Annabela Rita *
/…/ não é certo que o pensamento mítico tenha sido abolido
[…] Ele conseguiu sobreviver, embora radicalmente
modificado […] e o mais curioso é que ele sobrevive,
sobretudo na historiografia.
Mircea ELIADE
Aspectos do mito,
Lisboa, Edições 70, 1989, p. 27.
Era uma vez um Rei(no)…
… que “nasceu como poema” (Manuel Alegre) ou Águia (Jaime Cortesão).
Um enigma (Francisco da Cunha Leão), um problema (Pedro Calafate), insólito e prodigioso (Gregório de Almeida, Joaquim Fernandes), um tesouro (Gilbert Durant), um (contin)ENTE a “cumprir um destino” (Raphael Baldaya, André Coyné) codificado em horóscopo (António Telmo, João Medeiros), com Chave dos Profetas e História do Futuro (António Vieira), com “evangelho” próprio (Fernão Lopes, Manuel J. Gandra), “bíblia” dos feitos (Os Lusíadas) e da decadência (Pátria), com “apocalipse” (Mensagem) que o revela obra alquímica (Brasão/Nigredo; Mar Português/Albedo; Encoberto/Rubedo) gerando o (Quinto) Império do Sol por ciclos desenvolvida (António Telmo, Manuel J. Gandra). Entre “razão e mistério” (António Quadros).
… que ainda o não era…
Era um país ainda por dizer
e uma flauta cantava. Nos salgueiros pendurada
ou na palavra. Uma flautaa tanger
a língua apenas começada. Subia
pelo nervo e pelo músculo
como quem assobia no acento agudo
e no esdrúxulo. Algures por dentro
do país mudo. Uma flauta floria
sôbolos nomes que vão
para nenhures. Algures
contra o vento. Com seus cântaros
e alegrias suas câmaras
da memória. Uma flauta ainda
sem história. Chamavam por ela
os antigos e os apelos ecoavam.
Uma flauta com sua estrela
no alto dos seus castelos em suas altas
escarpas. Nos salgueiros velhas harpas
perguntavam: onde nos levas?
Algures
no país das trevas.
Sôbolos verbos que vão
para nenhures.
Manuel Alegre


… finisterra ou fim do mundo continental onde os mitos se embebiam do adormecer do Sol e dos deuses, do repouso de Hércules e, depois, de S. Vicente velado pelos corvos e do encontro entre terra e mar (José Eduardo Franco) vindos do oriente (Gilbert Durant, Lima de Freitas), transmutados na viagem, como nova Vénus que a concha levou até Paphos (Chipre), onde tem o santuário. Terra de mistérios (Paulo Loução), misterioso (AA. VV.), com uma história oculta(da)/secreta (António Telmo) e um destino em carta natal (António Telmo, João Medeiros).
O Cavaleiro era Henri(que), na Borgonha nascido, que, na raia luso-galega, teria visto/recebido a “Esmeralda de Lúcifer”/“Pedra da Luz” (Lapis Exilis, Lapis Exillis ou Lapis ex coelis), quiçá o Graal-pedra, sinal de revelação e da linhagem destinada a fundar um novo reino espiritual e temporal no cabo da Europa[1], unindo o “coração” da Europa (Borgonha e, quiçá, essa Hungria a que o liga João de Barros[2]) à sua “cabeça”, como Ourique confirmará.
Sinais, afinal. Da transferência do eixo místico da Europa para o ocidente ibérico (translatio imperii), onde Portugal seria indicado como Peanha ou o Trono do Graal, geograficamente, “cabeça da Europa” (Johannes Putsch, Sebastian Münster, António Vieira, Fernando Pessoa). E do cruzamento cultural, na fugaz tomada de Sintra (1109), monte sagrado, das tradições do Oriente/Islão (Vaso Djin ou Ginn) e do Ocidente/Cristandade (Graal), tornando-o centro geográfico da “Tradição das Idades” que ilumina a Esmeralda-Graal.
