A viagem do Cisne (Capriccio)

Concepção artística de Lohengrin do começo do século XX Concepção artística de Lohengrin do começo do século XX
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Annabela Rita *

…l’enracinement familial est un élément clé de l’identité au sein des
mondes traditionnels et hiérarchisés mais un élément qui pose problème,
qui peut entrer en conflit avec d’autres points d’ancrage dans des sociétés
qui croient aussi à la valeur, au mérite, à l’exploit. C’est de cette tension
que se nourrit le discours généalogique.

La passion nobiliaire pour la généalogie, ressentie à l’époque
révolutionnaire comme une vanité opprimante et un obstacle à l’égalité
entre les hommes, était bien un fondement de la société d’Ancien régime.
Elle s’enracinait très loin dans le passé. Pour en cerner les origines,
pour en faire l’archéologie, il faut remonter à la période de formation de la
société féodale (Xe-XIIe siècles).

En premier lieu, entre le Xe et le XIIIe siècle, les structures de parenté de la noblesse
se transformèrent. En forçant le trait, on passa d’une parenté
large, fluide, “horizontale”, d’implantation géographique diffuse,
caractéristique du haut Moyen Age, à une parenté valorisant surtout
l’ascendance masculine, “verticale”, ancrée sur des lieux identitaires
comme les châteaux. C’est la naissance du lignage, qui peut être considéré,
selon Dominique Barthélemy comme : « un groupe de parenté défini par
l’une des lignes de filiation (en général, la paternelle), et dont les membres,
frères ou cousins entre eux, conservent des formes d’action commune et de
solidarité, avec un nom et une conscience de leur origine”. L’apparition du
nom de famille, la “révolution anthroponymique », est, en effet,
concomitante et s’opéra partout en Europe, selon des rythmes et des
modalités variables.

Germain Butaud e Valérie Piétri [1]

Entenda-se o que está em jogo aqui: situa-se nas Metamorfoses o nascimento da ficção, no sentido de que é ali que se materializa a passagem do mito à ficção, e da ficção ao mito. Lugar em todos os sentidos paradoxal: a ficção estaciona o fluxo transformacional da metamorfose etiológica, mitológica, submetendo-a à soberania do estado (da ficção). O poder transformacional dos “mitos estruturais etiológicos”, a metamorfose primeira, o “mito menor” (Viveiros de Castro), é acaparado pelo monopólio dos sacerdotes, e do teológico-político (o “mito maior”), herdeiros do poder divino.

João Camillo Penna. “Metafísica da variação” [2]

Do nascimento do mito…


Na diocese de Colónia, com vista para o Reno, ergue-se um vasto e famoso palácio chamado Nijmegen. Conta-se que, há muito tempo, na presença de inúmeros príncipes e do imperador, um pequeno barco foi visto aproximando-se da margem do rio, puxado por um cisne com uma corrente de prata em volta do pescoço. Todos os espectadores se levantaram, maravilhados com a proeza. Então, um jovem cavaleiro, desconhecido por todos, saltou do barco; e o cisne, como viera, partiu, puxando o barco pela corrente. 

Geoffrey de Auxerre, Comentário sobre o Apocalipse [3]

…the arrival of Lohengrin, who is seen in the distance in a barque pulled by a swan.
MEN
Behold! Behold! What strange and wonderous things is this? A swan?
A swan is pulling a barque towards us!
A knight is standing upright in it!
How his armour shines! The eye is dazzled
by such splendour! Behold, he is coming ever closer!
The swan is pulling on a golden chain!

MEN
A miracle! A miracle! A miracle has happened,
a miracle never before seen or heard!


Richard Wagner. Lohengrin (libretto, acto I, cena I)

Qual Vénus nascida das ondas e trazida para terra por uma concha ou Zeus-Cisne aproximando-se suavemente da margem onde Leda molhava os pés, também o Cavaleiro do Cisne poisou em terra súbita e majestosamente, trazido pelo cisne a que deveu o nome… nas bacias dos rios Mosa e Reno, onde a iconografia heráldica e monumental lembra a ocorrência. E adquirirá dupla nomeação, com pormenores existências diferentes: (H)Elias, filho de Orians, rei da ilha de Mar (ou “l’Île-Fort”), e Lohengrin, filho de Parsifal (na tradição germânica de Wolfram von Eschenbach), miraculosamente salvo por um anjo do feitiço da avó Matabrune que lhe transformou os irmãos…

Gravura do séc. XIX que retrata Lohengrin em uma nacele puxada um cisne, cena inspirada na ópera Lohengrin, de Richard Wagner
Gravura do séc. XIX que retrata Lohengrin em uma nacele puxada um cisne, cena inspirada na ópera Lohengrin, de Richard Wagner

