Assinalar os 642 anos da Batalha de Atoleiros é evocar um momento que ultrapassa a cronologia e entra no domínio da consciência coletiva *

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Tenente-General João Pedro Rato Boga de Oliveira Ribeiro **

A verdade contextualizada à época, clamada pelo conhecido verso camoniano “não sofre o peito forte, usado à guerra, não ter amigo já a quem faça dano, e assim não tendo a quem vencer na terra, vai cometer as ondas do oceano”, embora referida ao resultado de uma crise que se transformou numa oportunidade – a epopeia lusitana de dar novos mundos ao mundo –, normalmente mais associada a outro relevantíssimo evento dessa determinação de identidade, começa aqui, no campo de Atoleiros, em Fronteira. A glória conseguida nesse dia, permitiu a sua confirmação em Aljubarrota e impulsionou outro evento, não longe daqui, em Valverde. Mas essa perceção de estabilidade conseguida na terra, que remete para uma outra perceção de prioridade noutro tipo de espaços, parece constantemente contrariada por uma realidade que se vem revelando intemporal e que assume hoje, nova ou apenas adiada dinâmica. O que estamos a viver, percebido por alguns, é ainda diferente do que coletivamente estamos a entender. E o que recorrentemente tardamos em perceber, para além da necessidade de se estar sempre preparado em todos os domínios, é que os conflitos nascem,crescem, acontecem e terminam, envolvendo sempre dois focos interligados: as pessoas e a terra.

Painel de azulejos - Batalha dos Atoleiros
Painel de azulejos – Batalha dos Atoleiros

A terra porque é na terra onde vivem as pessoas e para onde todos os efeitos convergem, e as pessoas porque é a sua terra, a sua identidade e as suas pessoas que querem e têm que defender.

E assim regressamos ao que importa celebrar hoje: a identidade de um povo. Neste caso, a memória do que por ela foi feito e as lições que devemos aprender para que, respeitando esse legado, possamos sempre garanti-la.


Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Fronteira, Sr. António Velez Gomes,

Permita-me dar-lhe sentido testemunho do agradecimento do Exército pela intenção deste Município em querer manter viva a celebração de um dos momentos mais relevantes da nossa história coletiva e seguramente da história desta comunidade. Importa sublinhar que, para além deste vínculo especial entre o município de Fronteira e a Instituição Militar, a ligação entre as autarquias e o Exército, fruto da sua proximidade e facilidade relacional tantas vezes demonstradas nos momentos de maior necessidade, mas de uma forma geral no dia-a-dia, representa de forma singular, a elevação do serviço que, conjuntamente, procuramos prestar a Portugal e aos Portugueses.

Aproveito este ensejo para lhe desejar as maiores felicidades no exercício do seu mandato e para estender um cumprimento especial a todas as entidades autárquicas e munícipes de Fronteira, e dos Municípios de Portalegre, Arronches, Alter do Chão e Cabeço de Vide, que nos quiseram dar a honra de se associar a esta cerimónia neste dia. Tendo pessoalmente ligações familiares muito próximas a esta região é com sincera alegria que os revejo e que assinalo o privilégio de os ter connosco, hoje.


Exmo. Senhor Secretário de Estado da Cultura,

Sr. Dr. Alberto Santos,

A presença de V.Exa, que agradecemos, exponencia de forma indelével a relevância deste ato, porquanto sobreleva a relação única entre a nossa história e a nossa identidade cultural, área em que o Exército assume responsabilidades muito particulares uma vez que a sua história se confunde com a nossa história coletiva, seja pelas razões que aqui nos trazem hoje, seja pelo património cultural nacional à nossa guarda e que procuramos arduamente preservar e divulgar, num esforço que pretendemos seja cada vez mais participado, abrangente e motivador. Bem haja pela sua presença.


Exmo. Sr. Deputado, à Assembleia da República, Sr. Dr. João Lopes Aleixo,

Exmo. Sr. Diretor Geral de Armamento e Património da Defesa Nacional, Drº Antonio José Morais Batista,

Exmo. Sr. Almirante António Maria Mendes Calado,

Exmo Sr. Presidente da Sociedade Histórica da Independência Nacional, Dr. José Ribeiro e Castro,

Exmas. Autoridades Políticas, Militares, Policiais, Religiosas, Humanitárias, Académicas e Culturais,

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Assinalar os 642 anos da Batalha de Atoleiros é evocar um momento que ultrapassa a cronologia e entra no domínio da consciência coletiva. Há factos históricos que recordamos e há outros momentos que moldam a nossa identidade. A Batalha de Atoleiros pertence a essa categoria maior; é um acontecimento que ajudou a afirmar Portugal, a consolidar a vontade nacional e a dar dimensão àquilo a que podemos chamar, sem excesso, a portugalidade.