Sinais na Finis Terrae entre o conhecido e o seu contrário, para onde o iniciado fora incumbido de transportar e restaurar a “Razão do Segredo”, da gnose, tornando-o laboratório para a transição da “Idade do Filho” (a lei e o dogma de Roma) para a “Idade do Espírito Santo” (a liberdade e a gnose), segundo Joaquim de Fiore. Aí, a convergência entre as energias telúricas da Europa e as oceânicas do Atlântico teria gerado a “Obra Alquímica” da nacionalidade portuguesa…
Precede-o a gesta da família Gellone/Guilhelmides (Gesta de Garin de Monglane, sécs. XIII-XV), os lendários “Reis do Graal”, onde se destaca o heróico filho Guilherme de Orange, Conde de Toulouse e Duque da Septimânia, com direito próprio (Gesta de Guilherme, parte da anterior), que se tornou Santo na Abadia de Saint-Guilhem-le-Désert (originalmente, Gellone), que construíra em 804. Seria ele, segundo alguns, o Kyot de Provença (Guiot), fonte da história fabulosa, o cavaleiro-monge “Guardião de Relíquias” (referência ao fragmento da Vera Cruz dado por Carlos Magno guardado na sua Abadia?). Ou seria o Príncipe judeu-cristão de sangue real davídico. Ou, ainda, Pelles, o Rei Pescador, identificados na “ferida” (Guilherme no nariz, o Rei Pescador na coxa), na guarda da relíquia (Abadia de Gellone vs. Castelo de Corbenic) e na cavalaria espiritual (militar que se torna eremita).
Subtil alusão a isso se inscreve na célebre janela de Tomar, cuja estrutura lembra um cálice sobre as raízes de coral e os troncos de carvalho simbolizando a linhagem de Garin de Monglane (o patriarca da família) e do Conde D. Henrique (o do ramo portucalense) que subiu das profundezas da terra para florescer em pedra.
Na névoa lendária, emoldurados pela janela, insinuam-se insuspeitados paralelismos.
Guilherme de Gellone e o Conde D. Henrique assemelham-se como “Cavaleiros Estrangeiros” que vêm para organizar e defender uma fronteira crítica como “escudos” da Cristandade: o primeiro, nomeado por Carlos Magno para a Marca Hispânica (a fronteira dos Pirenéus) a fim de travar o avanço muçulmano; o segundo, por Afonso V, com a missão específica de ser a “vanguarda” contra os Almorávidas no Condado Portucalense. Ambos parentes próximos dos seus reis (Guilherme, primo de Carlos Magno; D. Henrique, genro e aliado de Afonso VI) e alicerces das suas próprias Dinastias “Insubmissas”. Ambos marcados pela mística religiosa de cavaleiro-santo, cujo modelo dominou até ao clímax do Condestável/Galaaz Nuno Álvares Pereira, “S. Portugal em Ser” portador da nacional Excalibur, cruciforme e ungida entre as inscrições “Maria” (de um lado) e “IHS” (Jesus, do outro), forjada pelo Alfageme de Santarém (Fernão de Bragança) conforme novela garrettiana (O Alfageme de Santarém, 1842), evocadora, mas diferente, da original afonsina, bélica e fundadora, embora também lendário penhor da independência de Portugal e da sua invencibilidade relativamente a Castela.
Entre Guilherme d’Orange e Afonso Henriques as semelhanças estão, também, na fundação da identidade familiar, colectiva e territorial alicerçada na autonomia política relativamente a poderes superiores (os Francos no caso de Guilherme; o Reino de Leão e Castela no de Afonso) e legitimada na Cruzada.
Renovar-se-ão paralelismos entre os filhos de Garin de Monglane (da matéria épica de França), os do seu neto Aymeri de Narbonne e os da Ínclita Geração (de D. João I e D. Filipa de Lencastre), “fraternidades de eleição” aproximadas na imagem de coesão, no ideal da “errância” da cavalaria e na diversidade (“especializada”) de destinos/missões prestigiando as sua casas reais e a cristandade, em geral.
Os quatro filhos de Garin de Monglane (Hernaut, Girart, Renier e Milon) dispersaram-se pela Europa destacando-se na guerra, na governação e na fundação de linhagens, como acontecerá com os de D. João I, entre a coroa (D. Duarte), a navegação (D. Henrique), as “Sete Partidas” (D. Pedro, o centro da Europa (D. Isabel) e Tânger (D. Fernando). Mas será entre a prole de Aymeri de Narbonne, neto de Garin, e a Ínclita Geração que os paralelismos se aprofundarão: Guilherme de Orange e o Infante D. Henrique (visionários); Bernart de Brabante e o Infante D. Pedro (político/administrador); Aymer le Chétif e o Infante D. Fernando (sacrifício/ascetismo); Guibert d’Andrenas e D. Duarte (Rei/Herdeiro de Responsabilidade); Blanchefleur e Isabel da Borgonha (diplomacia/estratégia); os “Guerreiros de Fronteira” (Garin, Hernaut e Beuve, por um lado, e os Infantes D. João e D. Afonso, por outro).
Seriam homem e Reino portucalenses guardiões do Graal, que reclamava, além da guarda militar, um duplo cofre: um reino (Portus Cale, Portogral, Porto-Graal) e um templo (a Charola de Tomar), condestáveis (de Afonso Henriques a D. Nuno Álvares Pereira, o “Galaaz do Carmelo”) e “símbolos espectaculares”[3] (como as visões do Conde D. Henrique e de D. Afonso Henriques, ambas anunciando o Reino, a linhagem e a missão).