O cenário, os factos e as personagens


Mais je ne vous veus dire ne mençogne ne fable;
Ains vos dirai canchon, ki n’est mie corsable,
Car ele est en l’estoire, ce est tout véritable.
En escrit la flst mètre la bone dame Orable,
Qui moult fu preus et sage, cortoise et amiable,
Dedans les murs d’Orenge, la fort cité mirable. [4]

Anónimo

Em Kleve (Renânia do Norte-Vestfália, Alemanha), o antigo Ducado de Cléves é o epicentro do ramo germânico da lenda, ligando o cavaleiro Elias (Helias) à mítica Duquesa Beatriz, como lembra a decoração a cidade: no cimo, o Castelo de Schwanenburg (literalmente, Castelo do Cisne), eleva a Schwanenturm (Torre do Cisne), encimada pelo catavento em forma de cisne e lembra no portal de entrada trabalhado a fundação mítica da dinastia local através da barcaça sagrada; no centro, o Schwanenritterbrunnen (Chafariz do Cavaleiro do Cisne) em bronze representa o momento exato da despedida forçada (o cisne gigante, com a corrente de ouro ao pescoço, puxa o barco, enquanto o Cavaleiro tenta alcançar os seus dois filhos e a sua esposa em desespero).

Vale do Rio Semois
Vale do Rio Semois

Em Bouillon (Ardenas, Bélgica), nas margens do rio Semois, o imponente castelo familiar de Godofredo de Bouillon (neto direto do Cavaleiro do Cisne), estátuas cavaleirescas e heráldica também convocam essa memória: à entrada da vila e nos pátios de armas do castelo fortificado, a figura de Godofredo surge imortalizada em estátuas e relevos arquitetónicos com insígnias onde o cisne e a cruz de Jerusalém se combinam. E, pela região histórica da Baixa Lorena (hoje, partes da Bélgica, Holanda e Alemanha), brasões municipais e de antiga aristocracia replicam o cisne heráldico de prata coroado ou acorrentado, assinalando que aquela terra ou aquela linhagem específica reivindicavam o solo onde o barco misterioso de (H)Elias aportou pela primeira vez.
Na origem, enlaçam-se factos e fantasia.


… a fábula do cisne, que /…/ é relatada num grande
número de histórias e que levou ao ditado comum de que
os filhos do Conde Eustace tiveram um nascimento
milagroso… 

Guilherme de Tiro. Historia rerum in partibus
transmarinis gestarum (Livro IX, cap. 6)

…teríamos tendencialmente a (impossível) coincidência
das duas: estória e história. /…/ Impossível decidir se o
espelho é fiel ao que se dá fora ou é mais uma dobra do
que se passa dentro.

João Camillo Penna. “Metafísica da variação”

De facto, existiram o Ducado de Brabante (no coração dos atuais Países Baixos e da Bélgica, abrangendo cidades como Bruxelas, Lovaina e Antuérpia), o Rei Henrique (Henrique I, o Passarinheiro (Heinrich der Vogler), monarca germânico do séc. X) e as dinastias governantes que, a partir do séc. XII, se prestigiavam com a lenda de Elsa e Lohengrin, assumindo uma aura de origem divina e mística perante os reinos rivais. E, factualmente, a Europa dos sécs. XI-XII era assolada por guerras civis sempre que um senhor feudal morria deixando apenas filhas mulheres ou herdeiros menores, situação que fazia desejar um “campeão” que os defendesse. Por fim, também os rios serpenteavam…

Godofredo de Bouillon (1060-1100)
Godofredo de Bouillon (1060-1100)

Godofredo de Bouillon (1060–1100), Duque da Baixa Lorena, um dos principais líderes da Primeira Cruzada e o primeiro governante do Reino de Jerusalém (1099), foi quem trouxe o mito para a realidade histórica, transformado num “super-herói” medieval (perfeição militar e espiritual) que os cronistas posteriores tentaram explicar inventando-lhe uma ascendência divinizada (o avô materno como Cavaleiro do Cisne, Godofredo II, o Barbudo, Duque da Baixa Lorena e Conde de Verdun; a mãe, Ida de Bouillon/Lorena, romantizada como Elsa de Brabante, que casa com o Conde Eustácio II de Bolonha). Numa geografia onde abundavam os cisnes, o seu misticismo embebeu a árvore genealógica mais invejada da Idade Média. [5]
Elsa de Brabante, ficcional, é a clássica “donzela em perigo” justificando o socorro do herói perfeito e a paixão recíproca…