Os grandes momentos da História têm esta singularidade. Inflamam as pessoas, porque lhes despertam coragem e pertença. Inflamam as instituições, porque lhes recordam a sua razão de existir. Inflamam as sociedades, porque as convocam para algo superior ao imediato. Quando um povo encontra um momento assim, não ganha apenas memória, ganha confiança e sentido.

Por vezes, esses momentos personificam-se. Em Atoleiros, personificam-se em Nuno Álvares Pereira. Nele encontramos não apenas o comandante vitorioso, mas a figura que une visão, firmeza e serviço. A sua liderança não foi apenas militar; foi moral e fundadora. A sua ação ajudou a demonstrar que a independência de Portugal não era uma abstração, era uma vontade concreta, capaz de se organizar, resistir e vencer.

Mas Atoleiros não é apenas a memória de um chefe extraordinário. É também a afirmação de um povo. É a demonstração de que a identidade nacional se constrói quando uma comunidade se reconhece numa causa comum e nela encontra a energia para permanecer leal a si própria. É por isso que esta batalha envolve e fala à alma portuguesa. E fala, de forma muito particular, a Fronteira. Esta terra não guarda apenas uma recordação: sustenta um legado. Ao preservar este lugar e ao celebrá-lo com dignidade e continuidade, Fronteira presta um serviço à memória nacional. O Município honra o passado e ajuda a projetá-lo no futuro. E essa é uma missão de elevado valor cívico e cultural.

Centro de Interpretação da Batalha dos Atoleiros
Centro de Interpretação da Batalha dos Atoleiros

O Exército Português honra-se profundamente deste momento. Honra-se porque reconhece em Atoleiros uma página matricial da sua história e da história nacional. Honra-se porque aqui revê valores que permanecem atuais: coragem, disciplina, comando, coesão e sentido de missão. E honra-se ainda porque sabe que a fidelidade ao passado só é verdadeira quando se traduz em responsabilidade perante o futuro.

Foi exatamente com esta intenção que iniciei esta intervenção, apelando à responsabilidade de compreender o mundo e os seus acontecimentos, ancorados na história, mas conscientes das suas evoluções e das responsabilidades que nos cabem.

É também por isso que, ao falarmos do Exército de hoje, devemos abordar o Exército que estamos a construir. A visão da Força Terrestre 2045 procura precisamente isso: um Exército moderno, tecnologicamente preparado, interoperável com os nossos aliados, mas absolutamente convocado para o essencial – servir Portugal, defender os portugueses e preservar a liberdade de decisão nacional. Modernizar não é romper com a herança; é torná-la operacional no presente e credível no futuro.

Desfile no dia 6 de Abril de 2026
Desfile no dia 6 de Abril de 2026

Entre Atoleiros e o Exército 2045 há, assim, uma mesma linha de sentido: a vontade de preparar, com lucidez e coragem, a defesa da Pátria. Mudam os meios, mudam os contextos, mudam as formas de combater. Não mudam, porém, os fundamentos. Continua a ser necessário carácter, liderança, coesão, competência e a consciência clara de que Portugal exige instituições prontas, íntegras e confiáveis.


Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Comemorar Atoleiros é reafirmar um vínculo entre momento e identidade, entre figura e exemplo, entre povo e destino, entre Fronteira e Portugal. É recordar que a Nação se constrói também por estes instantes fundadores, que permanecem vivos porque continuam a dizer-nos quem somos, como somos e o que nos cumpre honrar.

Ao Município de Fronteira, a minha saudação e reconhecimento. Ao seu povo, a minha estima. À memória de Nuno Álvares Pereira e dos que combateram em Atoleiros, a minha reverência. E a Portugal, como sempre, a inteira dedicação do Exército.

Viva Fronteira.

Viva a memória da Batalha de Atoleiros.

Viva Portugal.

* Discurso proferido nas Comemorações dos 642 anos da Batalha de Atoleiros.
** Vice-chefe do Estado-Maior do Exército.