Tudo isso num retângulo áureo (do Minho ao Tejo, depois, estendido até ao Algarve)[4] “ressoando” a espiritualidade e dominado por um triângulo cujos vértices lhe esboçam a vida (Sintra-Monte da Lua [Passado/Iniciação]; Tomar-Centro [Presente/Ação]; o ponto síntese Mafra-Monte de Al-Kântara/Lugar do Verbo [Futuro/Concretização]) alinhada com telúricas correntes energéticas (Linhas Ley). Lugar do divino e céltico Lugh e do mítico Luso onde o bíblico Tubal aportaria (Setúbal) e o homérico Ulisses seria acolhido pela serpentina Ophiussa. Lugar, também, onde Viriato teria erguido a bandeira lusitana com o simbólico dragão verde (ou a Serpe simplificadora) com pés de leão (fortaleza), asas de águia (sabedoria e velocidade) e a cauda de serpente (astúcia, estratégia e vigilância)… ainda hoje inscrito na heráldica do Porto, cuja cor se reflecte na bandeira nacional e cuja forma se fez rio (Odeleite), sinete de uma identidade com hino esotérico[5].
Portugal seria, pois, um corpo cujo umbigo/omphalos é Tomar, centro geométrico e místico, onde a Charola, coração do convento, se ergue segundo medidas (diâmetro, altura, número de colunas) de múltiplos de 8 (o 8º dia) e 16, concretizando a transição entre o quadrado (Terra) e o círculo (Céu), posicionada num ponto onde as coordenadas geográficas (em segundos e minutos) revelam números sagrados associados à tradição hebraica e cristã. E a Charola seria o local onde o “conhecimento” simbolizado pela pedra de Lúcifer teria sido guardado e ritualizado para activar a ligação terreno-divino, associando-lhes a união das linhagens reais europeias na protecção dos mistérios do Graal sinalizada pela Ordem da Jarreteira na Janela. Uma ligação transitando da velha Cúpula do Rochedo (Jerusalém) para a nova Charola (Tomar), onde a Ordem do Templo se transformará em Ordem de Cristo, numa renovação…


Um Portugal-corpo espelhando o céu, com 7 centros espirituais (Chakras da Nação) correspondendo aos 7 planetas da astrologia/astronomia clássica e às suas respetivas energias: Sintra (Monte da Lua), o centro da intuição, do passado e das águas, a matriz feminina e a preparação iniciática; Arrábida (Setúbal), de Vénus, do Amor-Sabedoria, da beleza e da harmonia espiritual; Tomar (Ribatejo), do Sol, “umbigo telúrico”, centro da Vontade e do Poder Espiritual (Ordem do Templo/Cristo); Serra da Estrela, de Saturno, centro da Lei, do Rigor e da Tradição Ancestral; Serra de Monchique (Algarve), de Marte, com a força da ação; Serra do Gerês (Norte), de Mercúrio, da comunicação, da inteligência e do movimento fundador da nacionalidade (Guimarães/Braga); Mafra/Lisboa, de Júpiter, centro da Expansão e da Glória do Reino (v. Palácio-Convento de Mafra como símbolo da síntese final e do Quinto Império).
… mas que o foi…
… pela espada do Filho, Afonso, baptizado na capela de S. Miguel Arcanjo (Igreja de S. Miguel do Castelo, em Guimarães), miraculosamente curado em criança e ajudado pelo(s) Anjo(s) em batalha (Ourique), como lembra a Ordem de S. Miguel da Ala, personalidade a quem a Mãe, Rainha antes do Reino, teria transmitido a Esmeralda-Graal (quiçá inscrustrada na espada) e o legado da aliança crística com promessa do Reino futuro.
Em 24/6/1128 (Batalha de S. Mamede), dia de S. João Baptista, Solstício de Verão com patrono dos Templários que por cá andariam já.
Ou em 25/7/1139 (Batalha de Ourique), dia de S. Tiago Maior (Santiago), mês associado à estrela Sírio (a mais brilhante e central na geometria sagrada egípcia e templária), ligando o acontecimento a uma “linha de [Pedra de] luz” espiritual desde a visão de Constantino da ponte Mílvia no Tibre (Roma, 28/10/ 312). A cruz luminosa junto ao sol com as palavras “In hoc signo vinces“(gr. ἐν τούτῳ νίκα) que Cristo dirigirá, séculos depois, a D. Afonso Henriques em Ourique numa Nova Nova Aliança fundadora de novo império a haver liderado pela sua linhagem especial que lhe levaria o nome às mais estranhas e longínquas gentes: “Volo in te e in semine tuo fundare imperium meum” (Quero em ti e na tua descendência fundar o meu império). Sob directa soberania divina, ao monarca assim investido de função sacerdotal também é concedido um brasão, objecto de meditação e talismã de protecção (Paulo Loução, João Medeiros), transmutando história (os reis vencidos) em símbolo (as chagas de Cristo) numa disposição dos elementos ligada à simbologia da redenção e à quintessência (prefigurando o cinco o Quinto Império).