Na lenda medieval alemã, após a morte do Duque de Brabante (pai de Elsa), o seu irmão mais novo, Gottfried, desaparece misteriosamente e o vilão Conde Friedrich von Telramund (instigado pela sua ambiciosa esposa, a feiticeira Ortrud) acusa falsamente Elsa de ter assassinado o próprio irmão, legítimo herdeiro do Ducado, para usurpar o trono de Brabante. O caso é levado ao suserano (o rei Henrique I), que opta por um duelo de espadas sob o juízo de Deus para decidir onde estaria a verdade. Telramund, guerreiro formidável, desafia qualquer um a lutar por Elsa, que reza por um salvador, aparecendo um cavaleiro misterioso (Lohengrin/(H)Elias) num barco puxado pelo cisne, que lhe impõe uma condição para o efeito: se ele vencer e casar com ela, ela nunca poderá perguntar o seu nome ou origem. A vitória dita o que se segue: inocenta Elsa, promove o casamento e descendência… até que ela quebra a promessa e ele tem de se ir embora no mesmo barco conduzido pelo cisne que, afinal, era Gottfried que Ortrud transformara em Cisne. Desfaz-se o feitiço com uma prece de Lohengrin em despedida: uma pomba branca desce do céu, a corrente de ouro solta-se e o cisne afunda-se na água, emergindo logo a seguir como o jovem Gottfried. Elsa morre de dor…

Lohengrin, pintura de August von Heckel (1886)
Lohengrin, pintura de August von Heckel (1886)

Na tradição tardia do romance medieval alemão (v. anónimo Lohengrin, séc. XIII), p. vezes, a linhagem não se extingue com a partida do herói, pois o casal tivera dois filhos e um deles tem o nome do pai (Lohengrin, o Novo), sendo formalmente adotado, na sua orfandade, pela Imperatriz (a esposa do rei Henrique I, o Passarinheiro) e transforma-se num temível líder militar dos territórios de Brabante e das regiões circundantes ao rio Mosa ao serviço do Sacro Império Romano-Germânico (terras que, em honra de pai e filho passam a chamar-se Lothringen, atual região da Lorena, entre a França e a Alemanha). Em certas versões (v. poema medieval alemão Lorengel), esse primogénito homónimo apaixona-se e casa-se com uma princesa (em alguns textos, a princesa Belaye) e revela quem é a sua família, fundando uma dinastia terrena feliz e sem segredos. Enfim, continuações assegurando o sangue sagrado de Parsifal e do Graal às grandes dinastias europeias, mesmo quando elidem a ligação às cruzadas (Wolfram e Wagner).

… il quitte la scène au moment où
la légende doit faire place à l’histoire.

C. Hippeau

… à sua viagem…


Castelo de Almourol
Castelo de Almourol

O Cisne (Cygnus) voa através da Europa, trazendo-nos o seu cavaleiro.
Na Península Ibérica, abre as suas asas, transmutando-se em constelação. E projecta as suas 5 estrelas em fortificações templárias da fundação portuguesa que a cristofania de Ourique já dotara de 5 quinas (as chagas de Cristo e os reis mouros derrotados): Deneb(Alpha Cygni)/Castelo de Tomar (1160), a cauda do Cisne; Sadr (Gamma Cygni)/ Torre de Dornes (séc. XII), o coração do Cisne; Albireo (Beta Cygni)/ Castelo de Almourol (1171), a cabeça ou o bico do Cisne; Gienah (Epsilon Cygni)/Castelo de Castelo Branco (1165-1230), a asa direita/oriental do Cisne, Delta Cygni (Rukh)/Castelos de Soure (1128-75) e Pombal (1156), e a asa esquerda/ocidental do Cisne, abrindo-se as duas a partir do coração. Eis a “Cruz do Norte” evocadora do Calvário.
No céu, o voo do Cisne une-o em beijo à brilhante estrela Altair (Alpha Aquilae, do árabe antigo Al-Nesr Al-Ta’ir/”A Águia que Voa”), da constelação Águia, olho/coração da grande águia de Zeus, a portadora do “fogo divino da inspiração” que os enlaça num casamento eterno. E Altair, Deneb (da constelação do Cisne) e Vega (da constelação da Lira) formam o famoso asterismo do Triângulo de Verão, reflexo da ordem divina (a Santíssima Trindade).
“Guardiã” do Cisne terrestre (a “Cruz do Norte), a constelação do Dragão conduz as correntes energéticas da própria Terra pela linha serpenteante de fortificações da Beira Baixa e na bacia do Rio Zêzere como escudo protector, ancorando o céu na terra: da cabeça do Dragão, cujo quadrilátero de estrelas se espelha nos castelos de granito da Beira Baixa (Eltanin/ Monsanto, a mais brilhante e os seus “olhos”, Rastaban/ Idanha-a-Velha, antiga e mística Egitânia, Grumium/ Penha Garcia e Kuma/ Segura), ao corpo sinuoso da serpente de água do Zêzere (castelos da Sertã, Cera (Alvaiázere) e Belver) e à cauda terminando na estrela Thuban/Alpha Draconis (Castelo de Soure, o “ponto fixo” de origem, primeira doação aos templários, 1128). A sul, o dragão inscrever-se-á fluvialmente em Odeleite, incrustando o Oriente no extremo Ocidente: a ribeira-Dragão Azul (“The Blue Dragon River”). Entre o Cisne (o espírito, a ave celeste, o Cruzeiro do Norte) e o Dragão (a matéria, a força da terra, a linha do rio serpenteante), Portugal nasce desse equilíbrio perfeito entre o Céu e a Terra, projectando-se para o oceano onde o infinito se espelha…

