António Aresta **
Estamos todos aqui reunidos e congregados para falar da identidade cultural de Macau e de um alargado conjunto de personalidades, as Figuras de Jade, cuja vida e obra recuperamos do esquecimento.
Por vezes, do mais atroz esquecimento.
E o local onde nos encontramos é emblemático e simbólico, um vistoso palácio cuja história nos remete para os combates pela liberdade e pela restauração da independência de Portugal.
Mas não ficou parado no tempo, abriu-se descomplexadamente à modernidade irrequieta que está atenta a todas as derivas da natureza humana.
Lembro estas palavras de Albino Forjaz de Sampaio [1884-1949], um grande escritor e amigo de Camilo Pessanha : “Lisboa esqueceu há muito que do seu Tejo saíram as armadas que conquistaram, descobriram, povoaram de ocidentalismo esse oriente longínquo”.
Esse ocidentalismo eram os valores magnos de uma Europa latina e cristã, empreendedora e corajosa, cuja decadência se ficou a dever a este problema estrutural, exemplarmente apontado por Aquilino Ribeiro [1885-1963]: “O império decaía desde que do reino deixaram de mandar as três coisas sacramentais – verdade, espadas largas e portugueses de oiro” [Constantino de Bragança, VII Vizo-Rei da Índia, p. 42].
Ontem como hoje, esse parece ser o nosso problema ou o nosso fado.
Nas Figuras de Jade, procuramos fixar o retrato espiritual dos portugueses no extremo oriente dentro da moldura do diálogo entre os povos e as civilizações.
A opacidade em relação às coisas de Macau deve fazer parte dos mistérios que rodeiam o Oriente, ao mesmo tempo que alimentam um orientalismo ignorante e romântico.
As Figuras de Jade são pessoas singulares, portuguesas e de outras nacionalidades, por vezes instituições com pessoas dentro, cujo contributo foi decisivo para a edificação da fisionomia espiritual, mental, cultural, estética e política de Macau, valorando a memória do que fomos e do que somos, projectando o que valemos num presente e num futuro de contrastes e de diferenças.
A história cultural de Macau tece-se com o fio colorido que une todas estas vidas, com propósitos e circunstâncias que nos surpreendem repetidamente.
Dizia Vergílio Ferreira [1916-1996] que “a história do homem é a das suas utopias, ou seja, a da sua permanente insatisfação. Mas toda a utopia paga a factura que a vida lhe apresenta, ou seja, a que lhe apresenta a realidade” [Pensar, 1992, p. 50].
E perante todas as inúmeras condicionantes, que a sociedade e o mundo nos colocam, ainda mantemos a liberdade de agir, a liberdade de pensar e de contraditar e a liberdade de intervir no meio onde nos movimentamos.
Stefan Zweig [1881-1942], austríaco de origem judaica, é uma figura luminosa da cultura europeia, e hoje injustamente esquecida, fez uma notável conferência em Roma, em 1932, onde dissertou sobre “A Desintoxicação Moral da Europa”, no intervalo entre as duas primeiras guerras mundiais.
A desintoxicação moral é importante como profilaxia para muitos dos males que nos afligem, desde a governança do país até às relações internacionais, sem esquecer a dicotomia guerra e paz que hoje nos preocupa e condiciona.
A cultura necessita de ter um respaldo no ser humano e no seu universo de valores onde a arte, a ciência e as humanidades se conjugam para tornar o mundo melhor.
Nós vivemos imersos numa conjuntura social e política de grande complexidade, cujas ideologias tendem a apagar a memória substantiva da história. Da nossa História.
E com a guerra na Europa, assistimos a uma continuada banalização do mal, para utilizar um conceito muito caro a Hannah Arendt, que desequilibra o direito internacional, ameaça a paz e a solidariedade entre as potências e tende a apagar o universo axiológico que nos ilumina.
E não há dúvida de que necessitamos de um renovado programa de desintoxicação moral, de que nos falava Stefan Zweig.
Ao estudarmos o legado de figuras tão díspares e misteriosas [a título de exemplo, Lourenço Marques, José Vicente Jorge, Leôncio Ferreira, Albano Magalhães, Pedro Nolasco da Silva, Régis Gervaix, José Gomes da Silva, Manuel Teixeira, João Milner, José da Costa Nunes, Deolinda da Conceição, Carlos Estorninho, Joaquim Guerra] percebemos melhor os motivos pelos quais Macau sempre se afirmou como uma cidade cosmopolita onde a coexistência de povos, de religiões e de culturas, com amplas liberdades, sempre foi a sua maior riqueza e um polo de atracção regional e internacional.