Foi o momento de revelação plena e de confirmação ao Filho de Henrique e ao mundo do que fora anunciado ao Pai com a Esmeralda (missão ou profecia?). Afonso, Dux bélico “alçado” Rei por Cristo e pelo seu Povo e cuja linhagem borgonhesa incluía Bernardo de Claraval e derivava da capetiana e da carolíngia, com a merovíngia em cintilante ponto de fuga… Era a Hora! Da afirmação e da revelação do plano divino, justificando a trajectória nacional na nova ordem das coisas do mundo (parafraseando o título garrettiano de 1830).
Na verdade, a cristofania de Ourique foi um episódio de ouro na galeria de outros europeus que foram caldeando uma identidade da “Cristandade” e das suas declinações nacionais: a fundação de Roma por Rómulo e Remo (21/4/753 a. C.); Tolbiac (496?), contra os Alamanos, conduzindo Clóvis à conversão e ao Baptismo por S. Remígio (Natal/496?); as 12 vitórias do rei Artur contra os saxões (séc. V ou VI); Covadonga (722), contra os Muçulmanos, em que Pelágio é protegido pela Virgem Maria; a conquista de Valência por El Cid (Rodrigo Díaz de Vivar) em 15/6/1094; a fundação da Suíça no Pacto Federal (1/8/1291) por lendário Guilherme Tell (associando-lhe o simbólico tiro com a besta em Altdorf em 18/11/1307, o derrube dos tiranos Habsburgos em Janeiro/1308 ou com a sua morte a salvar uma criança em 1354); a Resistência de Krujë (1443–68, Albânia) contra os otomanos assegurada por Skanderbeg/Gjergj Kastrioti, “Atleta de Cristo”; a Batalha de Viena (1683), “salvação da cristandade”, de Jan III Sobieski da Polónia, o “Leão de Lehistan”, à frente dos Hussardos Alados, contra os otomanos, o que lhe valeu o epíteto de “salvador de Viena e da civilização europeia ocidental”; etc.. Senda a que não faltam, aliás, derrotas famosas como a de Roncesvalles (778), dos Pares de França, com a morte do heróico Rolando, “sobrinho” de Carlos Magno (La Chanson de Roland). Episódios de crise pelo confronto com um inimigo poderoso e onde a excepcionalidade heróica é sagrada por deus, pelo destino e pela virtude.
Em 5/10/1143, em Zamora, Afonso VII de Leão e Castela reconhece a independência de Portugal e D. Afonso Henriques como Rei sob sua vassalagem imperial, tornando-se este, de seguida, vassalo directo do Papa através da carta Clavis Regni (13/12/1143) com oferta de tributo (4 onças de ouro anuais), que o Papa Lúcio II aceita na sua Devotionem tuam (1/5/1144), tratando-o como ilustre Duque.[6]
E, em 23/5/1179, por fim, a bula Manifestis Probatum do Papa Alexandre III será a certidão institucional do que já estava feito: o reino de Portugal.
Nos selos-sinais rodados afonsinos, Rei e Reino fundem-se (v. cartas de doação e/ou de aforamento reais de Sintra, do Reguengo de Colares e de Ceras) numa geometria circular ou rectangular por onde se distribui “Porto-Gr(a)al”/“Por-Tu-Gral”, insinuando-os como Trono do Graal. E o Arcanjo S. Miguel, Príncipe das Milícias Celestes, orago de D. Afonso Henrique, ter-se-ia manifestado em Ourique (segundo algumas versões da lenda, em embaixada anunciando a cristofania) e na tomada de Santarém, onde chefiou as forças angélicas, facto celebrado pela Ordem de S. Miguel da Ala (1147), dinástica portuguesa, directamente ligada à pessoa do Rei e à sua linhagem.
Enfim, em 14/8/1385, Aljubarrota replica a vitória fundadora com um Condestável, D. Nuno Álvares Pereira, sob mariana protecção, e um Grão-Mestre feito Rei (D. João I). Aviz/sinamente. Instituindo uma corte artúrica, graálica[7], uma nova Távola Redonda em torno de João-Artur e de Nuno Álvares-Galaaz, com D. Afonso Henriques-Perceval (busca inicial e fundação) em ponto de fuga e um futuro e ainda só sinalizado D. Sebastião-Rei Pescador (no enfraquecimento da “ventura” na 17ª geração da linhagem).