… no espaço:


Conde D. Henrique (1066-1112)
Conde D. Henrique (1066-1112)

D. Henrique, qual novo (H)Elias/Lohengrin, é o cavaleiro que liga sanguineamente Borgonha a Portugal.
Os Duques da Borgonha e os reis de Portugal defendiam, numa estratégia política de consanguinidade mística, esse imaginário feérico segundo o qual (H)Elias e Lohengrin eram dois nomes do mesmo cavaleiro misterioso avô de Godofredo de Bouillon, Cavaleiro do Cisne que veio do Conselho do Graal, (H)Elias ou Lohengrin… e as farão a sua propaganda sobre o ADN místico partilhado que os obrigava ou lhe dava direito a liderar a guerra santa contra o Islão e a dominar os confins da Terra…

Filipe, o Bom (1396-1467)
Filipe, o Bom (1396-1467)

Na Casa de Borgonha (Dinastia Valois), Filipe, o Bom e Carlos, o Temerário reclamavam o Cavaleiro do Cisne por apropriação territorial de linhagem e casamentos com a alta nobreza do Sacro Império Romano-Germânico (não por via patrilinear direta pois os Valois eram franceses), com destaque para o de Maria de Borgonha (irmã de Filipe, o Bom), com o Duque Adolfo I de Cléves, do Ducado de Cléves, que alegava ser a descendência direta e legítima da união entre o Cavaleiro do Cisne (Helias/Elias) e a Duquesa Beatriz.
Assim entrou o sangue do Cisne diretamente na família ducal da Borgonha através de Adolfo de Cléves (sobrinho do Duque da Borgonha) publicamente tratado e considerado como o herdeiro biológico vivo do Cavaleiro do Cisne, personalidade que, no Banquete do Voto do Faisão (1454) [6], abriu os torneios ostentando o cisne de ouro, numa declaração à Europa de que a Borgonha possuía o direito de sangue de lançar a nova Cruzada porque os seus príncipes eram os legítimos parentes de Godofredo de Bouillon. Na ocasião, no casamento do Duque com D. Isabel (1430) e nos casamentos seguintes da dinastia, os cisnes mecânicos e teatrais marcaram presença, destacando-se o do casamento de Carlos, o Temerário (Bruges, 1468), gigantesco e navegando sobre uma estrutura que imitava água, trazendo uma trupe de atores disfarçados e de sereias mecânicas que cantavam. E Filipe, o Bom, recebeu a noiva com a simbólica oferta de um casal de cisnes como promessa de fidelidade (a que falhou, diga-se)…

Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal (1360-1415)
Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal (1360-1415)

Em Portugal, além da dinastia afonsina/borgonhesa com inequívoca ascendência do Cisne, também a dinastia de Avis reivindicava directa ligação heráldica e genética ao avô de Godofredo de Bouillon por via inglesa (Bohun/Lencastre) através da rainha D. Filipa de Lencastre (filha de João de Gant e de Blanca de Lencastre, cuja mãe era Margarida de Bohun) [7]: a crónica da Casa de Bohun declarava formalmente que eles descendiam em linha reta de uma das filhas do Cavaleiro do Cisne original.

Assim reforçou a sua legitimidade uma dinastia iniciada na bastardia (o Mestre de Avis) eleita pelo povo em cortes: a “Ínclita Geração era dotada do sangue heráldico do De Bohun Swan (o cisne acorrentado) que a tornava geneticamentesagrada e aparentada com os conquistadores de Jerusalém, numa fraternidade mística de cruzada entre a Borgonha e Portugal. E, quando Isabel de Avis casou com o Duque Filipe, o Bom, da Borgonha), os cronistas celebravam a união como o reencontro das linhagens do Cisne. Em Portugal, o Cisne integra a convicção da linhagem e a propaganda régia: se D. João I mandou pintar 27 Cisnes (a idade de Filipa de Lencastre quando veio casar com D. João I, em 1387, e a da filha Isabel de Portugal quando casou com o Filipe III, o Bom, de Borgonha, em 1429) com gorjais em forma de coroa de ouro no pescoço no teto no teto da Sala dos Cisnes (1385-1433) do Palácio de Sintra (o De Bohun Swan, emblema heráldico da linhagem materna da rainha D. Filipa de Lencastre associado ao Cavaleiro do Cisne), D. João II, encarnou o mítico “Cavaleiro do Cisne”, usando um famoso autómato de Cisne mecânico com penas brancas e douradas no espectáculo de 1490 (nas festas do casamento do Príncipe herdeiro D. Afonso com a Infanta D. Isabel de Castela em Évora). [8] Os 27 cisnes da Sala dos Cisnes do Palácio de Sintra (em caixotões octogonais insinuando a eternidade) derivam diretamente do De Bohun Swan, o emblema heráldico da linhagem materna da rainha D. Filipa de Lencastre associado ao Cavaleiro do Cisne. Na sua diversidade de poses, simulam um bando de cisnes reais a deslizar livremente pelas águas de um lago e convidando à leitura de cada “janela”.

