Carlos Papafina **
“Ler é como caminhar sobre os ombros de um gigante.” Li esta frase há muitos anos, escrita no caderno de uma criança de treze anos.
E lembro-me de ter ficado em silêncio.
Porque naquele instante percebi uma coisa profundamente desconfortável: apesar dos livros lidos, das viagens, das guerras testemunhadas, das histórias recolhidas ao longo da vida… talvez eu ainda não tivesse verdadeiramente aprendido a ler.
Aprender a ler não é apenas decifrar palavras.
É aprender a escutar o sofrimento dos homens, a memória dos povos, o silêncio dos lugares e aquilo que o tempo tenta apagar.
Talvez por isso tenha escrito o livro “O Mar Onde Nos Lemos”. Porque um país também se lê.
Um povo também se lê.
E o mar – esse grande livro aberto da nossa história – continua ainda hoje à espera de quem o saiba escutar.


Senhor Presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal,
Senhoras e Senhores,
Caros amigos,
Receber este prémio é, para mim, mais do que uma distinção literária. É um momento de profunda responsabilidade perante a memória de um país e perante todos aqueles que, ao longo dos séculos, fizeram do mar não apenas caminho, mas destino.
Vivemos num tempo estranho. Um tempo em que o ruído substitui frequentemente o pensamento, em que a velocidade ameaça destruir a memória, e em que os povos começam lentamente a esquecer quem são, de onde vêm e aquilo que os uniu. Talvez por isso tenha sentido necessidade de escrever O Mar Onde Nos Lemos.
Não para celebrar nostalgicamente um império desaparecido. Não para repetir velhos discursos de grandeza. Mas para tentar compreender aquilo que o oceano ainda nos diz sobre nós próprios.
Porque Portugal não nasceu apenas da terra. Portugal nasceu do horizonte.
Nasceu da coragem de homens simples que olharam o desconhecido e decidiram avançar. Nasceu de pescadores anónimos, de mulheres que ficaram à espera nas praias, de marinheiros que morreram sem sepultura, de povos que se encontraram, se misturaram, se feriram e se transformaram mutuamente através do mar.
O oceano foi a nossa primeira estrada global. Mas foi também o nosso primeiro espelho moral.
Nele existe tudo aquilo que somos: a coragem e o erro, a descoberta e a violência, a fé e a ambição, a poesia e a tragédia.


E talvez seja precisamente por isso que o mar continua a ser tão importante no século XXI.
Quando hoje olhamos o Atlântico, já não vemos apenas rotas comerciais ou fronteiras geopolíticas. Vemos alterações climáticas, sobrepesca, migrações humanas, disputas energéticas e novos equilíbrios mundiais. O oceano voltou ao centro da história. E Portugal, inevitavelmente, também.
Mas há uma pergunta que devemos ter coragem de fazer:
Que país queremos ser perante o mar?
Um país pequeno, resignado à periferia da Europa?
Ou uma nação capaz de voltar a pensar o oceano como espaço de conhecimento, cultura, ciência, língua e encontro entre civilizações?
Eu acredito profundamente na segunda hipótese.
Acredito que Portugal tem ainda uma responsabilidade histórica e cultural no mundo lusófono. Não uma responsabilidade de domínio- esse tempo terminou-, mas uma responsabilidade de diálogo, memória e construção comum.
A Lusofonia não pode viver apenas de cimeiras diplomáticas ou discursos protocolares. Tem de viver através da cultura, da ciência, da literatura, do cinema, da juventude, do mar e da capacidade de sonharmos em conjunto.
Porque aquilo que verdadeiramente une os povos não é o poder. É a memória partilhada.
E é essa memória que procurei escrever neste livro.
Ao longo destas páginas falei de Camões e de Sophia, de pescadores portugueses e de saveiros brasileiros, da morna cabo-verdiana e das pirogas moçambicanas, dos fantasmas, da escravatura e das mulheres que ficaram eternamente à espera do regresso dos homens do mar.
Porque o oceano não separa apenas continentes.
O oceano guarda vozes.
E talvez escrever seja precisamente isso: tentar escutar aquilo que o tempo quase apagou.


Quero agradecer profundamente à Sociedade Histórica da Independência de Portugal por esta distinção, que recebo com enorme honra e emoção: Num tempo em que tantas vezes se despreza a memória histórica, instituições como esta continuam a lembrar-nos que um país sem memória é um país sem futuro.
Agradeço também a todos aqueles que, ao longo da minha vida, me ensinaram a olhar o mundo com inquietação, humildade e espanto- desde os homens do campo e do mar até aos livros, às viagens, ao jornalismo e ao silêncio dos lugares esquecidos.
E permitam-me terminar com uma convicção muito pessoal.
Talvez Portugal nunca volte a ser um império. E ainda bem.
Mas pode voltar a ser uma consciência.
Uma consciência atlântica. Uma consciência cultural.
Uma consciência humana voltada para o mar, para o conhecimento e para o encontro entre povos.
Se conseguirmos isso, então o oceano continuará a escrever-nos numa só página.
Muito obrigado.

* Texto da intervenção de Carlos Papafina nas Cerimónias Comemorativas do dia da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (26 de Maio de 2026).
** Jornalista e vencedor do Prémio Mares Lusofonia.