Aviz/s assegura a passagem da linhagem de sangue para a linhagem de espírito restauradora da ordem do mundo (renovatio) após o “nevoeiro” da Crise de 1383‑85 e a prova/vitória de Aljubarrota e sob o signo da cruz verde de Avis (viva, não sacrificial, regeneradora) do rei‑ponte (pontifex), eleito e aplaudido pelo povo, mediador, ordenador, associado ao “cavaleiro-santo” (Nuno Álvares Pereira). Inflecte a viagem para o mar, abrindo-se à universalidade dos Descobrimentos. E inicia a missão do mar-conhecimento.
… mas … e avançou além-mar… que o foi…
A esmeralda de Lúcifer (pedra de Luz ou conhecimento esotérico) que o conde D. Henrique recebera incrustar-se-á na heráldica de Coimbra, celebrando a Rainha do Graal, Isabel de Aragão, intimamente ligada aos ideais de cavalaria e à proteção de correntes espirituais (Templárias e Franciscanas). Rainha cuja virtude e saber promoverão a transmutação matérica pelas rosas e a suspenderão na incorruptibilidade do corpo, sinal da “pedra filosofal/”esmeralda interior”, da vitória do espírito sobre a decomposição da matéria.
A sua luz brilhará na mandala espiritual (da Ordem) avisina organizada em torno de um centro (D. João I, Mestre e rex mediator), com um guardião (Nuno Álvares Pereira, cavaleiro do centro), a sabedoria (Filipa de Lencastre-Sophia, Princesa do Graal vinda das ilhas da névoa), uma estrutura (Ordem de Avis) e uma projeção no futuro (Ordem de Cristo, missão atlântica e Quinto Império). Avis/z como matriz espiritual do novo Portugal, ductilizando a cruz da espada e transformando-a em vela para o mar ignoto. Portugal avisino (« lat. Avis, ave), soprado pela eleição comunitária numa refundação promovida pelo voo em direcção ao mar, diversa das homólogas histórias sagradas de fundação: Israel, pelo pacto (Moisés), Roma, pelo sacrifício e perda de Tróia (Rómulo), a Bretanha, pelo enigma (Rei oculto Artur)…
Depois, a esmeralda incrustou-se no anel de outro Henrique, o Infante, que se fixou no Promontorium Sacrum (Sagres) onde os deuses dormiam, perscrutando o “Mar das Trevas” e enviando emissários a outro João que não o Baptista: o Prestes João das Índias que na Etiópia se revelou, afinal, descendente dos bíblicos amores da Rainha do Sabá e do Rei Salomão. Orientar-nos-á para ele o mapa das Maravilhas do Mundo de Marco Polo que o Infante das Sete Partidas traz de Veneza, “fund[ando] glória e grandeza” (Sophia de Mello Breyner Andresen) em via assombrada pela sua morte em Alfarrobeira (1449). E as naus-“igrejas” abrem novas rotas iluminadas pela luz da Pedra (Conhecimento). A espiritualidade plasmada na cruz das velas petrificar-se-á numa última na foz do Tejo: a que o Infante levanta em sacerdotal gesto eucarístico no Padrão dos Descobrimentos, cujo “Cristo” será o Infante Santo D. Fernando. “Num ápice” (Sophia)!
Reflectir-se-á, quiçá, também nas pedras azuis e vermelhas do Tosão de Ouro cuja Ordem (1430), criada por Filipe, o Bom, de Borgonha, homenageará D. Isabel pelo casamento marcando, também, o regresso da casa de Borgonha às suas origens telúricas sob o signo do ideal da “Távola Redonda”. Será o último enlace luminoso das linhagens de Avis e da Borgonha na missão providencial (quase graálica) antes do Renascimento, fraternizadas na evocação greco-latina da Argonáutica (a busca do Velocino de Ouro por Jasão e os seus companheiros). A sua insígnia brilhará no peito do sobrinho João de Portugal, duque de Coimbra, príncipe titular de Antioquia (1433-1457) e filho do ínclito e trágico D. Pedro das Sete Partidas, e, mais tarde, nos do príncipe regente D. João, futuro D. João VI, dos reis D. Carlos e D. Manuel II e do Príncipe Luís Filipe, mas também de S.A.R. D. Duarte Pio, Duque de Bragança.
Ou cintilará mais tarde, no anel (herdado do tio Infante D. Henrique) que Afonso V oferece ao primo Carlos, o Temerário, como símbolo da renovada aliança entre Borgonha e Portugal, aquando das suas pretensões ao trono de Castela. A sua luz extinguiu-se na morte desse novo dono na batalha de Nancy (1477), afundando na névoa a linhagem cavaleiresca “graálica” que ligava a Borgonha a Portugal desde o Conde D. Henrique…


… saqueado o corpo no campo de batalha, perdida ou escondida[8] a esmeralda[9], leva consigo a mágica protecção/”Sorte” da linhagem e do reino.