Carlos, o Temerário (1443-1477)
Carlos, o Temerário (1443-1477)

Talvez a linhagem luso-borgonhesa tivesse, de facto, inspirado profundamente abrindo as asas esperançosas num último e simbólico reencontro representado no enigmático Políptico de S. Vicente, fundindo a sua memória e a sua prospectiva do Imperador dos Últimos Dias: o pacto entre D. Afonso V e Carlos, o Temerário, aliança de linhagem (v. Cruz aspada da Casa de Borgonha [9]), justificada no projecto da fundação henriquina com a missão da instauração de um Quinto Império do Espírito Santo (Ave, Pomba) do mundo, cumprindo a Demanda do Graal. [10] Talvez… mais um capítulo da “História para os Anjos” [11]…

Palácio Nacional de Sintra
Palácio Nacional de Sintra

O cisne reaparece, indicando a ida de Lohengrin,
que reza pela volta do irmão de Elsa, desaparecido.
O cisne desaparece nas águas e reaparece na forma do jovem
Gottfried, que havia sido transformado em animal
pelo feitiço de Ortrud.
Uma pomba aparece do céu, e assumindo o lugar do cisne, guia
Lohengrin de volta para o castelo do Santo Graal.

Aaron Shepard  (reconto)

… e no tempo e nas Artes:


Ali, em lágrimas, tomada pela tristeza, proferiu com voz frágil
palavras em sintonia com sua própria dor, como um lamento fúnebre.

que o cisne às vezes faz quando está perto da morte.
Finalmente, em meio a um choro convulsivo, ela se liquefez até à medula,
dissolveu-se e, pouco a pouco, desapareceu no ar leve.


No entanto, sua fama permaneceu ligada ao lugar…


Ovídio. Metamorfoses (XIV, 428-433)

A começar pelas velhas e fascinantes iluminuras, como as do célebre Livro de Talbot-Shrewsbury (1444/5, manuscrito Royal 15 E VI, British Library), que contém Lystoire du chevalier au Cygne e a iconografia do Cisne acorrentado puxando a barcaça, que circulou entre as nobrezas inglesa, borgonhesa, francesa e portuguesa… e que foi tema da Tapeçaria do Cavaleiro com o Cisne (Oficina de Pasquier Grenier, Tournai, c.1460).

(Lohengrin is visible again in distance;
he is standing in the barque,
his head sunk in sorrow on his shield.
Elsa, whom Gottfried is holding in his arms,
slowly sinks lifeless to the ground.
Lohengrin is seen receding into the distance)

Richard Wagner. Lohengrin (III acto) [12]

Cena de "O Lago dos Cisnes" de Piotr Ilitch Tchaikovsky
Cena de “O Lago dos Cisnes” de Piotr Ilitch Tchaikovsky