E sem esquecer Luís de Camões, Bocage e Camilo Pessanha, três figuras que estão no panteão da literatura nacional, que viveram em Macau.
Esta investigação metódica ambiciona valorizar a identidade cultural de Macau e é centrada em pessoas singulares, cabendo ainda uma certa problematização mobilizadora de saberes da filosofia, da história das mentalidades e do quotidiano, da religião ou da psicologia, sem esquecer os lances da biografia e da história literária.
No fundo é um pequeno e honesto esforço para pensar Macau.
O fascínio pela história cultural e política de Macau resulta de uma plataforma antropológica onde a busca de sentido se faz interpelando os mistérios das relações entre os povos e entre as civilizações, no exíguo perímetro do Território.
E o tempo do conhecimento parece que traz resignação perante as conflitualidades e as derivas ideológicas.
A visão desafiadora é o movimento seguinte.
A moldura teórica gizada para pensar e entender Macau, fora da habitual narrativa historiográfica, tem dívidas a saldar com Manuel da Silva Mendes, Carlos Montalto de Jesus, Charles Boxer, Austin Coates e Luís Gonzaga Gomes, cujos 50 anos da sua morte estamos a evocar.
São dívidas que eu não sei se serei capaz de saldar.
São autores independentes com profissões divergentes, todos com obra nem sempre devidamente estimada, lida ou reeditada pelos contemporâneos.
Une-os um indisfarçável amor a Macau, à sua história e cultura, com um trabalho porfiado e sério, com uma escrita elegante que nos conduz à descoberta de conexões argumentativas só acessíveis a inteligências superiores.
São figuras incontornáveis para se compreender as errâncias da história do Território em função de uma China enquanto sujeito metaproblemático.


As Figuras de Jade – os portugueses no extremo oriente, foram na sua esmagadora maioria publicadas no diário matutino, Jornal Tribuna de Macau, cabendo-me agradecer aos seus directores, José Rocha Diniz e Sérgio Terra, o bom acolhimento que lhes foram dispensando ao longo dos anos.
A publicação em livro ficou a dever-se à generosidade e visão estratégica do Instituto Internacional de Macau, que é o maior editor em Macau, que as integrou numa prestigiada colecção ‘Suma Oriental’, que conta com mais de quarenta títulos já editados.
O meu agradecimento é devido a José Lobo do Amaral e a Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau desde 1999, também ele uma Figura de Jade e autor de Falar de Nós, uma série monumental com vinte volumes já editados. Dificilmente poderemos falar de Macau sem os consultar.
As Figuras de Jade – os portugueses no extremo oriente que hoje aqui apresentamos ostentam estes indicadores :
Volume I , 2014, com 39 Figuras , prefácio de José Rocha Diniz.
Volume II, 2018, com 33 Figuras, prefácio de Ana Costa Lopes.
Vol. III, 2021, com 43 Figuras, prefácio de José Valle de Figueiredo.
Vol. IV, 2025, com 48 Figuras, prefácio de Celina Veiga de Oliveira.
No prelo está o Volume V, com 53 Figuras, prefácio de António José Queiroz, para ser também apresentado no Dia de Portugal, deste ano de 2026.
Até ao momento presente foram apresentadas, estudadas e divulgadas 216 personalidades, sem dúvida, uma gota de água em tamanho oceano.
O volume VI está em preparação.
Se me fosse perguntado qual destas 216 Figuras de Jade eu poderia considerar a primeira entre todas, sem hesitação eu escolheria um homem que veio do Minho para Macau.
Estou a falar de Manuel da Silva Mendes [1867-1931].
No meu entendimento, o rosto português da figura cultural de Macau é Manuel da Silva Mendes.
Quando aportou a Macau em 1901, já era o autor de uma obra seminal, Socialismo Libertário ou Anarquismo, publicada em 1896 [e reeditada em 2006].
Manuel da Silva Mendes é uma figura ímpar : pelo ethos emergente da sua omnipresença cultural e cívica, pela sua obra filosófica, estética e sinológica, pela sua requintada faceta de coleccionador de obras de arte, ou ainda como professor e reitor do Liceu, vereador do Leal Senado ou como advogado.
Não falando da sua casa apalaçada, de tai pan, que mandou erigir na colina da Guia.O seu nome também está na toponímia local.
Recordo que em parceria com Rogério Beltrão Coelho, coordenei a Obra Completa, justamente intitulada Manuel da Silva Mendes – Memória e Pensamento, em 3 volumes, com mais de 1600 páginas.


É uma personalidade que se impõe por si própria e está no centro de uma constelação axiológica que liga os valores luso-chineses e sino-portugueses e que a encartada lusitana docta ignorantia manifesta dificuldade em ler para compreender.
No meu ponto de vista, Manuel da Silva Mendes representa o expoente máximo da intelligentzia portuguesa expatriada, um misto de sensibilidade, de entendimento, de espiritualidade e de racionalismo e também de amor a essa entidade mítica que é Macau, onde tantas personalidades de excepção tiveram a sorte de viver ao longo dos séculos.
Para terminar, vou citar um fragmento de um ensaio da professora da Universidade de Xangai, Sofia Minfen Zhang, dedicado às Figuras de Jade – os portugueses no extremo oriente :
“Num tempo em que ainda ecoam discursos sobre o conflito entre civilizações, o espírito das ‘figuras de jade’ revela-se mais precioso do que nunca : ensina-nos que a fusão cultural não implica assimilação nem perda de identidade, e que o diálogo entre civilizações é sempre uma escultura inacabada. Cada pessoa que, no meio das diferenças, permanece fiel à sua essência e conserva a suavidade inclusiva mesmo no confronto é, em essência, uma ‘figura de jade’ do nosso tempo”.

*Conferência proferida no dia 7 de Abril de 2026 no Palácio da Independência.
**Professor e investigador.