E cede o protagonismo à dourada e instrumental Esfera Armilar, mecanismo de orientação e símbolo místico no tempo de D. Manuel I, representando a totalidade do cosmos, mas, no contexto manuelino (de cruzes de Cristo e cordas), sugerindo que Portugal detinha a “chave” ou o “centro” do mundo, como o fizera antes a Esmeralda de Lúcifer.
Será essa luz esmeraldina dourada pela esfera que se projectará na utopia quinto imperial do espírito (santo) e da paz profetizada popularmente por Gonçalo Anes Bandarra, o sapateiro de Trancoso, teologicamente pelo Pe. António Vieira e poeticamente por Fernando Pessoa: o regresso de D. Sebastião (Desejado-Encoberto) seria, simbolicamente, o momento em que a esmeralda seria recolocada na “testa” da humanidade, activando-lhe a clarividência espiritual. O Romantismo reflecti-la-á nos olhos dessa Joaninha-Portugal enlouquecida pelos ventos da paixão e da história (Viagens na Minha Terra, 1864), que Guerra Junqueiro reinventará no Doido-Nun’Álvares Pereira-Portugal (Pátria10, 1896), conduzido pelos mesmos ventos à morte e anunciada ressurreição. Ao fundo, ouve-se a ópera de Donizetti[11] com D. Sebastião a assistir ao seu próprio cortejo fúnebre e a ser preso e morrer como impostor…
O Portugal dracónico nascido sob o signo poderoso da Águia (Império Carolíngio, Borgonha e Sacro Império Romano-Germânico, mas também bizantina)[12], transmuta esse símbolo imperial na Pomba (Avis/Espírito Santo) da fraternidade universal e missão espiritual, voando além-mar e afundando-se nele (A Morte da Águia, 1910) para promover a sua demanda pela navegação… com esmeraldino guia de situ Orbis (1506) que Duarte Pacheco Pereira ofereceu à modernidade, substituindo o de Pompónio Mela (De Situ Orbis ou De Chorographia, 43-44 d.C.).
Tragicamente perdidas as suas espadas ungidas[13], uma na tragédia de Alcácer-Quibir (a fundadora, de D. Afonso Henriques levada pelo último da linhagem, D. Sebastião) e outra (a da independência e da fé, do Condestável), quiçá, no Terramoto de 1755, e a esmeralda/Luz na “noite alquímica” de Portugal (batalha de Nancy, 5/1/1477)… Portugal vê mudar o mapa político europeu: sem herdeiros varões, Borgonha é anexada a França por Luís XI (1477-82), abrindo a via para o poder global dos Habsburgos completando na União Ibérica (1580-1640) o “império onde o sol nunca se punha”.
E Portugal repensa-se na nova ordem de coisas do mundo[14], imaginando-se ainda Porto do Graal de ecuménica eucaristia: de reconciliação das religiões abraâmicas[15], do apocalipse (revelação) da “Razão do Segredo”, rosto de um futuro onde a humanidade reencontrará a sua essência divina sob a luz declinante do Ocidente, alma vibrando com essa saudade do futuro (Teixeira de Pascoaes, António Quadros)… esfinge assim respondendo à homóloga egípcia em lusitana renascença (Renascença Portuguesa)[16]…
… e transformou-se…
Na bandeira da República, o verde sinaliza o Partido Republicano Português, a esperança popular e a vitalidade da terra/nação, mas também insinua a referência à cruz de Aviz/s (a mais antiga nacionalmente), à Ordem Militar da Torre e Espada (com uma coroa de louros de esmalte verde no pendente das insígnias), ao verde dracónico das origens lusitanas e à esmeralda perdida volvida esperança do seu reencontro, potenciando o sentimento sebastiânico de vazio sob a coroa régia desde a sua entrega simbólica à Nossa Senhora da Conceição (na Restauração), cujo círculo de estrelas se projectou, por seu turno, na bandeira da União Europeia.