Deixando as linhagens medievais e o seu corpus bibliográfico, o Cisne renasce na melancolia e no misticismo finisseculares como sinal do exílio da alma e da transição entre a vida e a morte do (Neo-)Romantismo europeu. Do operático Lohengrin (1850), de Richard Wagner, ao poema sinfónico O Cisne de Tuonela (1895), de Jean Sibelius, dos bailados O Lago dos Cisnes (1877), de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, e A Morte do Cisne (1905), de Mikhail Fokine e Camille Saint-Saëns, aos poéticos The Dying Swan (1830), de Lord Tennyson, Le Cygne (1859, in As Flores do Mal), de Charles Baudelaire, da pictórica A Princesa Cisne (1900, baseada num conto de fadas de Alexander Pushkin), de Mikhail Vrubel, ou do de Hilma af Klint (The Swan, 1915), sem esquecer as suas contra-cenas com Leda pintadas por Leonardo da Vinci (c. 1503–08), Michelangelo Buonarroti (1529–30), Correggio (c. 1530–31), Veronese / Tintoretto (c. 1570–85), Peter Paul Rubens (1598–99), François Boucher (1742), Francisco Vieira (Vieira Portuense) (1798), Gustave Moreau (Leda, c. 1865–75), etc., etc..
No topo da serra de Sintra, antes do famoso Castelo de Neuschwanstein (Novo Castelo do Cisne, 1869-86), ergueu-se o simbólico Palácio-Castelo da Pena (1840-60) emergindo como um cisne coroado da densa vegetação e do sonho do Rei-Artista português (D. Fernando II, 1816-85) da Baviera oriundo. Abaixo, Cygnus projectou-se na constelação lacustre do Vale dos Lagos do parque da Pena: em baixo, como em cima (Tábua da Esmeralda), cinco por onde deslizam majestosos cisnes e, reza a tradição, houve um casal de branco e negro, cinco por onde se distribuem casas de patos miniatura, uma das quais com a forma de uma torre romântica (evocando a Pena) e outra imitando uma fortaleza medieval com ameias (alusão ao Castelo dos Mouros). Pelo caminho, a neo-mourisca Fonte dos Passarinhos, ostenta uma inscrição em árabe referindo D. Manuel I e D. Fernando II como “sultões” responsáveis pela obra (em 1503 e em 1840, respectivamente).

Palácio Nacional da Pena
Palácio Nacional da Pena

Ainda em Sintra, a gruta da cenográfica Quinda da Regaleira, Leda, rainha de Esparta, continua a ouvir os sussurros do Cisne/Zeus entre beijos, a “língua das aves” dos iniciados, enquanto segura a pomba do Espírito Santo, fundindo ambas as mitologias ou, quiçá, congelando o processo da transformação de uma na outra…
No coração da Europa finissecular, o Cavaleiro do Cisne atingiu o seu ápice estético e monumental incorporado por Luís II da Baviera (o “Rei Louco”, 1845-86) [13], que nele se revê desde a infância no Castelo de Hohenschwangau (Castelo do Alto País do Cisne, reconstruído pelo pai, o rei Maximiliano II), todo afrescado por Lorenzo Quaglio com o ciclo da lenda de Lohengrin nas paredes do Schwanenrittersaal (Salão do Cavaleiro do Cisne) e com outras lendas medievais germânicas de óperas como Tannhäuser, Tristão e Isolda, até ao feérico Castelo de Neuschwanstein (Novo Castelo do Cisne), operático cenário do mito em todas as modalidades (esculpido nos painéis de madeira dos quartos, bordado a ouro nas cortinas e estofos, moldado nos puxadores e nas torneiras, pintado em afrescos colossais, configurado em tapeçarias), incluindo a famosa gruta artificial interior com estalactites e iluminação colorida onde Luís-Lohengrin navegava num barco-cisne melancolicamente ritmado por wagneriana música (Lohengrin, 1850), com destaque para o Coro Nupcial (de Lohengrin com Elsa de Brabante, cena da imposição do tabu da pergunta sobre as origens). [14]

Lago Starnberg cruzes em memória de Luís II da Baviera (1845-1886)
Lago Starnberg cruzes em memória de Luís II da Baviera (1845-1886)

O lago de Starnberg, perto do Castelo de Berg, envolveu na sua névoa a misteriosa morte de Luís II da Baviera, conclusão, quiçá, da longa metamorfose do Cavaleiro conduzido pelo pregnante simbolismo do Cisne-Zeus/Júpiter-Cristo-Graal-Lohengrin na sua imensa viagem de mito de fundação dinástica medieval legitimador das cruzadas na Borgonha e de impérios navais em Portugal, sinal da fraternidade mística de ambas as cortes e das dinastias governantes, mas também da aliança luso-britânica (1373). E a mesma névoa terá engolido, porventura, a profecia sibilina (oriental), prevendo a vinda de uma “Estrela no Ocidente” e o nascimento de um Rei Divino (uma figuração de Cristo e, mais tarde, do Último Imperador) que D. (E)Manuel I assimila e iconografa na sua esfera armilar cuja eclíptica (banda zodiacal) talvez evoque a viagem do Cisne…

Nas tradições reunidas no Kalevala —
organizado em livro no século XIX a partir de cantos orais [finlandeses] —
Tuonela é o mundo dos mortos.
Ali corre o rio que separa os vivos do além;
é uma fronteira que ninguém atravessa impunemente.
O cisne, deslizando nessas águas, [é] criatura-sentinela do local, presença calma e absoluta
num lugar onde tudo está em suspenso.
Na lenda, Lemminkäinen é enviado para uma missão impossível:
matar o cisne que nada no rio de Tuonela. /…/
Sibelius não narra isso passo a passo.
Ele escolhe um recorte, e dele faz o retrato:
o cisne, o rio, o ar imóvel de um outro mundo,
transformando aquele mito em um quadro. [15]

Ao fundo, a música faz-se ouvir na despedida: d’O Cisne (O Carnaval dos Animais, 1886), de Camille Saint-Saëns, a The Dying Swan, Op. 100 (Romance poétique, RO 76, 1869), de Louis Moreau Gottschalk, em que Vladimir Tretchikoff (The Dying Swan, 1959) pinta Anna Pavlova colapsando dolorosamente numa fusão de corpo humano e penas brancas…

O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo a sua vida,
Música com voz alta e mui subida
Levanta pela praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada
Chorando do viver a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

… Luís de Camões (atrib.)

