Memórias de um tempo em rutura: um testemunho pessoal

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Luís de Almeida Sampaio *

Escrevo estas linhas após mais de quatro décadas de carreira diplomática ao serviço de Portugal — incluindo funções como Embaixador na Alemanha e junto da Organização do Tratado do Atlântico Norte— portanto já numa fase da vida que permite a serenidade e distância que só o tempo oferece, mas também com a responsabilidade de memória que o presente exige.

O que aqui relato não é apenas um percurso pessoal: é o reflexo de um Portugal em turbulenta transformação, num dos períodos mais intensos da sua história contemporânea. Quando nas minhas aulas ou conferências relato o testemunho que aqui deixo constato a incredulidade e a estupefacção da minha audiência mais jovem e leio nas suas expressões: “como é possível que isto tenha acontecido em Portugal ?!”.

Com efeito, eu tinha apenas 17 anos quando, em pleno “Verão Quente” de 1975, no contexto do chamado “Processo Revolucionário em Curso” (PREC), fui detido por razões exclusivamente políticas. A minha “culpa” era simples: participar ativamente na fundação da Juventude Centrista (JC) no Porto, a estrutura juvenil do CDS, e defender uma visão de Portugal assente na moderação, no pluralismo e no respeito pelo Estado de direito — o que constituía uma ameaça ao ímpeto revolucionário.

Liceu António Nobre
Liceu António Nobre

Claro que jamais esquecerei o momento da minha detenção pela Polícia Militar no pátio de recreio do então Liceu António Nobre perante o olhar atónito dos meus colegas. Fui conduzido à prisão de Custóias, onde permaneci vários dias em isolamento, incomunicável, sem culpa formada, num ambiente de surreal ansiedade difícil de descrever. A minha detenção, como consta do mandato de captura de que guardo cópia, fora ordenada pelo COPCON, então liderado por Otelo Saraiva de Carvalho, e a sua execução entregue ao seu representante no norte do país Eurico Corvacho.

Pintura mural em 1975.
Pintura mural em 1975.

A experiência da prisão marcou-me profundamente. Não apenas pelas condições em que ocorreu, mas pelo que de facto simbolizava: era o retrato perfeito de um país em deriva revolucionária de esquerda, onde a liberdade recém-conquistada coexistia com práticas que a negavam. Procurei sempre compreender aquele momento no seu contexto, para além da minha circunstância pessoal, integrando-o numa leitura mais ampla da nossa história coletiva.

Fui libertado antes de outros (alguns militantes do CDS como eu e outros, que eu nunca conheci, que não pertenciam ao CDS) que permaneceram detidos por mais tempo do que eu em Custóias. A minha libertação deveu-se à intervenção de Diogo Freitas do Amaral, então presidente do CDS, que me conhecia bem. Julguei, na altura, que esse momento marcaria o fim de um episódio difícil. Infelizmente não foi assim. A minha libertação foi usada contra mim por adversários internos no seio da Juventude Centrista e do próprio CDS, que fizeram circular o rumor de que eu teria “denunciado” outros detidos. Tratava-se, claro, de uma difamação infame e sem escrúpulos mas, como em geral acontece, uma acusação infundada e a suspeita que gera, bastou para ferir a minha reputação.

Esse episódio foi um dos mais dolorosos da minha vida. Não apenas pelo ataque pessoal, mas por ter vindo de “dentro” — do espaço político que eu próprio ajudara a construir no Porto, como fundador da Juventude Centrista e primeiro presidente da sua Comissão Distrital. Sei bem quem me difamou, a quem, evidentemente, já perdoei há muito tempo. Perante aquele clima, para mim insuportável, tomei a decisão de me afastar do CDS e a JC do Porto, pondo fim ao que muito provavelmente teria sido uma longa carreira política. Foi uma decisão muito difícil, mas foi a necessária para preservar a minha integridade pessoal.

Contudo, nunca abdiquei dos valores que me tinham levado à intervenção política. Ao longo de mais de 40 anos de carreira diplomática, procurei sempre servir Portugal com base nesses princípios: bom senso, moderação, sentido de Estado, respeito pelas instituições democráticas e compromisso inabalável com a defesa da liberdade.

Apesar de ter abandonado a JC do Porto, logo em 1976, voltei publicamente a estes acontecimentos através de uma entrevista ao jornal O Diabo, fundado por Vera Lagoa. Nessa altura, defendi uma vez mais a necessidade de ultrapassar os excessos do período revolucionário e de consolidar uma democracia pluralista e estável.

Recentemente, e já depois de ter concluido a minha carreira diplomática, senti que era tempo de fdar ainda mais sentido a este ciclo hermenêutico e refiliei-me no CDS — não por nostalgia, mas por coerência uma vez que, apesar de todas as vicissitudes, nunca deixei de me rever nos seus valores fundadores.

Hoje, ao olhar para trás, vejo – naturalmente com mais clareza do que quando tinha 17 anos – o meu percurso como parte de uma história maior: a de um país que, apesar das suas divisões e momentos de rutura, conseguiu afirmar a democracia. Se este testemunho tiver alguma utilidade, será porventura a de lembrar que a liberdade não é apenas conquistada no momento efémero de uma revolução — é construída com determinação e tempo, sempre defendida com denodo e, muitas vezes, sofrida com dignidade.

Estabelecimento Prisional de Custóias, localizado em Matosinhos.
Estabelecimento Prisional de Custóias, localizado em Matosinhos.

* Embaixador