Ao fundo, o canto da camoniana “tuba canora e belicosa” enrouquece-se e embebe os cantos não europeus do império em quybyrycas vozes (Frey Ioannes Garabatus/António Quadros, 1972) que o deslaçam em desejos de ser onda (Manuel Rui, 1982) e lhe metamorfoseiam o timbre em lusofonia…
Do solar “O Despertar de um Deus” (canto I d’ A Morte da Águia, 1910) ao nocturno “A Morte da Águia” (canto VII d’ A Morte da Águia), de Jaime Cortesão, ciclo do sol esboçado pelo voo d’ A Águia (1910-32) evocado na Nova Águia (2008 e ss.), fica a ideia de Portugal como a própria Esmeralda de Lúcifer lapidada pela história de glória e sofrimento, “reserva e tesouro espiritual da Europa” (Gilbert Durand) vocacionada para ser farol civilizacional da já “espectral Europa” (Conde Hermann von Keyserling, Das Spektrum Europas, 1928) n’ “a hora da decisão” (Oswald Spengler, 1934). Singular[17] Bela Adormecida que um novo “Príncipe dos Poetas” quer despertar com o beijo-Mensagem (1934) de labiríntica saudade (Eduardo Lourenço) no intervalo de guerras sangrentas…
Tudo isto, como diz Jaime Cortesão, é História para os Anjos n’ A Sinfonia da Tarde (1910, 1912[18]). No Crepúsculo dos Deuses (Jaime Cortesão, Richard Wagner) cujo memorial se petrificou na Janela de Tomar.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Fernando Pessoa
Mensagem, 1934
The dreaminess of Portugal has also helped to keep her separate from the rest of Spain.
She looks West to the glorious past.
Salvador de Madariaga.
Portrait of Europe, 1950

[1] De acordo com algumas lendas da cariz esotérico, o Conde D. Henrique de Borgonha teria tido a visão de Deusou Lúcifer a mergulhar como um cometa no rio Minho na raia de Espanha minhota, intuindo que o território em que entrava seria o que o fez gritar: “Porto Graal! Porto Graal! Porto Graal!”. As versões são elusivas e diversas, mas comungam da ideia de visão-revelação da fundação de um novo e especial reino e da esmeralda que teria ficado na sua posse, memento desse apocalipse.
[2] Refiro-me ao romance de cavalaria Crónica do Imperador Clarimundo (1522), de João de Barros. Cf. K. B. Michelan. Percursos históricos na consolidação de um fundador. In: Um rei em três versões: A construção da história de D. Afonso Henriques pelos cronistas medievais portugueses [online]. São Paulo: Editora UNESP, 2011. p. 94. [https://doi.org/10.7476/9786557145395.0005]
[3] Cf. Gilbert Durand. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral, S. Paulo, Editora WMF Martins Fontes, 2012. pp. 146-158.
[4] No mapa de Portugal, a relação entre a largura média (Este-Oeste) e o comprimento (Norte-Sul) aproxima-se da Proporção Áurea (de 1,618). Na alquimia e na geometria sagrada, o retângulo áureo é o único que se pode subdividir infinitamente em quadrados e novos retângulos áureos (a Espiral de Fibonacci), abrindo-se ao Infinito (gera a espiral das Navegações/Expansão) e acolhendo a luz do resto do mundo. A Mitogeometria de Portugal (2001), que Carlos Calvet analisou e que tem sido matéria de reflexão de Lima de Freitas, Paulo Pereira e Eduardo Amarante, dentre outros.
[5] Cf. ilustrado pela pintura “Brasão d’Armas de Portugal – Pelo Dragão Alado é Guardado”, de Mariana Soares (Arte Vagamundo), o “Hino ao Dragão de Portugal”, de Rémi Boyer in Hinário ao Rei Encoberto – 17 Trovas Sebastianistas (Sintra, Zéfiro, 2013): “Tu, Dragão original e derradeiro/ Tu, Dragão mutável/ Ora cintilante no meio do céu volúvel/ Ora invisível no fundo do negro abismo // Que permaneces, porém/ Eterno no presente instante// /…/ Que outrora flutuavas sobre o estandarte/ Ao lado dos cinco escudetes de azur/ E dos sete castelos de ouro/ Que animas a esfera armilar/ Desde o alvor dos tempos /…/” (acessível em https://www.instagram.com/p/DN338P9CNCF/]
[6] Cf. Documentos, traduções e transcrições em: https://www.amap.pt/p/hist-afonso-henriques-dux-que-se-fez-rei-2
[7] Cf. sobre o diálogo entre a Crónica de D. João I (1443), de Fernão Lopes e a Estória do Santo Graal (séc. XII), sinalizando a atmosfera vivida pela corte de D. João I como de uma nova Távola Redonda: Paulo Morgado e Cunha, “‘Batalhas fundacionais’: da Estória do Santo Graal à Crónica de D. João I, de Fernão Lopes”, in Guarecer. Revista Electrónica de Estudos Medievais, n.º 2, 2017, pp. 19-40. DOI: 10.21747/21839301/gua2a2.
[8] Alguns defendem que ela teria sido ocultada pela Ordem de Cristo para evitar que o seu poder caísse em mãos estranhas e indesejáveis… e seria usada no centro da Charola de Tomar em rituais de consagração dos cavaleiros.