[1] Germain Butaud, Valérie Piétri. Les enjeux de la généalogie (XII e-XVIII e siècles). Pouvoir et identité. Autrement, 2006, Yvan Gastaut et Stéphane Mourlane, 978-2-7467-0864-7. ⟨halshs-01225331⟩ [https://shs.hal.science/halshs-01225331/file/Livre%20genealogie%20complet.pdf].
[2] Prefácio de: Alexandre Nodari. A literatura como antropologia especulativa (conjunto de variações), Florianópolis, SC, Cultura e Barbárie, 2024, p. 22 [https://www.academia.edu/165225452/A_literatura_como_antropologia_especulativa_conjunto_de_varia%C3%A7%C3%B5es].
[3] Laurence Harf-Lancner, Les Fées au Moyen Âge : Morgane et Mélusine  , Slatkine, 1984, p. 120.
[4]  P. C. Hippeau (ed.). La Chanson du Chevalier au Cygne et de Godefroid de Bouillon, Paris, Aubry, 1874, p. 24 [https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/71/La_chanson_du_Chevalier_au_cygne_et_de_Godefroid_de_Bouillon_%28IA_ahs0465.0001.001.umich.edu%29.pdf]
[5] François Suard, “Pierre Desrey et la Généalogie de Godefroy de Bouillon”, Chanson de geste et tradition épique en France au Moyen Age, Caen, Paradigme, 1994. Cf., também: Gabrielle D’Amours. La Naissance du Chevalier au Cygne des manuscrits Bruxelles, KBR, ms. 10391 et Lyon, BM, 0744: édition et étude (Mémoite), Québec, Université Laval, 2022.
Tratou-se de uma excelente operação de propaganda poética e política.
Godofredo, o Barbudo era o Duque da Baixa Lorena. O famoso Castelo de Bulhão (Bouillon) e as suas terras pertenciam originalmente à sua linhagem (a Casa de Ardennes-Verdun), mas a sucessão daquelas terras foi atribulada por disputas feudais com o Sacro Império Romano-Germânico. A lenda do Cavaleiro do Cisne foi a solução mítica: Elias vem salvar a “Duquesa de Bulhão” de invasores que tentavam usurpar as suas terras e, ao casar com a filha dela, Elias torna-se o governante legítimo por direito divino e heroico. Fundindo Godofredo, o Barbudo com Cavaleiro do Cisne, os cronistas criaram uma origem sagrada e inquestionável para o domínio da família sobre o território de Bulhão: Ida de Lorena (Beatriz ou Yda nos poemas) era a sua filha e mãe de Godofredo de Bulhão.
Um cavaleiro enviado por Deus (ou pelo Conselho do Graal) num barco guiado por um cisne (símbolo de realeza, pureza intocável e justiça, de eleito da cavalaria) sinalizava a linhagem de Godofredo de Bulhão como dinastia predestinada a salvar a Terra Santa e a liderá-la…
[6] Fala-se, a propósito, de um “juramento solene sobre uma ave com um colar de pedras preciosas” na Borgonha, um faisão vivo usado por Filipe, o Bom no banquete de Lille (1454), inspirado na antiga tradição cavaleiresca de fazer juramentos sobre aves: o Duque e os cavaleiros do Tosão de Ouro juraram perante o faisão que iriam reconquistar Constantinopla aos Otomanos.
[7] Na realidade, o cisne era o emblema pessoal de Henrique IV de Inglaterra, irmão de Filipa de Lencastre.
[8] Garcia de Resende. Crónica de D. João Il e Miscelânea. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1973, p.150-154. Cito: “El-Rei entrou primeiro para desafiar a justa que havia de manter com invenção e nome do cavaleiro do Cisne, e veio com tanta riqueza e galantaria quanta no mundo podia ser.
Entrou pelas portas da sala com nove bateis grandes, em cada um seu mantedor, e os bateis metidos em ondas do mar feitas de pano de linho e pintadas de maneira que parecia água /…/.
E assi vinha uma nau à vela, cousa espantosa, com muitos homens dentro, e muitas bombardas, sem ninguém ver o artifício como andava, que era cousa maravilhosa. O toldo e toldos das gáveas de brocado, e as velas de tafetá branco e roxo, a cordoada d’ouro e seda, e as âncoras douradas. E assi a nau como bateis com muitas velas de cera douradas todas acesas, eas bandeiras e estandartes eram das armas d’El-Rei e da Princesa todas de damasco, e douradas; e vinham diante do batel d’El-Rei, que era o primeiro, sobre as ondas um muito grande e formoso cisne, com as penas brancas e douradas, e após ele na proa do batel vinha o seu cavaleiro, em pé, armado de ricas armas e guiado d’elle, e em nome d’El-Rei saiu com sua fala, e em joelhos deu à Princesa um breve conforme a sua tenção, que era quer-la servir nas festas do seu casamento…” (Chronica d’El-Rei D. João II por Garcia de Resende (conforme edição de 1622), Lisboa, 1902, pp. 94-95).
Este autómato desapareceu. Alguns confundem-no com o famoso “Cisne de Prata” (Silver Swan), impressionante autómato mecânico musical a morder um peixe que está no The Bowes Museum e que Mark Twain descreveu como criatura com “olhos vivos” (1867), mas este é de construção muito posterior (1773), pelo relojoeiro John Joseph Merlin, e foi recentemente recuperado por ocasião da exposição “A Magia do Cisne de Prata” (2023) (cf. vídeo [https://youtu.be/AOXqCuqDOiI?si=aZXMM-Cm2Ws3amEv]).
[9] Cf. Garcez Teixeira. O Significado dos Painéis de S. Vicente, Porto, 1945.
[10] Cf. Manuel J. Gandra. Manuel J. Gandra. Políptico das Janelas Verdes. O Imperador dos Últimos Dias e o Fim da História, Mafra, Cesdies, 2026.
[11] Cf. Annabela Rita. “Como poema ou Águia… História para os Anjos! (Capriccio)”, Independência. Revista de Cultura Lusíada, VIII/Séc. XXI, Lisboa, Sociedade Histórica da Independência de Portugal, 26/6/2026 [https://revistaindependencia.pt/2026/06/26/como-poema-ou-aguia-historia-para-os-anjos-capriccio/].
[12] Cf. [https://www.librettoarchive.com/Lohengrin_libretto_English_Act_3].
[13] Como membro da antiquíssima Casa de Wittelsbach, a genealogia de Luís II cruza-se com as linhagens borgonhesas dos reis de Portugal e dos Duques de Borgonha (Capetiana e Valois). Através de casamentos: p. ex., no século XIV, Isabeau da Baviera (Casa de Wittelsbach) casou-se com o rei Carlos VI de França e os seus descendentes casaram repetidamente com os Duques de Borgonha da Dinastia de Valois (como Filipe, o Audaz, e João, Sem Medo). Séculos mais tarde, houve mais alianças matrimoniais entre a Casa de Wittelsbach e a Casa de Habsburgo e a de Bourbon, que, por via feminina, absorveram os antigos territórios e o sangue dos Duques de Borgonha após a extinção da linha masculina em 1477. Por outro lado, além da dinastia borgonhesa, também as princesas portuguesas de Avis e de Bragança (que tinham o sangue da primeira dinastia através de linhas femininas e ramos ilegítimos) se casaram com imperadores do Sacro Império Romano-Germânico (Habsburgo) e reis de Espanha.
[14] O interior do Castelo de Neuschwanstein foi concebido como um cenário teatral real (inicialmente concebido pelo cenógrafo Christian Jank), com cada divisão dedicada a uma lenda medieval germânica das óperas de Richard Wagner. Luís II revia-se em cada protagonista mítico, com especial destaque para Lohengrin, o graálico Cavaleiro do Cisne (Quarto Real e Salão de Estar), cujo animal era o brasão dos antigos Senhores de Schwangau. As outras lendas-óperas foram: Tannhäuser (a Gruta Artificial e o Salão de Estar), sobre a luta entre o amor sagrado e o amor profano na mítica montanha de Venusberg (de Vénus) com a célebre Gruta artificial de estalactites e cascata; Parsifal (o Salão dos Cantores), com o mito deste, que encontra o Santo Graal, e a lenda do herói Gawain sob tetos estrelados; Tristão e Isolda (o Quarto de Dormir), com o ciclo trágico da paixão dos amantes. Apenas o Salão do Trono escapa aos mitos e lendas que Wagner trabalhou: inspirado na Basílica de Santa Sofia (Istambul), está afrescado com reis santos e Jesus Cristo, simbolizando o direito divino dos reis. Ironicamente, o trono em si, projectado em ouro e marfim, nunca chegou a ser construído, deixando a sala com um pedestal vazio…
[15] Citado de: [https://guiadosclassicos.blogspot.com/2014/08/1895-sibelius-poema-sinfonico-o-cisne.html].


* Professora Universitária e membro do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal