30 do século XVIII, os 4os Condes da Ribeira Grande compram aos 4os Marqueses de Niza a propriedade que estes ali tinham. É a partir de então que nele ocorrem acontecimentos mais ou menos marcantes da História de Portugal. Lembro, por exemplo, que com o terramoto de 1755 os palácios dos Távoras e dos Ribeira Grande em plena baixa lisboeta ruíram completamente e ficaram em escombros; ambas as famílias salvando-se por milagre, acolheram-se às suas casas de campo, os Távoras para o Campo Pequeno, aonde hoje está o palácio Galveias biblioteca municipal, e os Ribeira Grande para a Junqueira; as réplicas atingiram as proximidades do Campo Pequeno mas não a Junqueira e é assim que os Ribeira Grande montam nos seus jardins da Junqueira tendas onde acolhem os parentes Távora, Alorna e Atouguia para se instalarem enquanto não se encontravam soluções definitivas.  Lembro também que, na sequência do processo dos Távoras, o Marquês de Pombal encerrou no Forte da Junqueira, a poucos metros do palácio, todos os que não tendo sido assassinados no patíbulo de Belém, entre eles o então conde da Ribeira Grande, cuja família, ali a alguns passos, só soube da sua morte quando, 18 anos depois, morto D. José e exilado o Marquês, os portões do forte foram abertos e ele de lá não saiu por ter morrido anos antes no cativeiro. As fachadas que hoje se veem são o resultado das grandes obras efectuadas em 1812 aquando do casamento do 7º conde da Ribeira Grande. A sua vivencia nos finais do século XIX e princípios do XX pode ser consultada em diferentes obras que referem as actividades políticas e sociais que ali tiveram lugar quando lá estiveram instalados colégios privados – o Colégio Arriaga e, depois, o Colégio Novo de Portugal – e membros da Família Ribeira Grande, nomeadamente o Dramaturgo D. João da Camara, até que em 1940 todo o palácio foi alugado ao Estado para ali instalar o Liceu D. João de Castro, primeiro, a que se seguiu o Rainha D. Leonor e o Rainha D. Amélia depois, situação que se manteve até há pouco, quando foi adquirido pelo nosso Eng Armando Martins em estado deplorável, consequência de anos de obras e estragos que a transformação interior para o adaptar a uma função completamente diferente obrigaram e ao uso por milhares de crianças e adolescentes durante muitas décadas.
            – Em 2018 a Fundación Arco, instituição dedicada à promoção, investigação e divulgação da arte contemporânea distingue-o com o prémio “A” para o colecionismo.
            – A APOM – Associação Portuguesa de Museologia, em 2021, atribui-lhe o prémio de Colecionador da APOM pelo projecto de criação de um museu privado para tornar pública a sua colecção.
            – Em 10 de Junho de 2025 foi agraciado com o grau de grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
            – Em 22 de Março de 2026 a Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, em nome do Governo, atribuiu-lhe a medalha de Mérito Cultural reconhecendo um percurso de mais de cinco décadas dedicado à promoção da arte e à criação do MACAM, sublinhando o impacto público de um projecto privado que reforçou a oferta cultural da capital, reunindo cerca de 600 obras de artistas portugueses e internacionais, reconhecendo não apenas a dimensão da colecção, mas sobretudo a visão, a determinação e a generosidade com que o colecionador tem dinamizado e fortalecido o nosso ecossistema cultural.

Este mais que sintético curriculum é a prova mais do que suficiente de que o Eng Armando Martins, reconhecido pelo seu trabalho como investidor imobiliário e também pela sua importante actividade de promoção da cultura artística, com mais de 600 obras de arte colecionadas e, ainda, pelo seu espírito inquieto, empreendedor e a sua capacidade de sonhar nos garante que continuará a desenvolver projectos que por vezes o conduzem para fora da sua zona de conforto, de que o seu gosto pela arte é exemplo.

O júri do Prémio Aboim Sande Lemos não teve quaisquer dúvidas de que o Eng Armando Martins é, no campo das Artes e Feitos Excepcionais, um exemplo a apontar e a merecer que o Prémio lhe fosse atribuído.

* Discurso proferido na Cerimónias comemorativas do dia da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (26 de Maio de 2026).
** Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.