[9] Este anel é frequentemente confundido ou associado, em termos de lenda, ao famoso diamante “Sancy” do Tesouro dos Duques de Borgonha que se dispersou pela Europa após 1477. Esse diamante, de origem mongol ou indiana e dimensão bem maior (segundo alguns, o Balle de Flandres), cujo pentágono central é o remanescente da marca das quinas portuguesas, terá cintilado em alguns dos acontecimentos mais marcantes na Europa nos últimos 500 anos, passando de Carlos o Temerário, pela sua morte (Nancy, 1477), para D. Manuel I (Portugal) e acompanhando a dinastia de Avis por um século até sair de Portugal após o desastre de Alcácer Quibir levado por D. António, Prior do Crato, para França e Inglaterra (quando é nomeado por Nicolas de Harlay, Senhor de Sancy). Por ocasião das guerras civis conducentes à decapitação de Carlos I, o diamante regressou a França (meados do séc. XVII) e encimou a coroa real da Casa de Bourbon cerca de 150 anos. Durante a Revolucão Francesa (1789-1799), o tesouro real é saqueado e o Sancy desaparece para só voltar a ser referido quando comprado pelo príncipe russo Anatoly Demidov (1828), até ser vendido pela família a Sir Jamsetjee Jeejeebhoy (1865), príncipe indiano que, por sua vez, o venderá à familia dos viscondes de Astor de lnglaterra, cujo 4º Visconde o vende ao Museu do Louvre (1978), onde permanece. Cf. [https://ilovebrides.pt/blog/joias/diamante-sancy].
[10] Significativamente, entre 1890 e 1895, o título previsto foi mudando antes da publicação, sinalizando a leitura, quer do texto, quer de Portugal: Portugal no Calvário e Agonia.
[11] Dom Sébastien, roi de Portugal (1838), de Gaetano Donizetti, com libreto de Eugene Scribe baseado na peça Don Sébastien de Portugal de Paul Foucher (1838).
[12] Curiosamente, no brasão de Sesimbra do séc. XVI, a águia pousada no castelo e um cão a fugir representam D. Afonso Henriques a conquistar o castelo aos mouros. Cf. [https://www.sesimbra.pt/municipio/heraldica].
[13] Apesar das cópias que são exibidas como se fossem originais. No caso da de D. Afonso Henriques, a cópia mais famosa é a de uma espada de aparato posterior (século XIV) que a tradição “assumiu” como original e que podemos ver no Museu Militar do Porto, sendo certo que se considera uma réplica exata em bronze na mão da Estátua de D. Afonso Henriques (de Soares dos Reis), em Guimarães. No caso da do Condestável, também a controvérsia se mantém relativamente a cópias seguindo a descrição garrettiana: a do Museu Militar de Lisboa, embora seja da época, os especialistas consideram-na uma espada votiva ou de representação e não a arma pessoal do Condestável usada em Aljubarrota; na cripta de D. Nuno do Castelo de Ourém, também há representações e réplicas que evocam a arma do “Santo Condestável”.
[14] Do título garrettiano Portugal na balança da Europa: do que tem sido e do que ora lhe convém ser na nova ordem de coisas do mundo civilizado (1830), uma reflexão na senda de longa corrente que nos vem, pelo menos, desde a célebre Carta de Bruges (1426), do Infante das Sete Partidas.
[15] Lembremos o encontro de Abraão e Melquisedeque (1538-39), de Gregório Lopes, simbolizando a harmonia entre as religiões (cristã, judaica e muçulmana) cujas insígnias eram arvoradas em estandartes e personificadas pelos respectivos representantes.
[16] Inicialmente, “Renascença Lusitana” foi a designação pascoalina do movimento/associação renomeada Renascença Portuguesa e defendida pelos periódicos A Águia — Órgão da Renascença Portuguesa (séries II-V, 1910-32), e Vida Portuguesa (1912-15).
[17] De uma singularidade reconhecida no ‘concerto da Europa’, como destacam Ortega y Gasset (A Revolta das Massas, 1929), Oswald Spengler (A Hora da Decisão, 1934), Salvador de Madariaga (Portrait of Europe, 1950), André Siegfried (L’Âme des Peuples, 1951), Gilbert Durand (Portugal: tesouro oculto da Europa, 1988) dentre outros.
[18] A Águia: revista quinzenal ilustrada de literatura e crítica, nº 1, Porto, Tércio Miranda, Dez/1910, pp. 17-22. [https://permalinkbnd.bnportugal.gov.pt/viewer/132885/?return=1&prev_next=0#page=22&viewer=picture&o=info&n=0&q=]
* Professora Universitária e membro do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal
